Mães superprotetoras em tempos de garotas superpoderosas
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quinta-feira, 17 de julho de 2003
Rosângela Vale<br>Reportagem Local 
Ainda que mantenham diferenças básicas de personalidade, meninas e meninos já não vivem em ''planetas'' tão diferentes em termos comportamentais. O conceito de impetuosidade para eles e recato para elas é, definitivamente, coisa do passado. Mais livres para desfrutar da liberdade sexual conquistada pelas mulheres nas últimas décadas e não tão presas a ditames morais , as adolescentes de hoje estão muito mais liberadas.
Consequentemente, também estão mais expostas aos perigos da vida moderna: violência, drogas, doenças sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada. Mesmo que seja do tipo ''cabeça aberta'', uma mãe não é existencialmente capaz de dormir em paz enquanto não ouve a porta se abrindo e tenha a reconfortante certeza de que a cria voltou para debaixo de suas asas. Cuidar sem podar, educar sem tolher é um dos desafios da maternidade nesses tempos de garotas superpoderosas. Afinal, como lidar com essa nova postura feminina sem bancar uma 'mamma' superprotetora? Quais os limites entre orientar para a vida nas ruas e querer controlar a vida da filha?
Para a ortodontista Sílvia Tobias Ruiz, a menina tem que estar emocionalmente estruturada para viver sua liberdade de forma responsável. Por isso, o papel dos pais e sobretudo da mãe é fundamental. Meninas muito novas, na opinião dela, não estão preparadas para suportar as frustrações dos relacionamentos, para discenir as boas das más companhias e para se defender da ''lábia'' inata dos garotos. Por isso, Sílvia optou por não permitir saídas noturnas da filha, Helena, antes dos 17 anos. Ela só passou a frequentar bares e boates recentemente, sempre com as amigas e os irmãos por perto. Os pais se revezam na função de levá-la e buscá-la e o horário é combinado de antemão.
Discernimento À fórmula ''rigidez com amor'' usada pelos seus pais, Sílvia acrescentou mais diálogo. ''Hoje, não dá para proibir, não funciona. É preciso ter argumentos fortes. Dos 14 aos 16 anos, ela questionava muito. Queria saber porque o irmão podia sair e ela não. É uma coisa de supermãe mesmo. A gente tem mais cuidado com as meninas. Elas são mais sensíveis, sofrem mais com as coisas, colocam muito o emocional nas situações da vida'', observa a ortodontista.
Durante dois anos, Sílvia se empenhou em orientar a filha sobre ambientes, amizades e relacionamentos, usando como exemplos colegas da sua faixa etária que começaram a namorar muito cedo e, por complicações afetivas, acabavam tendo problemas na escola. ''Tive um trabalho intenso para preparar a cabeça dela, mas foi gratificante. Hoje ela está pronta, não tem aquela postura deslumbrada de adolescente quando começa a sair'', conta, orgulhosa, a mãe.
A empresária Elizabete Côrtes também acredita no diálogo e na necessidade de colocar limites. ''Os pais têm que dizer a uma criança para ela não passar com a bicicleta no buraco, senão ela vai cair. Quando se consegue transmitir esse discernimento, já não é preciso dizer não'', argumenta. Com a filha Bárbara, 16 anos, os limites vêm em forma de horário: as festas, para ela, sempre terminam à meia-noite. Mas, até lá, o celular entra em ação. ''Nos falamos sempre. Às vezes, pelo tom da voz, já sei que ela quer vir embora'', observa.
O costume de falar com os filhos por telefone todos os dias foi intensificado depois que a família foi assaltada. ''Ficamos mais ligados um no outro'', conta Elizabete. Apesar das inúmeras precauções contra a violência urbana, Bárbara diz não deixar de fazer tudo o que gosta. ''Prefiro esperar ter 18 anos para ir à boate. Minhas amigas já foram barradas e pagaram o maior mico'', conta ela, que já recusou convites para ir a São Paulo tentar a carreira de modelo porque quer garantir sua vaga no curso de arquitetura.
Se depois do vestibular a filha se interessar pelas passarelas, Elizabete garante que ela e o marido não farão objeções. ''A gente educou. Agora é a vez dela seguir adiante. Se a Bárbara fosse morar sozinha, a gente não precisaria ter outro tipo de preocupação a não ser com a violência, que existe em todo o lugar'', observa.
Troca de papéis Superprotetora está longe de ser o melhor adjetivo para Lucita Fernandes Ruiz, mãe de Patrícia, 24 anos e Fernanda, 21. A mais velha conta ter sofrido um pouco quando começou a sair à noite com horários rígidos e alguns micos. Certa vez, o pai chegou para buscá-la quando o show nem sequer tinha começado. ''Era ridículo. A humanidade começava a chegar a 1 hora da manhã e eu tinha que ir embora'', lembra Patrícia. Já para Fernanda as coisas foram mais fáceis. Enquanto a irmã começou a namorar aos 13 anos, ela demorou mais tempo para querer ir às baladas e, portanto, teve menos embates com os pais.
Com as filhas, Lucita elegeu o diálogo como principal ferramenta da educação. ''Falamos sobre tudo. Amizades, sexo, problemas do dia-a-dia. Somos confidentes. Respeito a opinião delas e elas, a minha. Ensino e aprendo'', revela. Essa proximidade ficou ainda maior depois que Lucita se separou do marido e passou a sair com as filhas. ''Me deparo com situações muito diferentes das que vivi na minha adolescência. Apesar de a mulher estar buscando independência, ela sente uma ansiedade muito grande nos relacionamentos. Fica sempre um ponto de interrogação. Você não sabe onde está pisando. Hoje, temos mais liberdade, mas sofremos mais no amor'', analisa.
Com a mãe agora solteira, Patrícia e Fernanda estão experimentando a clássica preocupação materna diante da idéia das filhas ''soltas no mundo''. ''A gente olha feio para os caras que ficam em cima dela. E temos que explicar porque achamos que esse ou aquele moço não é bom'', conta Patrícia, se divertindo com a troca de papéis. ''Estou redescobrindo a juventude'', comemora Lucita. ''E a gente está descobrindo como é ser mãe antes do tempo'', retruca Patrícia.
Sílvia Ruiz e a filha, Helena: Tive um trabalho intenso para preparar a cabeça dela, mas foi gratificante. Hoje ela está pronta, não tem aquela postura deslumbrada de adolescente quando começa a sair, conta a mãe.


