Dividir a mesma casa não é fácil, mesmo quando se trata de família. Quem nunca brigou com o irmão ou discutiu com os pais por causa da bagunça no quarto, o barulho da televisão ou o desaparecimento de uma guloseima da geladeira? Mas a convivência na mesma morada também seu lado bom: a companhia, as conversas e conselhos, a cumplicidade e a intimidade entre pessoas que moram juntas dão uma segurança que nenhuma briga ou desentendimento conseguem arrefecer.
Muitas vezes isso acontece também quando os companheiros da casa não são membros da família, mas amigos de longa data ou até mesmo desconhecidos. Principalmente na época de escola e faculdade, muitos jovens precisam morar em repúblicas e nesse período desenvolvem amizades tão fortes que chegam a substituir a necessidade da família e duram por vários anos.
Foi assim com o biólogo Henrique Garcia Rocha, 26 anos, de Araçatuba (SP). Em 2000, ele veio a Londrina estudar e decidiu morar em uma república com um amigo que residia na cidade. ''Alugamos uma casa para cinco pessoas e chamamos outras pessoas para dividir. Mas tinha de ser amigo nosso, gostar das mesmas coisas. Fazíamos uma entrevista por um mês para testar o candidato antes dele vir morar definitivamente na casa'', conta.
Com tarefas divididas igualmente e muita conversa para resolver os problemas, Henrique, que continua morando em Londrina e hoje está casado, diz que sente saudades da convivência com os amigos. ''A gente fazia festas, conhecia um monte de pessoas. Até hoje sou amigo dos caras que moraram comigo. Duas vezes por ano, eles vêm para cá para nos encontrarmos e sempre nos falamos por e-mail ou telefone. Sou padrinho do filho de um deles. Eles são como minha família e serão meus amigos para sempre, com certeza'', garante.
A amizade é o que mais une os integrantes da república Pau-Cigarra, com cinco moradores - os estudantes Paula Cerruti da Costa, 23 anos; Vanessa Gonçalves Gardim, 21; Vanessa Paladini Cavazana, 22; Dennis de Melo, 24; Heloísa Lazarini, 19. Cada um deles morava em um república diferente e, com o relacionamento iniciado nas salas de aula, decidiram dividir a mesma morada. ''A gente tinha ficado tão amigo que praticamente já morava junto. Sempre saíamos juntos e todo final de semana um dormia na casa do outro depois das festas'', conta Vanessa Gardim.
O segredo da boa convivência, segundo os moradores da casa, é o companheirismo e a semelhança. ''Nós gostamos das mesmas músicas, dos mesmos programas, temos os mesmos ideais. Também fazemos tudo junto. Quando um vai fazer o jantar, por exemplo, todos ajudam. E quem não sabe cozinhar fica na cozinha pelo menos pela companhia'', diz Heloísa.
O carinho de um pelo outro dentro da casa é tanto que todos aceitaram receber uma nova moradora, a pequena Julia Cavazana Couto, 2 anos e meio, para acalmar o coração da mãe, Vanessa Cavazana. ''Quando eu vim para Londrina, ela (Julia) ficou morando com meus pais. Mas eu não queria mais ficar longe dela e decidimos trazê-la para morar com a gente'', lembra Vanessa. ''Nós sabíamos o quanto a presença da Julia era importante para a Vanessa. Desde o início queríamos que ela viesse morar com a gente'', afirma Vanessa Gardim.
E ninguém reclama de não poder fazer grandes festas em respeito ao sono da pequena moradora. ''A gente recebe os amigos em casa, mas sabemos que tem de controlar o barulho. E isso não é um problema'', garante Paula. Nem mesmo a comodidade de Dennis com as tarefas domésticas incomoda as meninas, que acabam ficando responsáveis pela limpeza. ''Não existem regras para o cuidado com a casa. Temos uma lousa no corredor e cada um coloca lá o que precisa ser feito. Quando alguém tem um tempo livre, vai lá e faz. O Dennis faz menos limpeza, mas, em compensação, ele que cuida do jardim e leva os cachorros para passear. Para nós está bem assim'', comenta Paula. ''Gosto de morar com as meninas porque em república só de homem é muita bagunça. Aqui tem cara de casa de verdade'', completa ele.
O paraguaio Diego Rafael Dickmann Ramirez, 20 anos, também é o único homem na república Bicho-de-Sete-Cabeças, formada ainda pelas estudantes Tácia do Nascimento, 23 anos; Thaís do Nascimento, 24; e Ana Paula da Silva Servidoni, 24. ''Eu morava em uma república só de homens, mas lá era muita bagunça e muita festa. Aqui é mais tranquilo'', explica ele.
A república começou em 2004, com as irmãs Tácia e Thaís e outros cinco amigos, por isso o nome da casa. ''Mas já teve época que moraram 11 pessoas aqui. Resolvemos morar em república quando descobrimos que não poderíamos ficar na Casa do Estudante. Então entramos em contato com algumas pessoas que conhecemos durante o vestibular e tínhamos nos identificado'', conta Thaís.
A estudante de Pedagogia, Natália de Amorim Soares, 22 anos, foi uma das moradoras do início da formação da república, e hoje mora sozinha. Mas, segundo ela, a Bicho-de-Sete-Cabeças continua sendo um pouco sua casa. ''Era uma época muito legal, a gente fazia muita festa aqui. Sinto falta dessa animação e das conversas, por isso, de vez em quando eu venho fazer uma visita'', confessa.
De acordo com os moradores, fundamental para que a convivência em uma república seja boa e até dure para sempre, é a tolerância, a paciência e também a sorte. ''Eu brinco dizendo que nós fazemos terapia de grupo aqui. Às vezes rola uma discussão, mas conversamos, entramos em um acordo. Para a limpeza, que era um problema, criamos uma escala de tarefas semanal. Para escolher os quartos, tem sorteio e existem algumas regras, com não fumar em casa nem comer as coisas dos outros'', comenta Tácia.
Mas para todos, o melhor de morar com muita gente é a companmhia, tão importante para quem está longe de casa e da família. ''Para mim, os amigos de república são até mais do que a família porque fico mais tempo com eles. Sinto saudades quando ficamos longe'', comenta Vanessa Gardim. ''Os amigos substituem a família porque ajuda a dar direção na vida da gente, conselhos. É por isso que eu continuo vindo aqui visitar o pessoal'', completa a ex-moradora da Bicho de Sete Cabeças, Mariana Albuquerque Laiola da Silva, 22 anos.

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