Medo de quê?
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sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Vivian Fukushima<br>Reportagem Local 
"Eu não tenho medo de nada. Durmo com a mamãe porque gosto dela", explica João Lorenzo Matulaitis, 5 anos. No entanto, Lucélia Marina Lucketti Matulaitis entrega o pequeno. "Ele diz que não tem medo, mas até durante o dia não gosta de ir ao banheiro sozinho. Ele tem medo, sim, só não gosta de dizer", conta.
De acordo com Isabella Thaís Mattos Pires Kaster, psicóloga, especialista em Psicoterapia Infantil na Análise do Comportamento, o medo é um sentimento saudável, que ativa os sinais de alerta do corpo diante dos perigos. É um fator biológico de defesa e proteção relacionado ao instinto de conservação, extremamente necessário para proteger a todos dos perigos. "Existem casos que põem em risco a integridade física e emocional de uma criança, como por exemplo, uma piscina, a rua movimentada, tomadas, objetos pontiagudos, etc. Como a criança pequena não tem a percepção necessária do perigo, cabe ao adulto a tarefa de conduzi-lo a um medo saudável dessas situações reais e cotidianas", explica.
Segundo a psicóloga, os medos mais comuns relacionados à fantasia são: fantasmas, monstros, lobo mau, bicho-papão, bruxa e escuro, e os ligados à realidade são: ladrão, assalto, morte e pessoas estranhas.
Medo do real
Lucélia conta que há cerca de um ano, João Lorenzo desenvolveu um medo peculiar de policiais. Ela diz que durante as idas para a escola, alguns coleguinhas mais velhos brincavam com o garoto dizendo que policiais iriam pegá-lo e prendê-lo. "Cada vez que ele avistava um oficial, se abaixava e tentava se esconder. Tinha muito medo mesmo", diz. A solução veio através da atitude da avó, que resolveu levar o garoto até dois policiais que estavam parados no Calçadão de Londrina e pediu para que explicassem a ele o que realmente faziam. "Eles disseram que a função deles era proteger as crianças, conversaram bastante com meu filho, foi bem legal", conta. Depois disso, o medo se foi.
Para a psicóloga, a forma como a avó agiu foi fundamental para a superação saudável desse medo. "Ajudar os filhos a enfrentar os medos é uma forma eficaz de lidar com eles. Os medos fazem parte do processo de desenvolvimento da criança. E superá-los contribui para a autoestima, promove autonomia e auxilia no desenvolvimento emocional".
Isabella afirma que os pais devem sempre dizer a verdade, através de uma mensagem curta e breve, com segurança e autoridade. "Se a criança vai tomar uma vacina, por exemplo, é importante dizer que vai doer sim, mas que ela vai aguentar, que é forte e que a mamãe, ou outra pessoa, está ali para dar força e apoio", diz. Além disso, vale ressaltar ainda a importância dos pais respeitarem os sentimentos dos filhos, de modo que não ridicularizem e nem desvalorizem o que sentem.
Temores antigos e atuais
Lucélia conta que quando era criança costumava ouvir muito de sua mãe: "Não vá longe senão o homem do saco te pega". "Eu morria de medo e, por isso, acabava ficando por perto mesmo. Mas hoje, com meu filho, nunca disse nada sobre homem do saco. O que faço é explicar a ele o certo e o errado".
"Como a realidade atual é diferente de 50, 60 anos atrás, pode-se dizer que alguns dos medos mudaram de nome e endereço devido à realidade distinta. Porém, bicho-papão, lobo mau, bruxa, monstros continuam sendo personagens corriqueiros em historinhas e músicas infantis. Esses medos ligados à fantasia são os mesmos experimentados por nossos avós, uma vez que fazem parte do universo imaginário infantil", explica Isabella.
Entenda esse sentimento
De acordo com a especialista, o bebê já esboça reações de medo a barulhos ou sons altos, luzes intensas, pessoas estranhas e riscos de queda. Mas é a partir dos sete ou oito meses que fica mais evidente a expressão de medo por parte dos bebês, quando costumam estranhar ambientes e pessoas com as quais não estão acostumados.
A maneira e a intensidade desse sentimento variam de criança para criança, dependendo das experiências vividas, do ambiente familiar e de outras variáveis. Segundo Isabella, à medida que a criança cresce, há um desenvolvimento biológico cerebral natural que a capacita pensar e raciocinar sobre as coisas que a cercam, levando-a a imaginar e também refletir sobre a realidade. "A partir dos três anos de idade, a imaginação da criança é muito fértil. Vão surgir então medos mais intensos e abstratos, como do escuro, de bruxas, fantasmas, monstros e bichos-papões", diz.
Porém, apesar de saudável, quando esse sentimento passa a ser exagerado é preciso procurar ajuda, já que a integridade física e/ou emocional pode ser afetada. "O medo excessivo pode causar tanto reações físicas, como dor de barriga, palpitação, enurese (micção involuntária), como também comportamentais: agressividade, isolamento, choro em demasia, e crises de ansiedade".


