Limites versus castigo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de novembro de 2005
Leandro Quintanilha<br> Agência Estado 
Doe a palmatória a um museu, cancele o castigo, esqueça o sermão. É o que propõe a moderna pedagogia numa época em que educadores procuram soluções para a falta de limites das novas gerações. Para a psicologia infantil, ameaças, críticas e punições devem ser riscadas com caneta vermelha no currículo escolar, ou porque estimulam a agressividade ou porque provocam isolamento. Mas o que sobra? A sensibilidade do professor.
As psicoterapeutas Adri Dayan, Elisabeth Wajnryt e Dina Arzak acabam de traduzir para o português o livro ''Como Falar para o Aluno Aprender'', das psicólogas norte-americanas Adele Faber e Elaine Mazlish, autoras de ''Como Falar para Seu Filho Ouvir'' e ''Como Ouvir para Seu Filho Falar''. O livro para os professores é, na verdade, um desdobramento do guia feito para pais, que rapidamente se tornou um best-seller nos Estados Unidos (vendeu 2,5 milhões só lá) e já foi traduzido para 18 idiomas.
As especialistas brasileiras montaram um curso baseado nas diretrizes propostas pela obra (a principal é aceitar os sentimentos dos alunos sem julgá-los). ''Sermões e castigos são paliativos. É possível estabelecer limites sem deixar a criança com raiva nem culpa'', afirma Dina. Arrependimento, como explica, é um aprendizado saudável, mas culpa é martírio. ''Estratégias de punição podem até corrigir o comportamento do aluno na hora, mas são perigosas - uma criança acuada tende a fantasiar sobre vingança.''
O ''como falar'' dos títulos das obras de Farber e Mazlish não é casual. Elas são discípulas do célebre psicólogo educacional Haim Ginott, para quem a palavra dos adultos tinha peso determinante na formação das crianças. ''A maneira como pais e professores falam revela à criança como eles se sentem em relação a ela. Suas falas afetam a auto-estima e o amor próprio dos pequenos. Em grande parte, a linguagem dos adultos determina o destino das crianças'', escreveu.
O coordenador de programas estudantis da Escola Beit Yaacov, Celso Lemes, fez o curso com os colegas em fevereiro. Em vez de punir os alunos, os professores foram orientados a estimular a cooperação. ''Fizemos assembléias com as crianças e elas mesmas estabeleceram regras de segurança, como não correr nos corredores.'' O professor ficou surpreso (e feliz) com tudo o que aprendeu em oito semanas às vésperas de completar 30 anos de experiência.


