Íntimo e pessoal
Rosângela Vale
Ter alguém para dividir segredos é uma conquista e tanto. Afinal, falar abertamente sobre dúvidas existenciais, problemas cotidianos e pequenos pecados parece aliviar a alma. Saber que alguém lhe considera tanto a ponto de contar todas essas intimidades também traz satisfação: é uma irrefutável prova de confiança. Tanto nas relações amorosas como nas amizades, as confidências têm um significado muito especial.
Tenho umas cinco amigas íntimas, elas sabem praticamente tudo sobre mim, diz a estudante Luana de Held Salinet, 16 anos. Nas extensas conversas por telefone, pela Internet ou na casa de alguma delas, os assuntos são variados. Falamos de meninos, problemas em casa, como estamos nos sentindo, relata. Ao contar seus segredos, ela busca, sobretudo, a aprovação das colegas. E também uma idéia diferente, diz. Quando a coisa é mais cabeluda, Luana restringe suas ouvintes, apelando para a melhor amiga. Ela vai saber me entender melhor, justifica. Na sua opinião, amizade, quando é para valer, tem que ser assim. É preciso contar tudinho.
No namoro, essa obrigação de ser um livro aberto fica ainda mais evidente. Quando não conto alguma coisa que está me preocupando, ele sempre acaba descobrindo. E fica bravo por eu não ter falado, pois poderia ajudar de alguma forma, observa a relações públicas Fernanda Guerra, 26 anos. De acordo com ela, essa cumplicidade é o que existe de mais legal no relacionamento. Quando estou precisando me abrir, se ligar para uma amiga acho que vou incomodar, mas sei que ele sempre vai estar pronto para me ouvir.
Fernanda também cobra o mesmo comportamento do namorado, Ariel Amorin Rodriguez, 25 anos. Se ele tiver algum problema e não me contar, vou perceber que há algo estranho. E essa desconfiança acaba minando a relação, acredita. Mas, segundo Ariel, não há possibilidades de que isso aconteça. Ele garante que Fernanda sabe 100% do que acontece com ele. Não consigo deixar de contar tudo. Acho que para ter um bom relacionamento, é preciso ser transparente, ressalta. Ariel leva isso tão a sério que acaba se chateando com o temperamento da namorada diante das discussões. Gosto de resolver as coisas na hora. Ela fecha a cara e só fala depois, quando está mais calma.
Clichês Apesar de estar associada a valores como sinceridade, confiança e fidelidade, a necessidade de confidenciar e ouvir confidências pode assumir proporções indesejáveis. Uma relação pode ser abortada pela inundação de informações sobre o outro. Ou ser inundada pela busca obsessiva de segredos, adverte o psicanalista Marcelo Castro. Se a mulher é cantada por aquele colega pentelho do trabalho, que motivo a leva a contar para o marido? Para desabafar; para pedir, inconscientemente, que ele a proteja de uma possível atração pelo amigo ou para fazer ciúmes?, indaga ele, sugerindo que, ao confessar algo, a pessoa sempre se pergunte: Estou fazendo isso por mim ou pela outra pessoa? Aquilo que vou dizer vai trazer algum benefício para a relação?
De acordo com Marcelo é impossível ser totalmente transparente. Tem uma parte do ser humano, o inconsciente, que é um segredo até mesmo para a própria pessoa. Ele explica que esse impulso de contar tudo pode ter significados mais profundos. Para a psicanálise, a primeira relação amorosa, vivida com os pais, é extremamente significativa. E esses primeiros tempos de vida são auto-eróticos, a criança vivencia suas descobertas sozinhas. É o modo de descobrir o mundo. São as primeiras experiências de fazer algo escondido, explica. E isso pode vir à tona na fase adulta. Ao sentir necessidade de confidenciar tudo, a pessoa pode estar querendo apaziguar culpas mais primitivas, justifica.
O psicanalista observa ainda que costumamos repetir nas relações adultas clichês aprendidos na infância. A mulher que é ávida por saber tudo sobre o marido pode não se dar conta de que esse é um papel de mãe possessiva. E o homem, ao supor ter que fazer algo escondido, errado e culpável, pode estar repetindo o padrão do filho que sempre quer escapar da mãe, compara Marcelo Castro, esclarecendo que a tendência é de que esses traços infantis desapareçam com a maturidade.
Privacidade Para a psicóloga Ingrid Caroline de Oliveira Ausec, o maior problema das confidências é a expectativa que acabam gerando. Como tenho o hábito de falar tudo, espero que o outro também fale, e aí começo a confundir confidências com confiança, com amor. Se conto meus segredos às pessoas e elas não me contam os seus, passo a achar que não gostam de mim, analisa.
Segundo ela, o comportamento de confidenciar é bastante comum na adolescência. Nessa fase, fazemos confidências por necessidade de aprovação e até por status. O garoto ou a garota são valorizados pelo que fazem, então, contar tudo é uma vantagem. Mas, o ideal é que, com o tempo, esse adolescente aprenda a colocar limites no que diz. Mesmo porque, a melhor amiga pode arrumar outra melhor amiga, e aí o mundo cai, adverte ela, explicando que a questão dos limites é muito pessoal, não há uma receita. Uma boa pista é tentar perceber que ao falar tudo se está realmente ajudando.
No relacionamento amoroso, esse limite é mais palpável. Pelo menos para o psicoterapeuta americano Arnold Lazarus, autor do livro Mitos Conjugais. De acordo com ele, uma certa dose de desconfiança é absolutamente necessária. Confiar demasiadamente não deixaria espaço para o respeito à individualidade, além de acabar com a saudável preocupação em conquistar o outro a cada dia. O ideal, segundo o psicoterapeuta, é que o casal não faça mais que 75% de suas atividades junto. É importante saber que não estou fundida no outro. Quando confidenciamos demais, criamos uma relação de dependência, salienta Ingrid.
A obrigação de contar tudo, para Lazarus, é um dos mitos do casamento. Se não fosse assim, o marido teria que revelar à esposa seus desejos e fantasias com a bela atriz ou a mulher voluptuosa que viu na rua. E fantasias podem passar pela cabeça do mais apaixonado dos casais, garante o psicanalista Marcelo Castro. Para ele, ao confidenciarmos algo, abrimos mão, sobretudo, do inegável direito à privacidade, pois há coisas que só dizem respeito a nós mesmos. Um bom exemplo disso é o filme As Pontes de Madison, dirigido e interpretado por Clint Eastwood e com Meryl Streep como protagonista. Ela fez segredo para o marido sobre sua traição, mas a capacidade de se envolver com outro homem era, até então, um segredo para ela mesma. E essa é a beleza da história, argumenta Marcelo.Considerada prova de confiança e fidelidade, a mania de contar tudo pode ter significados mais profundos e até prejudicar o relacionamento
Nas conversas por telefone, Luana troca confidências com as amigas. Elas sabem praticamente tudo sobre mim, afirmaFernanda e Ariel fazem questão de ter cumplicidade e transparência no relacionamentoUma relação pode ser abortada pela inundação de informações sobre o outro. Ou ser inundada pela busca obsessiva de segredos, adverte o psicanalista Marcelo CastroFotos: Paulo WolfgangCOMPORTAMENTOQuando confidenciamos demais, criamos uma relação de dependência, diz a psicóloga Ingrid Caroline de Oliveira Ausec





