Na crônica "Palavra de homem" o compositor e escritor Aldir Blanc relata a experiência de receber a notícia de que iria ser avô. Logo na estreia deste papel, ele descobre que duas de suas filhas estão grávidas, uma delas de gêmeos. Ele tem um ataque de choro, vê seus nervos saírem do lugar, fica sem fala, para depois concluir: "Fecundado pela palavra vovô, eu estava irremediavelmente grávido de meus netos".

O texto, embora tenha sido escrito por um avô, traduz o sentimento que toma conta de homens e mulheres que, depois de ter e criar seus filhos, ganham a chance de vivenciar novamente a experiência de transmitir suas características a alguém, só que desta vez por meio dos filhos dos filhos. Sem o peso da responsabilidade de garantir a subsistência e a educação, o papel dos avôs é, quase sempre, mais leve que o dos pais.

No Dia das Avós, comemorado hoje, algumas delas falam das emoções que têm vivenciado desde que embalaram pela primeira vez um neto nos braços. Não importa o perfil destas mulheres. Pode ser a vó moderna, que trabalha fora e se comunica com os netos pelo Facebook; a vó vaidosa, que não se mostra sem os devidos cuidados estéticos; ou a avó tradicional, que vai para a cozinha fazer bolo para o café da tarde. Todas nutrem o mesmo sentimento intenso pelos netos, se empolgam para falar deles e fazem de tudo para mantê-los por perto.

"Meus netos estão em primeiro lugar em minha vida. Antes de assumir qualquer compromisso, primeiro vejo se tenho algum compromisso com eles", revela a professora aposentada Vera Maria Gouvea de Camargo Akaishi, de 60 anos, quatro filhos e cinco netos. Além de cuidar de dois netos para as mães poderem trabalhar fora, Vera faz questão de reunir toda a família pelo menos uma vez por semana em casa, para garantir a convivência entre todos.

Educação e diversão
A família mantém, além do apartamento em que moram, uma casa na chácara e outra na praia. Em todas, há um espaço reservado na cozinha para guardar tudo o que os netos gostam, como biscoitos, balas e outras guloseimas. Em todas, o bem-estar das crianças é a grande preocupação, por isso sempre há brinquedos e objetos dos pequenos espalhados pelos cômodos. "Não dá para explicar o tamanho do amor que sentimos pelos netos. Parece que é ainda maior que o amor pelos filhos", derrete-se Vera, cercada por João Pedro, de 6 anos, João Luis, de 4, Ana Julia, de 1,2, e Isabela, de 1,1. Só faltou Maria Luísa, a caçula, de pouco mais de um mês de vida.

Sentada no chão, cercada por seus xodós e pelos brinquedos que eles vão deixando por lá, Vera não esconde sua satisfação: "Tem coisa mais gostosa do que isso? A gente pode estar triste, eles chegam e a gente esquece tudo". Mesmo paparicando declaradamente os netos, a professora aposentada afirma que não interfere nos limites impostos pelos pais. "Acho que os avós têm o compromisso de ajudar a educar. Se precisar chamar a atenção eu chamo, se precisar dar bronca, eu dou", garante Vera, que faz de tudo para repetir com o netos a fórmula usada com os filhos: "Quero que eles cresçam juntos, respeitando e ajudando uns aos outros".

"Receber e colher"
Para Maria Elena Bonzanino Alves, de 65 anos, e seis netos, ser avó é "um misto de alegria e contentamento, euforia e expectativa, e uma grande dose de amor e zelo". Maria Elena, também professora aposentada, define a maternidade como "fazer e plantar". Já a fase de avó, para ela, é de "receber e colher". Talvez por isso Maria Elena afirme que se gosta mais e acha que se sai melhor como avó do que como mãe. "Mas não me julgo uma superavó. Simplesmente desempenho o meu papel dando o meu melhor, ocupando o lugar comum", diz.

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