O acúmulo de atividades das mulheres das grandes cidades, dentro e fora do lar, e a ausência da figura masculina nos processos de execução das tarefas, está provocando a deterioração das relações familiares. Esse é um dos resultados contundentes da pesquisa Mulheres do Brasil, apresentada no dia 8 de março, no teatro São Pedro, em São Paulo. A solenidade contou com a presença, entre outros, dos intelectuais Domenico de Masi e Michel Ramdon, que falaram sobre a ‘‘feminilização do mundo’’. Avon, Electrolux e Sadia, três empresas diretamente ligadas ao cotidiano feminino, se uniram à psicóloga e pesquisadora do comportamento humano Oriana White, do CPM Research – Centro de Pesquisa Motivacional, para conhecer mais sobre esse universo.
Dias cansativos, sem dúvida. A análise de um dia comum da mulher urbana levou à constatação de que ela desenvolve, em poucas horas, mais de 50 ações. São atividades diversas, realizadas muitas vezes simultaneamente. À noite, as tarefas são reduzidas, mas não cessam. Os finais de semana figuram como oportunidade de realizar, com mais calma, as tarefas domésticas, não tão bem-feitas durante a semana, anulando assim os momentos de descanso e relaxamento. Pior: o encarecimento da mão-de-obra de uma empregada fixa faz com que as obrigações femininas se intensifiquem ainda mais.
A estafa ocasionada pelo excesso de atividades, a falta de oportunidades para compartilhar, bem como a escassez de tempo e ausência da figura masculina, promovem a cada dia a deterioração das relações humanas, o afastamento dos membros da família e o individualismo. Os rituais familiares vão perdendo força e significado. Os jantares, os almoços de domingo, as receitas da vovó, as reuniões entre amigas para comemorar uma data importante para o grupo dão espaço para a realização operacional de tarefas.
Essas e outras revelações foram trazidas à tona por meio dos resultados da pesquisa Mulheres do Brasil. Entrevistas em profundidade, observação de comportamento, registros antropológicos de cunho qualitativo, registros etnográficos, decupagem e análise de material visual e auditivo complementar, permitiram um mergulho no cotidiano feminino.
O estudo foi iniciado em abril de 2001 e foram entrevistadas mais de 400 mulheres de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília, Recife e Ribeirão Preto. Equipes foram a campo para estudar o cotidiano de cinco comunidades rurais: indígenas da tribo kaiowá, do Mato Grosso do Sul; mulheres do Movimento Sem-Terra e das Barragens, do Estado do Paraná; as do Quilombo do Frechal e as Quebradeiras de Coco, ambas do Maranhão. Com estas culturas de raiz buscou-se apreender formas de viver com mais qualidade.
O sentido de comunidade
Com a mente voltada para a necessidade de produzir e cumprir tarefas, as mulheres das grandes cidades têm perdido os vínculos com a comunidade. As relações diretas com o bairro, o condomínio e a vizinhança, que fazem parte do cotidiano, se perdem, e o conceito de comunidade se resume às esporádicas atuações em causas beneficentes e religiosas.
De igual maneira, a atuação política está cada vez mais distante da realidade atual da mulher. Ela acredita na relevância da participação feminina, dá seu apoio, por meio do voto, às poucas que se dispõem a ingressar na carreira política, mas não quer participar ativamente, alegando falta de tempo, formação, ou força para encarar as pressões de uma vida política.
Mas já demonstram em algumas atitudes a busca de um estilo diferenciado de vida, com mais qualidade, a exemplo do que se encontra nas comunidades rurais. Diminuir distâncias entre casa e escola dos filhos, atividades extra-escolares, ginástica, supermercado e local de trabalho, são alternativas viáveis para dispor de mais tempo livre.
O novo pelo novo não fascina essa mulher. A inovação é selecionada e somente o que representa melhoras ganha espaço. A inovação que representa algo supérfluo, que desenraiza e sufoca, não trazendo benefícios, é deixada de lado. Mais reflexiva, essa nova mulher busca criar sentidos para sua existência pessoal, familiar e social. Possivelmente, dentro em breve desejará participar da vida política do país.(Da Redação)
O dia-a-dia das comunidades rurais
Os atos mais corriqueiros das mulheres das comunidades rurais foram observados e proporcionaram importantes descobertas. Quatro grandes pilares de atitude guiaram à reflexão de como incorporar tais vivências rurais ao cotidiano das cidades: a simplicidade dos processos; o compartilhamento das tarefas; o viver intensamente o comunitário; o reconhecimento da força do ancestral e dos rituais.
Apenas o necessário faz parte dos instrumentos básicos de uma cozinha, os elementos realmente significativos entram para o rol ‘‘sagrado’’ dos adereços do lar. Muitas vezes, o conforto é precário, mesmo assim as tarefas são realizadas de forma prazerosa.
No cotidiano das comunidades rurais pouco se fala sobre quem é que deve fazer determinada tarefa. Existindo um objetivo a ser cumprido, quem estiver por perto vai e ajuda a fazer. O foco não está no operacional, mas na conclusão do objetivo maior. Evidentemente alguns trabalhos tendem a ter mais a caracterização de ‘‘coisas do feminino’’ outras ‘‘do masculino’’, mas as atividades não são excludentes para os diferentes sexos.
Sob este cenário, o novo é analisado com cautela, sendo muito mais algo descoberto do que algo inventado. Neste processo, o entendimento do passado faz a diferença. Para estas comunidades, sem a terra não se criam raízes, sem raízes não se produz história, sem história não se tem identidade. (Da Redação)

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