Se há milhões de anos nossos ancestrais não precisavam de calçados para andar e correr, qual a razão de usar tênis para nos exercitar? A pergunta, feita pelo biólogo e corredor Daniel Lieberman, pesquisador da Harvard (EUA), ganhou uma resposta inesperada: segundo sua pesquisa, correr descalço reduz o impacto nos pés.
  A explicação para tal descoberta está relacionada ao jeito com que o pé toca o solo ao correr. Descalços, pisamos primeiro com a parte frontal ao invés de colocarmos o calcanhar, o que, segundo o estudo, acaba reduzindo o impacto da passada por melhorar o gerenciamento das cargas e a distribuição do estresse na planta dos pés.
  Lieberman conclui que o ser humano talvez tenha nascido para correr sem nada nos pés. Para chegar a essa conclusão, ele observou meninos no Quênia, que cresceram dessa forma.
  O uso do tênis, segundo o pesquisador, acabou mudando a passada humana, já que com calçados pisamos primeiro com o calcanhar, gerando impacto três vezes maior para o corpo.
  O estudo foi publicado na revista científica Nature e acabou gerando polêmica no meio acadêmico. O professor Alan James de Castro Bussmann, do Departamento de Ciência do Esporte da Universidade Estadual de Londrina, especialista em biomecânica e anatomia, não concorda com o estudo de Lieberman. "A pesquisa contradiz tudo o que foi publicado até hoje", argumenta.
  O professor defende o uso do tênis para a prática de atividades físicas, pois deixar de usá-los não é para qualquer um. "Lieberman também tem restrições para correr descalço. É preciso que o indivíduo esteja adaptado fisicamente e as condições do ambiente sejam favoráveis". Isso significa que o solo deve estar em temperatura amena, de preferência que tenha grama ou na areia. Diabéticos e pessoas com sobrepeso não podem nem pensar em aderir à moda. "Até que sejam publicados estudos consistentes, prefiro manter o tênis"', alerta Bussmann.

Estrelas olímpicas
  Atletas brasileiros e de outros países ficaram conhecidos por faturarem medalhas correndo descalços. O etíope Abebe Bikila levou duas medalhas de ouro em maratonas olímpicas, correndo sem tênis, em 1960, em Roma, e em Tóquio, em 1964. De família pobre, nunca usou calçados, e seu treinador verificou que o atleta era mais rápido sem tênis.
  No Brasil, Jorilda Sabino foi vice-campeã na corrida de São Silvestre, em 1986, correndo de pés descalços. O triatleta brasileiro Sergio Cordeiro venceu provas difíceis com os pés desnudos: em 2007, no México, foi o campeão do Deca Ironman World Challenge, considerada uma das provas mais desgastantes da categoria.

Moda
  Correr sem nada nos pés, ou o mais próximo disso, parece ganhar seguidores pelo mundo. Antenados às tendências, fabricantes de tênis lançaram modelos com solas mais baixas, que aproximam o corredor da sensação de estar sem nada. O modelo Free, lançado em 2005 pela Nike, é um exemplo. O tênis possui sola de borracha e estrutura parecida com uma meia.
  Em alguns blogs específicos, há comentários de corredores que aderiram ao tênis tipo sapatilha. O modelito Five Fingers, criado em 2007 pela italiana Vibran, mais parece uma luva para os pés, com solado de borracha.

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