Limites também valem nas férias
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quinta-feira, 23 de julho de 2009
Agência Estado 
Passear sem os pais não fica menos perigoso em julho, assim como as bolas de sorvete não deixam de conter gordura hidrogenada só porque as férias chegaram. A novela das nove também não vai sair do ar mesmo que as crianças estejam na sala até tarde, livres das obrigações escolares.
Enquanto os filhos descansam, o trabalho dos pais dobra: fiscalizar o cumprimento das regras domésticas na rotina da casa fica mais difícil quando sobra tempo demais para o videogame, a televisão, o computador e o pacote de salgadinhos ou doces.
Manter uma alimentação saudável, desligar a televisão no começo da noite e dormir o suficiente para que o sono seja reparador são normas que não tiram férias na casa de muitas famílias.
Mestre em educação e autora do livro ''Limites sem Trauma'' (Editora Record), Tânia Zagury acredita que as férias cumprem uma função social importante na vida das crianças e podem vir acompanhadas pelo afrouxamento das normas domésticas. ''Flexibilizar as regras não é a mesma coisa que liberar geral'', enfatiza. ''É bom lembrar que os pais têm responsabilidade sobre a saúde do filho. Deixar que ele passe as férias almoçando chocolate ou permitir que não durma o necessário porque passou a noite toda no videogame não é uma atitude responsável.''
Segundo Tânia, mais importante que controlar o aumento do tempo livre é fiscalizar a qualidade do lazer que preencherá essas horas ociosas. ''Se a criança está de férias até pode passar quatro ou cinco horas vendo TV, ao invés de uma ou duas, desde que ela fique restrita aos programas permitidos pelos pais. O mesmo vale para o videogame. Pior do que ficar o dia todo jogando, é comprar um jogo sem saber exatamente qual é o seu conteúdo: se quem vence é o jogador que atropela mais velhinhas, isso não pode ser considerado uma diversão, apenas ensina a banalizar a violência. Vale lembrar que é sempre mais fácil instalar um mau hábito do que uma boa conduta.''
A terapeuta Maria Tereza Maldonato, mestre em psicologia clínica e autora do livro ''Comunicação entre Pais e Filhos'' (Editora Saraiva), acredita que a liberdade nas férias deve ser proporcional à responsabilidade demonstrada durante o ano letivo. ''Os pais devem dar essa dimensão ao filho, de que se ele não fez o esforço devido durante as aulas, as férias não serão completamente livres de tarefas'', recomenda. Para ela, o período pede bom senso. ''É claro que a flexibilidade deverá ser maior, mas nunca sem perder a medida. Férias não é fazer o que quiser, como ver TV ilimitadamente ou comer só o que se tem vontade.''
Maria Tereza lembra que o deleite infantil também está sujeito a limitações concretas, como a disponibilidade financeira da família. ''É importante deixar claro que o tipo e a duração da diversão nas férias irá depender do orçamento dos pais. Nem sempre é possível ir ao cinema, lanchar fora de casa e passear todos os dias. O ideal é negociar com o filho, fazer com que entenda que o dinheiro pode não ser suficiente para satisfazer todas as vontades que as crianças têm nesse período. Vivemos em uma sociedade muito voltada para a necessidade de prazer e de entretenimento. Assim, é natural que as crianças sintam isso, mas aprender a lidar com a frustração também é uma lição importante.''
'Não' até mesmo nas férias
Na avaliação da psicanalista Eiko Sato Okazaki, coordenadora do Espaço Psicanalítico de Investigação e Pesquisa Contemporâneo (Eppico), a dificuldade em gerenciar as ações infantis durante o recesso escolar reflete problemas disciplinares que também existem no restante do ano. ''A situação apenas fica mais evidente nas férias porque as crianças passam mais tempo em casa. No geral, se os pais conseguem estabelecer as regras no início do ano, sempre com respeito, não enfrentarão tantos problemas nas férias.''
Eiko acredita que as crianças, inconscientemente, esperam receber limites dos pais. ''Se ninguém se pronuncia sobre a conduta da criança, se ela sempre pode tudo, começa a achar que não é importante, que os pais não ligam para suas ações. Pior que a repressão exagerada é a indiferença'', explica.
Segundo Eiko, a falta de limites definidos na infância pode gerar um adulto infantil, que só impõe suas vontades e não aceita ser contrariado. ''O papel dos pais hoje não é tornar os filhos felizes, mas, sim, capacitá-los a viver bem. Para isso é preciso dizer: ''não pode''. Toda criança precisa ouvir um ''não'', até mesmo nas férias.'' (Colaborou Micaela Orikasa/Reportagem Local).


