Experiência, sabedoria, tranquilidade e muito mais tempo livre são algumas vantagens que se adquire com a chegada da velhice e da aposentadoria. Mas a parte ruim também está incluída nesse pacote e traz com o passar dos anos as enfermidades, o cansaço e a perda do vigor físico. Quem nunca se deparou com um vovô ou vovó carregando sua sacolinha de remédios variados?
Infelizmente, segundo o geriatra Marcos Cabrera, as doenças e, consequentemente os remédios, são inevitáveis para os idosos. O problema está na maneira como os medicamentos são usados. ''Não podemos satanizar os remédios porque eles são importantes para controlar e curar doenças. Como os idosos são mais vulneráveis e adoecem mais, os medicamentos são aliados. O problema está no uso inadequado'', afirma.
O especialista garante que mesmo o comprimido mais inofensivo e ingerido de forma correta pode representar um risco, principalmente para quem já passou dos 60 anos. ''Um antiinflamatório, geralmente para combater as dores típicas da velhice, pode causar uma discompensação cardíaca, o que é muito sério nessa faixa etária. De cada 10 idosos internados, três foram vítimas desse tipo de problema. Mas a pessoa não pode ficar com dor e acaba correndo o risco de tomar o remédio'', comenta.
Um estudo feito por médicos do setor de geriatria da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo envolvendo 100 idosos com idade média de 77 anos mostrou que 41% dos pacientes analisados tomam medicamentos que não são recomendados para essa faixa etária devido ao alto risco de efeitos colaterais. Dentre os mais comuns estão calmantes, antiinflamatórios, remédios para pressão alta, labirintite, relaxantes musculares e laxantes, que fazem parte do uso frequente.
''Como resultado dessa situação, o paciente entra em uma cascata medicamentosa: passa a tomar cada vez mais remédios para combater os efeitos colaterais causados pelos próprios remédios'', explica Milton Gorzoni, médico geriatra da Santa Casa e coordenador da pesquisa. ''Todo remédio, mesmo os naturais como ginko biloba ou ginseng, causa um efeito colateral que pode ser muito mais do que uma simples dor de estômago. Por terem um sistema metabólico mais lento que os jovens, os remédios devem ser utilizados pelos idosos com muito mais cuidado'', completa Marcos Cabrera.
De acordo com o geriatra, existem vários fatores que determinam o mau uso dos remédios. ''Falar sobre isso significa discutir três pontos: os médicos, os pacientes e o sistema. Para remediar literalmente o problema do paciente, os médicos acabam causando um acúmulo de remédios. O paciente, por sua vez, usa medicamentos sem a prescrição médica adequada e o sistema muitas vezes não oferece remédios próprios para idosos. Nos postos de saúde e hospitais públicos não existem remédios indicados exclusivamente para tratar pessoas mais velhas. Quem não tem dinheiro para pagar, aceita o medicamento inadequado'', alerta.
Perda de memória, sonolência, queda de pressão, alterações nos movimentos, quedas, problemas cardiovasculares, distúrbios psiquiátricos e tremores intensos são alguns dos efeitos colaterais mais comuns causados pelos medicamentos. Fazer o uso racional de qualquer medicamento é, para Cabrera, um caminho para evitá-los. ''Muitas vezes fazer fisioterapia pode substituir o uso de antiinflamatórios. Perder peso pode ajudar no controle da diabetes e a depressão pode ser a real causa de outros problemas. Ter um tratamento correto, com acompanhamento médico eficaz ajuda muito'', garante.

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