Isso é lá com Santo Antonio
Isso é lá com Santo Antonio
Olga e Ilson não acreditam em simpatias: Só o amor segura um casamentoPor volta de 1200, um jovem italiano chamado Antonio, nascido na cidadezinha de Pádua, tornou-se conhecido por ajudar os carentes. Católico fervoroso, franciscano humilde e de espírito extremamente altruísta, já aos 23 anos virou doutor em teologia. Muito modesto, trabalhou um ano como auxiliar de cozinha descascando batatas. Um dia precisou-se de um orador numa missa, ele foi requisitado e na maior simplicidade encantou a todos. Foi reconhecido e começou a prestar serviços como padre. Morreu com 36 anos, e onze meses após sua morte foi canonizado.
Como padre Antonio, ele ouvia a todos sem distinção, e numa sociedade na qual as mulheres não tinham direito de monopolizar a pessoa do sacerdote, elas o elegeram seu precioso confidente. Não se sabe ao certo porque, mas hoje Santo Antonio é conhecido como o Santo Casamenteiro. Isso nas cidades, porque na zona rural, ele divide a competência com São Gonçalo, outro procurador religioso para resolver os males de amor.
De acordo com o folclore, a data de Santo Antonio é comemorada em 13 de junho, um dia após o Dia dos Namorados, e faz parte da trilogia junina que tem São João (dia 24) e São Pedro (dia 29). No dia 13 (hoje) chovem pedidos de gente que pretende arranjar marido ou mulher. Alguns até ameaçam ou aplicam penosas punições ao Santo caso ele demore para conseguir.
Crendices No filme nacional A Marvada Carne, de André Klotzel, a personagem cabocla, vivida por Fernanda Torres, mostra bem uma das crendices populares sobre Santo Antonio, o casamenteiro. Numa das cenas, ela briga muito com o Santo e o coloca de cabeça para baixo durante alguns dias. Como não aparece o pretendente, ela atira imagem do Santo pela janela e sem querer atinge um belo rapaz que estava passando. É claro que os dois se casam e ela quase morre de arrependimento.
Segundo o folclorista Alceu Mainardi Araújo, no seu livro Festa, Bailado, Mitos e Lendas, da Melhoramentos, dos três santos de junho, Antonio é o mais popular. O pão abençoado pelo Santo garante fartura para toda a família. Por isso é comum as pessoas levarem a quantidade de pão correspondente ao seu peso para que o pedido seja atendido. Depois, o pão é distribuído entre os pobres.
Para a pesquisadora e folclorista Suely Alves de Souza, da Universidade Estadual de Maringá, as simpatias e a sorte fazem parte da nossa sociedade, embora muita gente se esqueça delas.Claro que acredito. Sou brasileira, todos nós acreditamos, somos herdeiros de negros e portugueses e acreditamos em gato preto, espelho quebrado, em tudo. Suely também acha que entre os três santos, Antonio, por ser mais dócil que Pedro e João, é o único que se submeteria a tais penas e sacrifícios. Ela conta que uma das simpatias mais cruéis que se faz com Santo Antonio é a do ovo. A pessoa coloca a imagem de ponta-cabeça dentro de um ovo furado. Depois de três dias, o ovo apodrece e o Santo só é retirado de lá se arrumar um casamento. Outras rezam o Pai Nosso só até a metade e prometem rezá-lo todo só quando aparecer o noivo. Tirando os causos de lado, Suely Souza acha que a fama de Santo Antonio se deve à bondade e à nobreza de sentimentos que exerceu ainda em vida.
Os recém-casados Olga e Ilson dos Santos acham sem sentido a idéia de que um santo pode ajudar no casamento. Nosso amor é mais forte do que tudo. E é isso que decide o bom andamento ou não de uma relação, diz Ilson. Para Olga, que conheceu o marido há menos de um ano, o sentimento falou mais alto do que tudo. Só uma coisa segura um casamento: o amor.
Caixão refletido A professora Eny Palma, 58 anos, responsável por puxar o terço na Festa Junina do Sesc, é a comentarista do ritual junino. Com as irmãs mais velhas, ela aprendeu muito sobre as simpatias de quem pretende arranjar um marido. Esses rituais são feitos, geralmente, na véspera do dia de Santo Antonio e alguns deles podem até decepcionar mas, para muitos, são infalíveis.Minhas irmãs que faziam as simpatias que aprenderam com as avós, preparavam tudo com muita fé. Minha irmã mais velha fez a sorte mas não deu certo não, conta Eny. Só que havia uma simpatia, a do espelho, que até hoje ainda provoca arrepios nas mocinhas de então: a moça tinha de abrir a janela à meia-noite e ficar de frente para o espelho. Nele aparecia a imagem do pretendente. Uma moça fez isso e viu um caixão refletido. Dizem que ela morreu solteira. Essa simpatia é muito perigosa, alerta Eny Palma, em tom de brincadeira. Outra irmã dela fez a sorte dos papeizinhos e saiu o nome do noivo.A fé move montanhas, diz.
A paulista Judith Fischer, seis filhos adultos, garante que nunca fez essas simpatias, mas conta que um amigo seu acabou se casando com a moça cujas iniciais apareceram no único papelzinho aberto dentro de um prato com água, no dia de Santo Antonio. Nem tive tempo de fazer simpatias porque casei com 15 anos, mas muita gente na minha família fez, e nos bailes a gente escutava as mais velhas ensinando às mais novas. E para quem quiser arriscar, Judith conta algumas das simpatias. Anote:
Simpatia da Bananeira
Pegue um facão virgem. Ofereça a Santo Antonio uma oração e em seguida peça que ele a ajude a encontrar o seu futuro amor. Enterre a faca no tronco de uma bananeira, pedindo com fé que seja revelado o nome. Antes do sol nascer volte ao local e puxe a faca. No local onde ela foi enterrada deverão estar as iniciais do pretendente.
Simpatia do Papelzinho
Coloque três nomes de possíveis candidatos a marido, cada um escrito num papelzinho. Dobre os três e misture a outros 22 papeizinhos em branco. Jogue-os numa bacia ou num prato cheio de água e coloque-o no sereno na véspera do dia 13. No dia seguinte, bem cedinho, corra para ver qual deles abriu. O papel que estiver aberto será seu novo amor. Obs.: Ninguém sabe explicar o que acontece se outros também estiverem abertos, mas aceitam-se sugestões.





