Inimigo invisível
Celso Mattos
Pânico e fobia social podem parecer denominações estranhas, mas nos consultórios psicológicos e psiquiátricos a procura por tratamento está se tornando uma rotina. É cada vez maior o número de pessoas que sofre de transtornos de pânico e fobia social, fazendo com que especialistas discutam o problema mais frequentemente. O tratamento psicoterápico e farmacológico para esses dois transtornos foi debatido recentemente, em Londrina, num curso promovido pelo Instituto de Psicoterapia e Análise do Comportamento (PsicC), em parceria com a Clínica das Palmeiras.
Para falar sobre o tema estiveram na cidade a psiquiatra Carmem Lúcia Schittini, presidente da Sociedade Paranaense de Psiquiatria e o psicólogo Bernard Rangé, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A maior dificuldade no tratamento desses transtornos é a demora no diagnóstico da doença. Só depois de fazer uma romaria por vários consultórios médicos, é que o paciente vai procurar ajuda psicológica, diz a psiquiatra Carmem Lúcia. Isso porque os sintomas de um ataque de pânico são semelhantes aos de outras doenças. A pessoa tem taquicardia, sudorese, vazio no estômago, tonteira, vômitos, dormência de membros e tensão muscular, explica a médica.
Nesse caso, segundo a psiquiatra, é comum o paciente primeiro passar pelo consultório do cardiologista, depois no do gastro, otorrino, ginecologista, urologista e até no oncologista. Só então ele vai procurar tratamento psicológico e acaba descobrindo que sofre de transtorno de pânico. Mesmo assim, o paciente demora a aceitar que tem uma doença que, aparentemente, não é física, mas psicológica. A psiquiatra diz ainda que o transtorno do pânico é uma doença solitária. O portador, geralmente, tem receio de contar para a família e para o amigos, pois devido ao desconhecimento muitas pessoas associam a doença à frescura. Por isso, os pacientes acabam também sofrendo de depressão, diz Carmen Lúcia.
Incapacitante Segundo o psicólogo Bernard Rangé, o transtorno do pânico é uma doença altamente incapacitante. A pessoa deixa de sair de casa porque tem medo de ter um ataque na rua, recusa-se a dirigir carros e tem medo de ficar sozinha dentro de casa. Além disso, ela foge de todas as situações que, supostamente, podem levá-la a um novo ataque como, por exemplo, praticar esportes e fazer sexo, pois são duas atividades que aceleram os batimentos cardíacos e deixam a pessoa ofegante, que são dois sintomas característicos de um ataque de pânico, explica o professor.
A psicóloga clínica Maria Zilah Brandão acrescenta que a pessoa começa a ficar obcecada pelas reações corporais. Ela tem medo de relaxar e perder o controle sobre seu corpo, com isso está sempre tensa e ansiosa. É muito comum o paciente ter insônia, começar a beber e a tomar calmantes para fugir do problema. Já o médico psiquiatra Heber Odebrecht Vargas diz que esse tipo de paciente se torna muito oneroso para os planos de saúde. Até descobrir qual é realmente seu problema, ele já foi em dezenas de médicos e já fez tomografia, ultrassom, eletrocardiograma e muitos outros exames desnecessariamente, observa o médico.
Fobia social Heber Vargas acrescenta ainda que os portadores de transtorno do pânico costumam assumir uma atitude de avestruz. Eles se fecham de tal forma, achando que assim vão poder controlar a doença, deixando de ir a festas, ao cinema e de viajar. Enfim, deixam de viver. Além disso, evitam falar sobre o problema com outras pessoas pois têm medo de serem ridicularizados, dificultando ainda mais o diagnóstico e tratamento da doença.
Tão comum quanto o pânico, a fobia social também é um distúrbio altamente limitador. Neste caso, a pessoa tem medo de se expor e ser avaliado negativamente, explica Bernard Rangé, ressaltando que a fobia social prejudica a vida profissional e os relacionamentos afetivos. Só de pensar que precisa falar com seu chefe, a pessoa já começa a ter gagueira, fica ruborizada e tem taquicardia e sudorese. O mesmo acontece quando ela sente desejo de se aproximar de alguém, mas tem medo de não ser aceita, preferindo fugir da situação.
Ele salienta que o importante é a pessoa saber que existem tratamentos para pânico e fobia social. Os resultados obtidos nos tratamentos terapêuticos e farmacológicos são ótimos, devolvendo ao paciente uma vida totalmente normal. Mas para isso, as pessoas precisam deixar de lado o preconceito de procurar uma ajuda psicológica ou psiquiátrica, assumindo o problema e desejando solucioná-lo, aconselha Bernard Rangé.Fobia social e transtornos de pânico são problemas altamente incapacitantes e precisam de tratamento especializado
Fotos: Paulo WolfgangSó depois de fazer uma romaria pelos consultórios médicos, é que a pessoa procura ajuda psicológica, diz a psiquiatra Carmem Lúcia SchittiniSegundo o psicólogo Bernard Rangé, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a fobia social prejudica a vida profissional e afetiva





