Um, dois ou três, no máximo. Atualmente, pode-se contar nos dedos as mulheres que se aventuram a ter mais de três filhos. Para ser mais exato, nas últimas décadas o padrão é ter dois. Entre os motivos dessa mudança de comportamento estão a participação cada vez maior da mulher no mercado de trabalho e, principalmente, no custo que representa um filho a mais. Ao contrário de 30 anos atrás, hoje é preciso começar a investir cedo na educação da criança, colocando-a em pré-escolas, cursos de línguas e informática. E com a falência do sistema público de saúde, o pagamento de um plano de saúde privado é inevitável.
Entretanto, por mais incrível que pareça, existem mulheres que não pensam desta forma. Para elas, filho é sinônimo de alegria, não de despesa. É o caso, por exemplo, da farmacêutica Mércia Alencar Preto, 40 anos. Mãe de Lucas, 17 anos; Leandro, 15 e Marcelo, 12, ela diz que se arrepende de não ter tido mais. ‘‘Eu seria mais feliz e minha casa seria ainda mais alegre. Adoro receber os amigos dos meus filhos, conviver com a juventude deles, ter muitos filhos é uma felicidade’’, garante Mércia.
Ela conta que parou no terceiro mais por pressão da sociedade. ‘‘Todo mundo ficava dizendo que três já era muito, hoje fico imaginando que maravilha seria se eu tivesse cinco filhos’’. Mércia acredita que a pressão da sociedade é tão grande que, mesmo desejando ter mais de dois, o casal se sente inseguro, achando que não vai conseguir sustentá-los. ‘‘Ninguém fica mais pobre se tiver três ou mais filhos. O problema é que os pais estão muito acostumados a querer dar tudo aos filhos, entretanto, o importante é dar o necessário, ensinando-os a valorizar o que têm’’, defende.
Quatro é pouco Mércia Alencar diz que é possível oferecer aos filhos cursos de informática e línguas sem gastar uma fortuna. ‘‘Poucas pessoas sabem, por exemplo, que a Universidade Estadual de Londrina oferece mais de 20 modalidades de esportes e cursos de inglês e espanhol à comunidade, pagando apenas uma taxa semestral. O problema é que os pais estão mais preocupados em colocar os filhos em escolas e academias da moda. A partir do momento em que eles frequentam esses lugares começam a exigir também roupas e acessórios de grife’’, observa.
Ser mãe de muitos filhos sempre foi o sonho da professora de inglês Alessandra Peres, 33 anos. Ela tem quatro: Lucas, 8 anos; Ana Luiza, 5; João Pedro, 4 e Tiago, 7 meses. ‘‘Mas pretendo ter mais um ou dois’’, revela. Mesmo com tantos pimpolhos, Alessandra sempre trabalhou fora de casa e nunca teve babá, apenas empregada para cuidar dos serviços domésticos. ‘‘Antes eu trabalhava o dia todo, hoje dou aulas apenas no período da tarde porque acho importante ficar com eles pelo menos parte do tempo’’, diz.
Ela reconhece que sempre contou com a ajuda do marido, o advogado Marcus Peres. ‘‘Ele é um supermarido e um superpai. Quando preciso viajar aos Estados Unidos para fazer cursos de aperfeiçoamento, é ele quem cuida das crianças, assumindo toda a responsabilidade da casa’’. Alessandra conta que teve apenas uma irmã, uma diferença de cinco anos de idade. ‘‘Sempre senti muita falta de mais irmãos e talvez isso tenha influenciado no meu desejo de ter muitos filhos’’, admite.
Não é promessa Mas a campeã em números de filhos é a dona de casa Sandra Regina Saab Bastos. Formada em Matemática e piano, ela teve que deixar de trabalhar fora de casa para cuidar de Ana Eliza, 15 anos; Douglas Alexandre, 13; Ana Júlia, 12; Ana Rafaela, 11; Ana Priscila, 9; Danilo Alexandre, 8; Ana Gabriela, 7 e Daniel Alexandre, 3 anos. Ufa! Mas Sandra Regina ainda acha que é pouco e quer ter mais. ‘‘O nono eu perdi aos três meses de gravidez’’, lamenta.
Ela garante que não está pagando nenhuma promessa e não tem nada a ver com religião. ‘‘Eu e meu marido decidimos não evitar filhos, pois gostamos muito de crianças’’. Até o ano passado, todos eles estudavam em escola particular e os mais velhos faziam cursos de línguas e praticavam natação. ‘‘Mas neste ano, meu marido, que é agrônomo, perdeu o emprego e tivemos que fazer algumas economias. As crianças estão estudando em escola pública e tive que dispensar a empregada. Nossa vida mudou um pouco. Os mais velhos ajudam a cuidar dos mais novos e também conto com a colaboração do meu marido’’, diz.
Sandra Regina revela que explicou aos filhos a necessidade dos cortes, pedindo a eles compreensão. ‘‘Acredito que desta forma eles aprendem desde cedo que não podem ter tudo o que querem e que vida tem altos e baixos. Acho que casais que têm dois ou três filhos dão tantas coisas desnecessárias a eles que, no final das contas, acabam gastando tanto quanto nós que temos oito’’, calcula Sandra Regina.

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