Mamãe é uma sereia
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sexta-feira, 14 de janeiro de 2005
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Com os avanços da medicina estética, envelhecer hoje é quase uma questão de escolha. Roupas e costumes também ajudam. Mamãe e vovó deixaram de lado as roupas sóbrias e os cabelos comportados para desfilar modelitos ousados, em modelagens que não carregam mais um visual que delimita a idade como antigamente. Assim, encontrar mulheres que aparentam muito menos idade do que realmente têm já é comum.
Essa transformação leva para dentro de casa algumas mudanças. Quem nunca pensou que mãe e filha fossem irmãs? Isso porque elas dividem roupas, calçados, usam os mesmos acessórios, têm cortes de cabelo parecidos e andam juntas como grandes amigas. Mas, segundo a psicóloga Rosana Esper Conte, tanta proximidade pode trazer problemas para a relação. ''Essa história de mãe ser a melhor amiga não funciona. Mãe tem que ser mãe, tem que aconselhar, proteger. Os filhos precisam ter a noção de hierarquia e respeito pelos pais. Mães e filhas ficam mais unidas com uma certa dose de separação'', diz.
Sabedoria Saber lidar com essa possibilidade e desejo de não envelhecer requer sabedoria e carinho de ambas as partes. A psicóloga afirma que o grande problema é que nossa sociedade relaciona sempre o belo à juventude e o feio à velhice. ''Isso causa nas mães, ainda que inconscientemente, um certo incômodo devido à beleza da filha adolescente. Enquanto a garota está descobrindo sua sexualidade, com a menarca e os primeiros namorados, a mãe começa a entrar na menopausa e perder a juventude. Como somos humanos, a inveja acaba aparecendo, mesmo que a gente não admita'', comenta.
Nessa hora, é importante que a mulher saiba diferenciar o seu momento de maturidade com o de descobertas da filha. ''Muitas vezes, quando a filha começa a se tornar adolescente, as mães passam a rever sua própria história e a lembrar de frustrações e assuntos mal resolvidos. A mãe precisa ver que ela não é menos bela que a filha, mas bela de um jeito diferente. Esse imenso desejo de querer atrasar o relógio não faz bem à nenhuma das duas'', diz Rosana.
Isso não significa que a imagem de mamãe descuidada e cansada de antigamente deva prevalecer, mas existem outros pontos importantes a ser lembrados. ''Algumas mulheres passam a se considerar objetos de decoração e desejo e se esquecem de trabalhar outras questões, como a espiritualidade, a sabedoria, o humor. São valores importantes a serem passados para as filhas, além do cuidado com a aparência'', lembra a psicóloga.
Inveja E como uma adolescente encara o fato de ter uma mãe com cara e corpo de garota? Segundo a especialista, a situação tem seu lado bom e ruim. Ao mesmo tempo que é importante para as filhas terem a mãe com a aparência jovem, o sentido de competitividade pode ser aguçado por um narcisismo exacerbado. ''Vemos muitas filhas que oprimem as mães que são bonitas, recriminando a maneira como elas se vestem, por exemplo. E o oposto também acontece. Casos de mães que diminuem as filhas e dizem que elas estão feias quando na verdade não estão. Isso pode gerar competitividade entre as duas. Algo que é normal mas deve ser controlado para que não se transforme em ódio e ressentimento profundos'', alerta.
Se mãe e filha souberem lidar com a beleza uma da outra e com a sua própria, o relacionamento tende a ser amoroso e construtivo para as duas. ''As filhas podem aprender muito com as mães e vice-versa. Existem mães que se inspiram ao verem as filhas estudando, por exemplo, e voltam à escola. E a amizade deve ser sempre preservada. Dividir roupas e sair juntas, conversar, são atitudes importantes. Isso se torna mais fácil quando mãe e filha se aceitam e compreendem uma à outra'', garante. n


