Medo além da conta
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
A estudante Flavia Reche Gellamo, 26 anos, encara um simples passeio pelo Calçadão de Londrina como uma grande vitória. Vítima de uma fobia incontrolável de qualquer animal com plumagem (ornitofobia), ela sofria só de pensar em transitar entre as pombas que habitam no local.
O medo de Flavia começou ainda na infância, por influência de sua mãe. ''Ela encontrou uma galinha morta, quando era criança, e ficou com trauma disso. Mamãe desenvolveu o medo e, sem querer, passou essa fobia para mim. Dizia para eu me afastar das galinhas, que eram animais feios e sujos. Eu passei a ter medo delas e fui generalizando para todos os tipos de aves. Na casa da minha avó havia um galinheiro, e um dia meus primos me fizeram entrar. Eles estavam ao meu redor, me protegendo, mas eu fiquei apavorada'', lembra.
Sem nenhum tipo de tratamento, o medo de Flavia foi tomando proporções gigantescas. ''Eu estudava em um colégio no centro da cidade e, se precisasse ir até à biblioteca, dava uma volta enorme para não passar pelo Bosque, por causa das pombas e galinhas que ficam ali. O medo foi aumentando tanto que cheguei ao ponto de não assistir filmes que tivessem aves e nem passar na sessão de frangos do supermercado'', conta.
Apesar de se sentir incomodada com a situação, a estudante imaginava que não conseguiria encontrar solução para seu problema. Foi quando começou a ter aulas de psicologia na faculdade que Flavia descobriu que poderia se livrar do problema. ''Uma vez fui passar o fim de semana na fazenda do avô do meu marido e não dormi a noite inteira, pensando que o galo, preso no galinheiro, poderia chegar perto de mim. No dia seguinte, um passarinho voou em mim e eu tive uma crise de choro. Nesse momento decidi que precisava fazer alguma coisa'', lembra.
Foi então que Flavia procurou a psicóloga Fernanda Brandão para tratar de sua fobia. Especialista em psiquiatria, Fernanda utiliza uma técnica chamada Clínica de Portas Abertas para tratar fobias, transtornos obsessivos-compulsivos (TOC) e outros distúrbios de comportamento. ''Eu percebia que o tratamento convencional no consultório não dava o resultado esperado. Quando o paciente se deparava com a situação que lhe causava angústia, ele nem sempre sabia com agir'', afirma Fernanda.
Com a nova técnica, o paciente alia as consultas no consultório com atividades externas acompanhadas. ''As consultas geralmente acontecem uma vez por semana, e as saídas podem ocorrer duas ou três vezes, dependendo de cada caso. Para tratar fobias, é importante ficar frente a frente com a causa do problema. Assim, o paciente consegue treinar a respiração para o relaxamento, enquanto o profissional observa suas reações aos estímulos. Para tratar alguém com anorexia, por exemplo, é importante levar a pessoa até um restaurante e fazer com que ela vá se habituando com a comida'', explica a psicóloga.
Nas consultas fechadas, o profissional tenta desvendar os motivos das fobias ou outros distúrbios. De acordo com a especialista, esse período pode durar de dois a três meses. ''É preciso respeitar o limite de cada pessoa. Só levo o paciente para vivenciar seu medo quando percebo que ele consegue fazer isso. Nesse tratamento a pessoa é incentivada a ir adiante, mas sempre respeitando sua tolerância à tensão psicológica à exposição. Em média, somando as atividades externas, o processo todo pode ser 50% mais curto do que o tratamento só em consultório'', garante.
Para baratear o custo, os pacientes podem optar por um acompanhante terapêutico (AT), indicado pelo profissional que trata o caso. ''Os ATs geralmente são alunos de psicologia ou psiquiatria em período de estágio. Eles são orientados pelo especialista, conhecem o histórico do paciente, e custam até dez vezes menos do que uma consulta normal'', comenta. Para o caso de Flavia foram necessários dois anos para que o medo de aves fosse controlado.
Flavia lembra que o tratamento começou no consultório com fotos dos animais e a compreensão da fobia. ''Depois disso começamos a ir para a rua e eu percebi que podia lidar com a situação sem entrar em pânico. Tive alta há três anos e hoje levo vida normal. Para mim, o tratamento deu resultado graças às sessões feitas em locais onde eu ficava em contato com as aves. Poder andar na rua sem medo é um alívio enorme para mim'', garante ela.


