Jeitinho caseiro
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quinta-feira, 23 de março de 2006
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Os clientes mais desavisados costumam ter duas surpresas quando conhecem a confeiteira Bianca Pozzi, que em dois anos conseguiu associar seu nome às delícias de açúcar e irreverentes bolos de pasta americana. ''As pessoas sempre esperam encontrar uma senhora'', diverte-se Bianca, que tem apenas 24 anos, e, apesar de viver cercada de quitutes e tentações, é magra. São dois estereótipos que a confeiteira consegue descartar à primeira vista.
Mas ela não está sozinha nessa empreitada de jovens que buscam resgatar e valorizar o trabalho artesanal em pleno terceiro milênio. Mesmo sem muitas referências em casa suas mães já são da geração de mulheres que conquistaram espaço no mercado de trabalho elas foram atrás de cursos e ensinamentos.
Quando tinha apenas oito anos, Ana Carolina Roelis Vieira se encantou com a moda dos broches e tiaras enfeitados com flores de biscuit. Ao contrário da maioria das meninas da mesma idade, a pequena preferiu criar seus próprios acessórios a simplesmente ganhá-los de presente. Pediu logo para a mãe matriculá-la num curso de artesanato e em pouco tempo aprendeu os truques. Vinte anos se passaram, a menina cresceu, mas ainda passa horas modelando a massa, também conhecida como porcelana fria.
Da delicadeza de suas mãos saem as mais variadas formas. As flores que aprendeu quando criança deram lugar a noivinhos divertidos para bolos de casamento, bolachas, que parecem de verdade, para potes de cozinha, gatinhas para o interruptor de luz e o que mais a imaginação mandar. ''De uns 10 anos para cá, o biscuit não saiu mais de moda'', conta Ana Carolina, que voltou a modelar a porcelana há seis anos, quando deixou de trabalhar como vendedora. ''Vi em alguns programas de televisão quanta coisa dava para fazer com biscuit e resolvi retomar'', lembra.
Na sala de Mariana Schaefer, os móveis de design clean e moderno contrastam com o que está sobre a enorme mesa de vidro. São cestas recheadas de coelhos em tecidos feitos a mão, ovos de Páscoa embalados carinhosamente com retalhos floridos e bolos delicados de pasta americana. Designer de açúcar, como se define, Mariana conta que buscou as receitas da avó para criar suas delícias. ''Até mesmo o tradicional bolo de brigadeiro ficou ainda mais glamouroso sem perder o sabor'', explica.
O diferencial das criações Mariana está sendo lançado agora, às vésperas da Páscoa, com o uso dos tecidos embalando o chocolate ou enfeitando as cestas. ''Estou resgatando o antigo'', afirma a designer, que relaciona seus lançamentos a um perfume retrô. ''Fica com um jeito de coisa da avó. E as avós norteiam a família'', diz. ''Quando tudo é muito tecnológico, perde o sentimentalismo'', completa.
Com a ajuda de um cilindro sim, do mesmo tipo que as bisavós costumavam usar , Mariana abre a massa de pasta americana que dá formato a personagens simpáticos que enfeitam bolos, minibolos e bombons. Coelhos, cenouras e ovos agora estão em alta, claro.
Para Bianca Pozzi, sua cozinha poderia muito bem ser equipada com mais máquinas para ajudar, mas ela ainda prefere o capricho artesanal que faz com que ela trabalhe 10 horas por dia nos dias de muitas encomendas chega a trabalhar até 18 horas. ''As pessoas gostam do que é mais fresco, com sabor e feito especialmente para elas'', explica Bianca, que é mestre em personalizar as delícias açucaradas. Com paciência e habilidade, o bolo pode ganhar não só a cara do aniversariante, como também de toda a família.
Jornalista por formação, Bianca descobriu o dom para a culinária no final da faculdade. Primeiro tentou os salgados, mas como é vegetariana, preferiu passar para os doces. Fez cursos de confeitaria em São Paulo e sem querer entrou numa aula de pasta americana. ''Minha mãe gosta de cozinhar, apesar de não ter muito tempo, mas a tradição profissional em casa é a medicina. Meu pai, minha mãe, meu irmão e meu avô são médicos'', conta.
Apesar de usar receitas de família, Mariana foi aprender o ofício em cursos na capital paulista. A primeira experiência no comércio de doces foi durante a faculdade de psicologia. ''Fiz trufas para ajudar na festa de formatura'', lembra. A confecção dos bolos começou há dois anos, na época em que se separou. ''Vi que não tinha esse trabalho fofo por aqui'', conta.
Com a ajuda de uma costureira que segue suas indicações, a designer agora está mesclando açúcar com tecido. Uma das novidades é o travesseiro que vem com ovo de chocolate. ''É um carinho que fica'', explica. Já para Bianca, a Páscoa tem sabor importado na matéria-prima o chocolate usado é belga. Ana Carolina também prepara um lançamento: bonecos com as feições dos noivos.


