Inimigo sobre rodas
Celso Mattos
Para quem sabe dirigir, entrar no carro, dar partida, engatar a primeira marcha e sair com o veículo são procedimentos mais facéis que operar um microondas ou programar um videocassete. No entanto, para muita gente a simples idéia de sentar no banco do motorista é suficiente para dar tremedeira, taquicardia, enjôo, sudorese e dor de barriga. São pessoas que têm medo de dirigir, ou melhor, pânico. Para quem pensa que essa fobia atinge um número insignificante de indivíduos, está enganado.
No Congresso Latino de Psicologia Comportamental, realizado em março deste ano no Rio de Janeiro, a psicóloga paulista Cecília Bellina apresentou uma pesquisa mostrando que nos últimos seis anos, ela atendeu cerca de mil pessoas com esse problema. O trabalho faz parte de uma dissertação de mestrado que ela está elaborando sobre o assunto na Universidade de São Paulo. Em Londrina, as psicólogas Maria Zilah Brandão e Isabela Torres de Chico estão realizando um treinamento de orientação psicológica para pessoas que têm medo de dirigir. Treze mulheres estão fazendo o treinamento e já existem mais dez cadastradas para a segunda turma.
O fato de todas serem mulheres não significa que esse problema atinge apenas o sexo feminino. Existem muitos homens que têm medo de dirigir, porém, eles encontram mais dificuldade para assumir suas fraquezas, garante Maria Zilah Brandão. No entanto, ela ressalta que essa fobia é menos frequente no homem porque desde pequeno ele é incentivado a aprender a dirigir e a brincar com carrinhos. São aspectos que o ajudam a ter uma intimidade maior com o carro na vida adulta, não encarando-o como algo tão perigoso e desconhecido. Além disso, durante muitos anos, dirigir foi uma tarefa masculina, colaborando para a discriminação que a mulher até hoje sofre no trânsito, argumenta.
Autoconfiança A psicóloga Isabela Torres acrescenta que o processo de aprendizagem é muito importante nesse caso. É preciso ter um bom instrutor. É muito comum as pessoas aprenderem com o marido, pai ou irmão. Isso, às vezes é bom, mas também pode ser péssimo. Ela destaca que o instrutor jamais pode dizer para alguém que está aprendendo a dirigir que ele é um perigo no trânsito ou que vai matar todo mundo na rua. Esse tipo de comentário reforça ainda mais a insegurança da pessoa, diminuindo sua autoconfiança, observa Isabela Torres.
Maria Zilah Brandão lembra que ter medo é uma característica inerente ao homem, um mecanismo de defesa. Mas quando o medo é exagerado, acaba se tornando uma fobia, incapacitando a pessoa para determinadas tarefas. Nesse caso, a melhor forma de superá-lo é o enfrentamento gradativo com a ajuda de um parente, amigo ou um profissional especializado. Esquivar-se do medo só contribui para aumentá-lo ainda mais. O perigo de dirigir existe e não pode ser ignorado, mas a pessoa precisa ter consciência de que tomando os devidos cuidados, esse perigo é semelhante a tantos outros como, por exemplo, atravessar a pé uma avenida movimentada, compara.
O grande problema das pessoas que sofrem de fobias é que elas dão ao problema uma dimensão exagerada. Uma barata se torna um leão. Para quem tem medo de dirgir, o carro é um monstro e o trânsito uma selva, exemplifica Isabela Torres. De acordo com Maria Zilah Brandão, estudos mostram que o tratamento pode demorar algum tempo, mas é eficaz em 70% dos casos. O primeiro passo é admitir o temor e buscar a ajuda de um especialista, afirma a psicóloga.
Esperança A funcionária pública Edir de Oliveira, 43 anos, tem carro há seis anos, mas nunca teve coragem de dirigi-lo. Para se locomover de casa para o trabalho e até para levar a mãe ao médico, ela depende de táxi. Eu cheguei a fazer quatro aulas numa auto-escola. Um dia, estávamos numa subida e o instrutor disse para mim que se eu deixasse o carro descer iria bater em um Vectra que estava atrás, e que isso iria me custar muito caro. Fiquei tão traumatizada que a idéia de ter que parar o carro numa subida me faz sentir pânico, conta.
Edir de Oliveira diz que está encarando este treinamento psicológico como sua última esperança. Lá estou sendo incentivada a enfrentar esse medo e a ser mais autoconfiante. Para mim, é difícil compreender esse medo porque eu sou capaz de fazer tantas outras coisas mais difíceis que dirigir, afirma. Ela conta que é também muito suscetível a críticas. Às vezes, pego o carro para dar uma volta perto de casa, mas as pessoas ficam olhando apavoradas e alguns gritam barbeira, isso me deixa ainda mais insegura. Eu estou fazendo esse treinamento e dando essa entrevista na esperança de que alguém tenha uma receita que me faça superar esse medo, pois eu preciso muito aprender a dirigir, enfatiza Edir de Oliveira.O medo de dirigir é um problema que afeta muitas pessoas, mas pode ser superado com um tratamento especializado
Arquivo FolhaO primeiro passo é assumir o temor e buscar ajuda, orienta a psicóloga Maria Zilah BrandãoJosoé de CarvalhoA funcionária pública Edir de Oliveira tem carro há seis anos, mas nunca teve coragem de dirigi-loCesar AugustoÉ preciso ter um bom instrutor, afirma a psicóloga Isabela Torres de Chico





