Leva-e-traz sem fim
Leva-e-traz sem fim
Celina Alonso Az
Maringá
Lene Taques Tomaselli: 13 saídas num único dia Começam as aulas e uma legião de profissionais, quase sem reconhecimento, volta a sua alucinante rotina. São as motoristas de família, mulheres casadas, com filhos, emprego que, além dos afazeres domésticos e profissionais, ainda encaram um volante em tempo integral. É um leva-e-traz sem fim. Filhos para o colégio, sogra no médico, marido para o trabalho, mais mercado, banco, etc. Algumas, com mais sorte, conseguem um intervalo para ir à massagista ou à ginástica.
A secretária Lene Rodrigues Taques Tomazelli tem três filhas adultas mas é motorista delas desde que eram crianças. Levava as três para o colégio, ia para o trabalho, buscava no colégio, levava para casa, deixava na natação, deixava no dentista, na casa de amigas, quase todos os dias essa rotina se repetia.Muitas vezes, eu ficava aguardando ligações para saber onde deveria buscar a próxima, conta Lene. A solução foi colocá-las juntas em quase todos os cursos. Acho que até precisei ser um pouco radical com as meninas. Se uma queria fazer balé, as três iam estudar balé. Todas fizeram natação, todas iam ao mesmo dentista, ao mesmo médico e aos mesmos passeios, conta a mãe-motorista.
Acabo de conseguir a emancipação porque meus filhos foram para Curitiba estudar, diz Érika KondoHouve um dia em que a mãe de Lene, por curiosidade, contou quantas vezes a filha entrou e saiu da garagem. Foram 13 vezes num mesmo dia, buscando e levando, pagando, comprando. Hoje, a filha mais velha de Lene ganhou um carro, e agora o serviço é dividido. É ela quem leva as irmãs para cinema, teatro e outros passeios, conta a mãe que ganhou umas horinhas de folga. Era um trabalho muito cansativo, mas eu sempre fiz com prazer. Qual a mãe que não acha gratificante?
Roteiro interminável Outra motorista exemplar é Edna Pacheco Dantas. Ela trabalha como farmacêutica, leva os quatro filhos ao colégio, pega na saída, leva para casa, deixa o marido no trabalho, as crianças na natação, na aula de tênis, volta para a farmácia e espera nova chamada. Busca todos no clube, pega o marido, passa no mercado, pega a menorzinha na escola. Edna ainda passa diariamente na casa da mãe, que está de cama. Antes vai ao mercado e leva umas comprinhas para a mãe. Depois pega o marido no trabalho, deixa a faxineira no ponto do ônibus e volta para fechar a farmácia. Minha alegria é quando dou uma fugidinha até a academia, no final do dia. Às vezes, vou ao massagista relaxar a tensão nos ombros, conta Edna. Nos fins de semanas, ela faz compras, mercado, feira, leva crianças para cortar cabelo. No domingo, o carro é todinho do marido.Ele ainda nota que o carro está meio sujinho, mas acaba lavando sem reclamar muito.
Como não há mal que nunca acabe, a função de motorista de Erika Yoshiko Kondo terminou. Acabo de conseguir a emancipação porque os filhos foram para Curitiba estudar. Graças a Deus. Agora posso dormir um pouquinho mais, diz brincando. Érika tem quatro filhos. Trabalha com adaptação de lentes de contato, ajudando o marido que é médico oftalmologista, Trabalhava ainda como orientadora educacional e num centro de atendimento a deficientes visuais. Como motorista da família, Érika saía cedinho de casa, deixava todos no colégio, ia para o trabalho, transportava todos de volta para casa, voltava ao trabalho e sempre dava um jeito de conciliar o trabalho com o transporte das crianças ao judô, natação, canto,piano. Mesmo levando e buscando fiz questão de ensiná-los a andar de ônibus. Hoje eles sabem ir para todo lado sozinhos. Acho muito errado as mães que levam e buscam em tudo o que é lugar. Os meus eu ensinava. Um dia eles iam de carro, no outro, de ônibus para aprenderem.
Agora que está aposentada como motorista Érika só tem uma obrigação que faz com prazer. Sempre que chove, levou meu marido para o trabalho. Afinal, ele sempre me ajudou a fazer supermercado aos sábados.





