Inveja mata
Lilian Rana
Agência Estado
Um dos sentimentos mais primitivos do ser humano é fatal, segundo profissionais e estudiosos na área de comportamento humano. A principal característica da inveja é a destruição. Já que eu não sou o outro, eu quero eliminá-lo, define Yvette Pihe Lehman, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. O primeiro assassinato da humanidade, quando Caim matou Abel, teria sido por inveja. Desde então, textos históricos citam medos e amuletos criados com a intenção de afastar esse ódio invisível.
O desconforto que esse sentimento nos causa é a indicação de que outra pessoa tem alguma coisa que desejamos, e nos faz falta. Quando sentimos inveja, nos comparamos com a outra pessoa. A percepção do outro é muito importante, explica Yvette. Tomamos consciência de quem somos, nossa capacidade e nossos limites. É uma relação que envolve sempre duas pessoas. É um sentimento muito antigo, anterior ao homem e até mesmo anterior ao amor.
Ambição Observar alguém e destacar nele o que queremos para nós é muito doloroso porque desejamos o que não temos. Então sentimo-nos impotentes e frágeis. No entanto, essa dor é um fator de crescimento porque, a partir daí, podemos negociar com nós mesmos, ele tem isso, mas eu tenho aquilo, exemplifica a especialista. A inveja não tem seu lado positivo, mas é ela que elabora outros sentimentos que nos incitam a atingir nossos objetivos, como a ambição, por exemplo.
É muito comum a confusão de sentimentos. Normalmente chamamos de invejosa a pessoa que cobiça algo. Mas a vontade de destruir é que garante a distinção entre a inveja e a cobiça. Geralmente, o erro ocorre pelas características de comparação e a existência de um objeto de desejo. A cobiça é quando observamos a outra pessoa e o elemento de diferença entre nós, mas ao invés de querer eliminá-la, a pessoa se torna um estímulo. É o sentimento que nos leva a aprender para conseguirmos o que desejamos. A psicóloga alerta que nas relações sociais é mais comum perceber a inveja.
Os invejosos, geralmente, ficam indignados quando alguém tem algo, pois não acreditam que ele mereça. O poder que alguém possui ou a aquisição de um objeto de valor, por exemplo, são motivos que levam à depreciação, ao ódio e, finalmente, à inveja. Cochichos e fofocas negativas sobre alguém podem camuflar o sentimento da inveja.
Separação Quando pequeno, o bebê sente inveja da mãe ao perceber que ele não tem o leite para sobreviver, e a mulher que o amamenta o tem de forma abundante, conta Yvette. Criança tem uma inveja inconsciente antes de aprender sobre o mundo e suas denominações, por isso é um sentimento básico.
Num objeto de desejo, como no caso o leite do bebê, existe uma autonomia a qual somos obrigados a aceitar, ele tem vida própria e não depende de nós. A liberdade impõe a distância, mesmo longe, o leite materno continua existindo, por isso a inveja é chamada de a dor da separação. Então, percebemos que nós somos dependentes do poder de outra pessoa.
A intensidade com a qual sentimos inveja é determinante. Tem gente que tem inveja de tudo. As pessoas extremamente invejosas tentam jogar o outro para baixo, até quando fazem elogios. E o que realmente incomoda é a diferença, já que a igualdade facilita a integração social. Por isso é humano ter inveja, tranquiliza a médica. Em qualquer encontro entre duas pessoas haverá alguma diferença, e talvez a consciência de que a outra tenha algo que nos falta. Essas faltas podem ser um estímulo para ser preenchidas, ou podem ser vividas como faltas eternas, finaliza.





