Maçã, o pecado é não comê-la
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de abril de 2002
Jocelem Mastrodi Salgado 
A maçã acompanha o homem desde sua origem e, frequentemente, teve sua imagem relacionada ao proibido, ao tentador. Entretanto, de acordo com estudos recentes, a fruta responsável pelo pecado original merece o perdão da humanidade. Agora, o pecado é não comê-la, dizem os mais entusiasmados. Isso porque as pesquisas têm mostrado que a fruta, saborosa, pode trazer muitos benefícios à saúde, controlando o colesterol e reduzindo o risco de câncer digestivo, principalmente aquele que atinge o cólon e o reto.
O aspecto mais positivo da maçã é que ela é um alimento que oferece poucas calorias, muitas fibras e substâncias antioxidantes, que atuam beneficamente, reduzindo o risco de doenças. Mas é importante dizer que os benefícios multiplicam-se quando a casca da fruta é ingerida, pois é nela que se concentram em maior quantidade as substâncias ativas.
A principal fibra presente na maçã é a pectina. Trata-se de uma fibra solúvel (geralmente usada para engrossar gelatinas), que ajuda a reduzir os riscos de doenças cardiovasculares e previne a prisão de ventre. Essa fibra influencia favoravelmente as taxas de colesterol no sangue e age como um agente natural contra substâncias tóxicas, incluindo a contaminação por metais. Também têm sido demonstrados os efeitos benéficos da pectina da maçã na redução do chumbo e do mercúrio do trato gastrointestinal e respiratório. A fruta também tem sido utilizada no tratamento de diarréias, especialmente em crianças.
Em 100 gramas de maçã geralmente encontramos cerca de 1,5 a 2,5 gramas de pectina. Os estudos mostram que pelo menos 5 a 6 gramas/dia dessa fibra seriam necessários para se obter um efeito na redução do colesterol. Considerando que uma maçã média pesa entre 180-200 gramas, a ingestão de uma unidade média fornece cerca de 3 a 5 gramas/dia de pectina.
Estudos recentes publicados em revistas e jornais conceituados mostram que compostos presentes na fruta, e que são preservados no seu suco, agem da mesma maneira que aqueles encontrados no vinho tinto, ou seja, atuam como antioxidantes evitando doenças ao combater os efeitos prejudiciais do oxigênio no corpo.
As substâncias antioxidantes presentes na maçã (casca e polpa), flavonóides e polifenóis, são capazes de preservar as células dos danos provocados pela ação dos radicais livres. Com isso retardam o envelhecimento e protegem o organismo de uma série de doenças, entre elas o câncer.
Além de todos os benefícios citados, é importante lembrar que a fruta é considerada uma espécie de escova de dentes natural, ajudando na higiene bucal e evitando as cáries.
Outro ponto positivo é que o açúcar presente na fruta é a frutose, que é absorvido pelo organismo de forma mais lenta do que a sacarose (açúcar extraído da cana). Por isso, pessoas diabéticas podem comer uma maçã sem se importarem com aumentos bruscos nos níveis de glicose do sangue.
Pesquisa
Um estudo publicado recentemente no Journal of Medicine Foodinvestigou o efeito do consumo de maçã ou suco sobre os níveis de LDL oxidado. O LDL é a fração do colesterol conhecida popularmente como colesterol ruim, aquela que traz danos cardiovasculares. Quando o LDL se oxida, ocorre a formação de placas ao longo das paredes da artéria coronária, causando a arterioesclerose. Participaram da pesquisa 25 pessoas que durante 12 semanas adicionaram às suas dietas diárias cerca de 400ml de suco de maçã (100%) ou duas maçãs.
As variedades consumidas foram Fuji, Golden Delicious, Granny Smith e Red Delicious. Depois das 12 semanas foram avaliados os níveis de oxidação de LDL. Ao final do estudo, verificou-se que tanto o consumo da fruta como do suco provocaram diminuição dos níveis de LDL oxidado, em média 20%.
Em outro estudo, feito por cientistas da Universidade de Cornell e publicado na revista Nature (2000), verificou-se que 100 gramas de maçã fresca podem ser mais benéficos que um comprimido de 1.500mg de vitamina C. Os antioxidantes naturais presentes na fruta fresca seriam mais eficazes que aqueles encontrados em suplementos dietéticos.
Em testes laboratoriais, os pesquisadores concluíram que extratos retirados da casca da maçã inibiam o crescimento de células cancerígenas em cerca de 43% e os provenientes da polpa reduziam em 29%. Testes semelhantes com células de câncer de fígado foram ainda mais eficazes. Os extratos da casca reduziram o crescimento dessas células em 57% e os da polpa em 40%. (J.M.S.)
Jocelem Mastrodi Salgado é professora titular de Nutrição da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz-USP.


