Inimigo em casa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de janeiro de 2005
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Termina hoje o prazo para que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determine a restrição da venda dos medicamentos Novalgina, Novalgina Relax e Vitalgina. A decisão foi tomada por um juiz federal em decorrência de uma ação do Ministério Público Federal que alega que o uso da dipirona, princípio ativo dos medicamentos citados, pode trazer problemas à saúde dos pacientes. A partir de agora, as caixas desses remédios terão a tarja vermelha e exigirão receita médica para serem vendidos. O MP pretende entrar com outras ações para restringir a venda de todos os medicamentos à base de dipirona sódica, entre eles a Neosaldina, Anador e Buscopan.
Mas a dipirona não é o único remédio que pode prejudicar a saúde vendido sem receita nas farmácias. ''O maior problema no consumo da dipirona é a anemia plástica, que é a diminuição na produção de hemáceas no sangue. Nos EUA e outros países ela só é encontrada em hospitais e usada para combater febres muito altas. E são vários os medicamentos que deveriam ser tomados com cautela pela população pois podem causar problemas bem sérios'', garante o professor de farmacologia da Unopar, José Antônio Elias.
Um bom exemplo dos riscos oferecidos por remédios de uso comum é o AAS (Ácido Acetil Salicílico), usado para amenizar dores de cabeça, febre e pressão alta e popular para medicar crianças. ''Os problemas mais comuns são a gastrite, que ocorre em 40% dos pacientes que fazem uso frequente do AAS, e as crises de asma, que atingem 10% dos asmáticos que usam o remédio. No caso da pressão alta, é importante cuidar da quantidade. Se ministrado até 300 mg, ele ajuda a baixá-la, se passar disso, existe o risco de aumentá-la'', afirma Elias. ''Principalmente em crianças, remédios como o AAS são um perigo. Por terem um sabor adocicado, semelhante ao de balas, eles podem ser consumidos com exagero'', diz o professor de saúde coletiva da Unopar, Airton José Petris.
Outro perigo que geralmente guardamos em casa são os antialérgicos, feitos à base de corticóides e antiestamínicos. Se tomados com frequência, eles podem causar osteoporose, diabetes, hipertensão, glaucoma e gastrite. Os descongestionantes, além de danificarem a mucosa nasal, podem causar hipertensão; o popular parecetamol oferece risco de lesão hepática quando usado regularmente. ''Todo medicamento tem seu lado bom e seu lado ruim. Por isso é preciso cuidado antes de consumi-los'', alerta Elias.
Isso porque, segundo Airton Petris, muitos problemas ocorrem pelo mau uso dos remédios. ''Como não existe fiscalização nas farmácias, a compra de remédios é fácil. A falta de atendimento médico de qualidade na rede pública também favorece a automedicação. Uma forma de diminuir os riscos é alertar a população para os perigos de cada medicamento. O Conselho de Farmácia do Paraná está tentando conscientizar os profissinais sobre isso'', afirma Petris.
Entre os medicamentos usados de forma inadequada pela população estão os antibióticos. ''As pessoas não fazem o tratamento completo, parando de tomar o remédio quando o problema diminui. Aí a bactéria volta ainda mais resistente'', explica Elias. Os antiácidos também oferecem problemas devido ao efeito rebote. Se tomados com frequência, eles acabam agravando problemas de estômago já existentes. E os colírios são grande foco de contaminação quando usados de forma inadequada. ''A maioria das pessoas encosta o frasco no olho e empresta o colírio para outras pessoas. Isso favorece a transmissão de doenças'', diz José Elias.
Segundo o especialista em saúde coletiva Airton Petris, é praticamente impossível acabar com a automedicação, mas é possível diminuir seus riscos. ''O acesso das pessoas aos remédios melhorou e a qualidade também, mas as pessoas desconhecem as reações e interações que ele provocam. Pacientes que usam remédios contínuos, como hipertensos, e mulheres que fazem uso de anticoncepcionais correm o risco de cortar o efeito ou multiplicá-lo quando combinam tais medicamentos com outros de uso comum. Por isso é importante ao menos telefonar para um médico perguntando do risco de se tomar um medicamento por conta própria'', aconselha.
De acordo com os profissionais, a farmácia caseira deve conter poucos remédios. Apenas um antitérmico, um analgésico e um antiemético (para vômito). ''Guardar os medicamentos em local seco e longe da luz e não usar remédios com prazo de validade vencido também são atitudes importantes'', diz Elias. n


