Para a mulher, como explica o psicólogo Alfredo Sallum, sempre foi possível e muito aceitável manifestar livremente seus sentimentos. Para o homem, a alforria só chegou recentemente, quando os papéis masculino e feminino deixaram de ter contornos tão bem definidos, e se encontram, agora, a caminho de uma nova configuração. ''Hoje'', comenta Sallum, ''o homem sente-se mais à vontade para demonstrar seus conflitos, medos e angústias em diversas situações da vida.''
A depressão, como consequência de uma dor psíquica, pode atingir, indiscriminadamente, homens e mulheres. A depressão pós-parto, contudo, ''não é associada a homens, pelo menos na teoria'', de acordo com Sallum, ''enquanto revela-se causa de sofrimento para mais de 20% das mulheres''. Acometidas de depressão, algumas mamães recentes tendem a apresentar os mais diversos sintomas, como ''sentimentos destrutivos, voltados para si mesmas e para o outro, insegurança, que provoca desde alterações físicas quanto emocionais, tristeza profunda, e pensamentos pessimistas e repetitivos, entre outros''.
Embora não seja encontrada na teoria, a depressão pós-parto em homens pode ser facilmente identificada e explicada na prática. ''O homem sempre foi afetado por questões emocionais'', diz o psicólogo, ''e no que se refere ao nascimento de um filho também, sendo que, nesse caso, o que não havia era espaço para que ele se manifestasse, pois a mulher, a protagonista dessa história, o ocupava totalmente.''
Esse espaço, segundo Sallum, vai sendo conquistado pela mulher desde as primeiras manifestações de gravidez. Já o homem procura construir seu ''lugar de pai'' após o nascimento do filho, mesmo que tenha sido um companheiro participante e afetuoso durante todo o período de gravidez da mulher. ''O homem necessita de tempo para construir esse espaço'', comenta, ''e muitas vezes não consegue fazê-lo, surgindo, então, a sensação de o que o mundo desabou sobre sua cabeça.''
Uma das razões para essa dificuldade, afirma Sallum, é que ele ainda não ''cresceu'', não tendo assim como passar da condição de filho, que ainda vivencia sentimentos de desamparo e de dependência afetiva, para a de pai. Com a chegada de um filho, o homem assusta-se com a perspectiva de que terá ''emprego'' para o resto da vida, o que o faz visualizar inexistentes ''fantasmas'' pelo caminho.
Outro medo, como explica o psicólogo, é o de perder a individualidade e ser impedido de realizar seus projetos pessoais, ''o que provoca raiva e, consequentemente, profunda angústia, associada a sentimentos de culpa e de perda.'' Uma combinação de emoções assim explosiva pode, sem dúvida, na opinião de Sallum, desencadear a depressão.
Superar as naturais angústias, que permeiam a fase do pós-parto, depende de cada um. Ajuda ter consciência sobre o que ocorre e decidir-se pelo amadurecimento, que vai permitir enfrentar, de forma positiva e produtiva, não só essa dificuldade, como tantas outras que a vida traz.(A.S.)

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