Lição de moda
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quinta-feira, 13 de setembro de 2001
Rosângela Vale 
Como faz desde 1978, a francesa Marie Rucki, cultuada pelos fashionistas como uma das figuras mais importantes no meio acadêmico de moda, esteve em São Paulo, no final do mês passado, a convite da Rhodia. Diretora de uma das escolas mais conceituadas do mundo, o Studio Berçot, de Paris, ela já teve entre seus alunos alguns dos mais renomados estilistas da cena fashion mundial. Antes do tradicional workshop para confeccionistas e profissionais da área, madame Rucki, como é conhecida, reuniu imprensa e discípulos brasileiros entre eles os estilistas Reinaldo Lourenço e Glória Coelho em uma palestra sobre a nova cara da moda no século 21.
As diferenças entre moda e estilo (entendido como a identidade de um criador) foram alvo de sua análise. Para Rucki, a moda nada mais é do que a expressão das necessidades imediatas. ''Existe moda quando um produto que todo mundo precisa chega ao mercado no exato momento em que todos querem consumi-lo. Roupas, objeto, comida, carros... Nada escapa desse fenômeno coletivo'', definiu.
Já estilo é algo que se reconhece, que pertence aos legítimos criadores, é um dom inato, ''que vai se aperfeiçoando e evoluindo com a moda'', disse, frisando que ''assim como um bom vinho, não se faz um criador de moda em seis meses''. O recado foi para o Brasil que, segundo ela, começou a ser um produtor de moda, já mostrou que domina a técnica, mas precisa encontrar a sua identidade. ''Acho que o momento, agora, é de descobrir de que maneira o País quer se mostrar ao mundo'', aconselhou.
Para madame Rucki, o estilista precisa aperfeiçoar o que o torna único, pois é isso que vai torná-lo insubstituível. ''Ele tem que trabalhar o seu instinto, o seu jardim secreto, e os sentimentos da sua época'', ensinou, fazendo uma retrospectiva das últimas décadas. ''Os anos 80 foram a época das formas esculpidas. Nos anos 90, a moda era a arte de acomodar os trapos; agora, é como uma gravura sobre o aço, é leve, fina. Para mim, o que marca essa nova era é a maneira de fabricar'', disse. Segundo ela, o francês Nicolas Ghesquiere, da Maison Balenciaga, é o principal nome entre os novos criadores de moda. ''Ele tem a mão dos tempos em que vivemos''.
E nesses novos tempos, de acordo com Rucki, o que vale é a vontade de encontrar imagens pessoais de moda. ''O streetwear só tem a se desenvolver, mas não é mais uma tendência. A moda, hoje, tem muito mais a ver com a mulher chique, com os acessórios surpreendentes'', observou. A época atual traz outra marca para madame Rucki: os negócios.
''Nos anos 60, os estilistas eram considerados seres meio marginais, que não se envolviam nas finanças. A grande diferença é que hoje o dinheiro comanda. Não se faz mais um trabalho sem pretensões financeiras. Saber cuidar do marketing não tira do estilista nenhuma qualidade artística, só reforça'', disse, apontando, como exemplo, o poderoso diretor criativo Tom Ford, que coordena as grifes Gucci e Yves Saint-Laurent e representa muito bem a era do ''fashion is business''. ''Ele não tem uma imaginação pessoal, mas conta com uma equipe muito boa e sabe pôr em ordem as informações de que dispõem'', analisou madame Rucki. n


