Mães ao entardecer
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de maio de 2000
Rosângela Vale 
A crescente participação feminina no mercado de trabalho fez com que novos projetos substituíssem o que antigamente era quase uma sina: terminar os estudos, casar e ter filhos. Com a prioridade de se estabelecer profissionalmente e o compromisso de dividir com o homem o sustento da família, a decisão de ser mãe é cada vez mais adiada. A cantora Madonna, a atriz Sharon Stone e a apresentadora Sílvia Poppovic são alguns exemplos de que a maternidade tardia é opção viável e garantida pela medicina (leia box). Além disso, pode trazer outras benesses.
Com a estabilidade financeira e emocional definida, a gente curte a gravidez com mais tranquilidade, observa a arquiteta Sayonara Galão, 40 anos, e mãe pela primeira vez aos 35. O casamento aconteceu aos 27 anos, depois de ela ter concluído os cursos de Engenharia e Arquitetura. Não queria engravidar em seguida e, sim, viajar curtir o marido, aproveitar a vida de recém-casada, lembra. Ela só começou a pensar no assunto quatro anos depois, quando então descobriu que tinha endometriose, uma doença que pode levar à infertilidade ou dificultar a gravidez.
Após passar por uma cirurgia, começou o tratamento com hormônios e finalmente veio a boa notícia, aos 34 anos. Acabou sendo mais tarde do que eu esperava, mas foi uma coisa serena. Acho que para ela também fez bem. É uma criança calma e dócil, reflexo de uma gravidez tranquila e desejada, diz, referindo-se à filha Gabriela, de 5 anos. A arquiteta conta que sempre carregou consigo a certeza de que seria mãe. Amigas até mais novas que eu têm medo de gerar crianças com problemas. Mas isso é coisa de cabeça. E a minha, hoje, está bem melhor do que quando eu tinha 20 anos, afirma.
A psicóloga Neide Zucoli de Oliveira, 42 anos, passou pela experiência da maternidade em duas fases distintas da vida. Teve a primeira filha, Mariana, aos 22 anos, ainda recém-casada e cursando o último ano da faculdade. Me sentia superdisposta, não me atrapalhou em nada, lembra ela, que adiou o início da vida profissional para dedicar-se somente ao bebê. Depois de seis meses, apareceu uma oportunidade de trabalho de meio período, o que ajudou bastante, conta. Ela chegou a pensar em ter outro filho logo em seguida, mas o ritmo profissional estava acelerado e a cabeça voltada para a carreira. Quando nasceu Maria Fernanda, hoje com 7 anos, Neide tinha 36. A gravidez também foi superboa, mas eu me sentia mais cansada. Nada que me afastasse das minhas tarefas, só sentia necessidade de descansar um pouco mais.
Fazendo um paralelo entre as duas experiências, a psicóloga destaca os prós e os contras de cada situação: Quando a gente é mais jovem, volta à forma mais rapidamente e tem maior disposição para estar com a criança. Em contrapartida, uma mãe mais jovem geralmente é mais ansiosa. A mais velha tende a ser mais paciente, observa ela, dando o próprio testemunho. Hoje consigo conciliar melhor o trabalho com a necessidade que a minha filha tem da minha presença.
A maturidade também acaba se refletindo em outras decisões maternas. Na minha família, havia uma história de que as mulheres não tinham leite por muito tempo. Na primeira gestação, quando o leite começou a diminuir, achei que fosse acabar e depois de dois meses substituí pela mamadeira. Já na segunda gravidez, mais informada, notei que no começo a gente produz muito leite e depois o organismo se adapta à quantidade que a criança consome. Amamentei por 1 ano, conta Neide. Apesar de destacar os lados positivos das duas experiências e de acreditar que não existe idade ideal para ser mãe, a psicóloga revela: Se pudesse escolher, teria a primeira filha um pouco mais tarde.
A psicóloga Márcia Heloísa Álvares não escolheu ser mãe aos 40 anos, mas não contém a felicidade ao falar do filho Vinícius, de 6 meses. Ela tampouco se incomodou de começar tudo de novo depois de uma década aposentada das funções clássicas de mãe: acordar de madrugada, trocar fraldas, amamentar... Tentando, sem sucesso, engravidar novamente depois que teve o primeiro filho, Márcia e o marido fizeram todos os exames. Não tinham nenhum problema. O jeito foi ir tentando. Já estava até desistindo, diz .
Para quem acha que gravidez tardia é sempre sinônimo de complicações, Márcia dá a resposta. Foi muito mais fácil que a primeira. Nem senti enjôos. Durante a gestação, engordou apenas oito quilos e até poderia fazer parto normal se quisesse. Optou pela cesariana por causa do trauma do primeiro parto. Sofri muito, justifica ela, que abriu mão da profissão para ser mãe em tempo integral, mas pensa em voltar à estudar em breve e, quem sabe, começar agora a carreira. Afinal de contas, tarde demais é um termo que não existe no seu dicionário.


