É quase lei. A maioria das mulheres adora olhar vitrines, vasculhar araras e esquecer da hora dentro dos provadores das lojas. Pode perguntar a qualquer garota, de qualquer idade: dificilmente uma delas será capaz de descrever, precisamente, a deliciosa sensação de renovação ao se olhar no espelho vestida com a última tendência da moda, com aquela calça que dá uma realçada nas curvas, aquele sapato com o poder de levantar a silhueta e o astral...
Apelar para o bom senso diante de um argumento tão poderoso como este é a missão ingrata e geralmente inútil reservada aos pobres homens, seja na função de pais, namorados ou maridos. ''Por que você precisa de mais um sapato preto?'' ou ''Não tem mais espaço no seu guarda-roupa'' e o definitivo ''Você estourou o limite do cartão de crédito'' nunca são suficientes para demovê-la da idéia de dar uma passadinha no shopping quando bate aquela vontade de comprar alguma coisa nova.
''Se você não tem opções, fica refém do seu guarda-roupa'', justifica uma consumista de carteirinha que prefere não se identificar. Ela conta que, pelo menos uma vez por semana, sente a tal vontade de gastar. ''Sofro quando não posso comprar'', diz. Apesar de calcular ter o valor de um automóvel dentro do seu guarda-roupa, ela não se intimida. ''Caro é aquilo que não se usa'', proclama, admitindo que, muitas vezes, comete esse pecado contra o orçamento. Afinal de contas, que mulher, naqueles conhecidos momentos de impulsividade, já não pagou uma quantia razoável por uma peça que até hoje jaz ''virgem'' no fundo do armário?
Hábito e paixão''Compro muita coisa de que não preciso, que na hora fica legal, veste bem, mas depois eu não uso'', confessa a estudante Camille Jacinto, 19 anos. Ao contrário da maioria, que gosta de paquerar vitrines, ela já parte logo para o que interessa. ''Entro nas lojas onde estou acostumada a comprar e nunca saio sem sacolas'', conta.
Por causa dessa mania, ela nunca consegue arrebanhar companhia para suas investidas consumistas. ''Vai ao shopping de novo?'', é o que mais ouve das amigas. Elas recusam o convite porque sabem que ficarão ''abandonadas à própria sorte'', já que Camille pode ficar horas provando roupas. ''Nunca vou ao shopping para passear'', diz ela, que costuma dividir com a mãe o hábito e a paixão pelas compras.
Impossível contabilizar quantas roupas, sapatos e bolsas a estudante tem dentro do armário, mesmo porque suas coisas ficam espalhadas: um pouco no apartamento em Londrina e o resto na casa dos pais, em Rolândia. Dessa forma, as novas aquisições não tomam tanto espaço. ''Gosto de estar sempre com alguma coisa nova, sinto prazer nisso, tanto que vou a São Paulo para comprar as novidades antes de chegarem aqui'', revela.
Mas Camille não espera as viagens para satisfazer seus impulsos. ''Compro, pelo menos, uma calça e uma blusa por semana '', contabiliza, sem se preocupar com valores. ''Não tenho idéia de quanto gasto por mês, vou passando o cartão''.
Prazer momentâneo Ao contrário de Camille, que fala do hábito com tranquilidade, a consumista de carteirinha já apresentada acima tem uma boa justificativa para aplacar a culpa: ''Trabalho muito. O fato de sair às compras é uma forma de recompensa. Sou alucinada por novidades, acho que é uma característica feminina por excelência'', diz. O problema de ter a vaidade como prioridade é que as perspectivas de um investimento maior acabam ficando comprometidas. ''Sempre acho que gasto mais do que deveria. Com isso, nunca sobra dinheiro para trocar de carro, comprar uma casa'', lamenta. Além de roupas, sua outra fixação são os cosméticos.
''Meu sonho é ter uma loja para me sentir dona de tudo aquilo. Se tiver tempo, passo toda semana para saber se chegou alguma novidade''. Uma de suas aquisições mais recentes foi um esfoliante que custou R$ 600,00. ''O que me conquistou foi a bula: dizia que o produto foi pesquisado por seis anos tinha dado certo em muitas mulheres. Mas comprei só uma vez, não achei que valia tanto assim''.
A psicóloga Mariana Schaefer Gois, 27 anos, talvez tenha a definição mais precisa para a questão. ''Comprar é um prazer momentâneo'', diz, enquadrando-se na categoria das ''loucas por novidades''. ''Tem também a segurança de ter roupa para ir a todos os lugares para os quais somos convidadas. A gente nunca é pega de surpresa'', argumenta. Mas engana-se quem pensa que ela nunca pronuncia aquela frase típica diante do guarda-roupa, já repetida pela sua filha de 4 anos. '''Às vezes, ela diz: 'não vou a tal lugar porque não tenho roupa''', relata Mariana.
A julgar pela quantidade de roupas, sapatos e bolsas no closet da psicóloga (e em três armários da casa) e pela velocidade das suas compras ela poderia passar anos sem repetir o modelito. ''Uso uma blusa duas, três vezes, e já não é mais nova para mim, quero outra'', diz. O plural seria mais adequado, já que economia é o que menos conta nesta história. ''Quando você é consumista, perde um pouco o parâmetro'', explica Mariana, tentando se lembrar de uma das últimas compras considerada ''normal'': 16 blusinhas e seis calças de uma só vez. ''Às vezes compro, acabo não usando e a peça fica guardada ainda com a etiqueta. Até me esqueço dela; é tanto guarda-roupa...'', justifica. n

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