Inimiga silenciosa
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 21 de setembro de 2000
Celso Mattos Enviado a São Paulo 
A osteoporose chegará ao século 21 contabilizando números preocupantes no Brasil: das mulheres acima de 45 anos, 35% serão afetadas pela doença, apenas um terço das pacientes têm a patologia diagnosticada e somente 20% estão em tratamento. Entretanto, o dado mais assustador é que 50% das mulheres que desenvolvem a doença deixam de andar e 25% morrem.
Estes números foram apresentados no workshop sobre osteoporose, realizado no início deste mês em São Paulo, promovido pelo laboratório Merck Sharp & Dohme. O evento contou com a participação dos médicos João Francisco Marques Neto, reumatologista e presidente da Sociedade Paulista de Osteoporose; Salim Wehba, ginecologista e professor adjunto da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e Sebastião Cezar Radominski, professor da disciplina de reumatologia da Universidade Federal do Paraná e presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia.
Considerada a doença dos três D dolorosa, debilitante e desfigurante a osteoporose provoca o enfraquecimento progressivo dos ossos, facilitando a ocorrência de fraturas, principalmente na coluna, nos punhos e nos quadris, atingindo cinco milhões de mulheres apenas no Brasil. O reumatologista João Francisco Marques explica que a partir dos 35 anos a pessoa começa a perder massa óssea. Esta perda pode ser lenta ou rápida. Como a mulher tem menos massa óssea que o homem, ela é mais suscetível a ter osteoporose.
Genético Aliada a fatores genéticos e de comportamento, a perda óssea pode ser mais acentuada. Mulheres que têm casos de osteoporose na família, que fumam, consomem bebidas alcóolicas, são sedentárias e que têm dieta pobre em cálcio são candidatas em potencial a desenvolver a doença, afirma o médico. Ele acrescenta que a partir dos 45 anos, a mulher fica ainda mais exposta porque após a menopausa os ovários deixam de produzir o estrógeno, o que acelera o processo de enfraquecimento dos ossos.
O reumatologista João Francisco, que coordenou a pesquisa Osteoporose Brasil 2000, diz que o sistema de saúde brasileiro está despreparado para tratar a doença. Grande parte dos médicos clínicos gerais não sabem diagnosticar e tratar adequadamente a osteoporose e, muito menos, fazer a prevenção. Segundo ele, existem médicos que acreditam que a doença faz parte do envelhecimento, dizendo que a osteoporose é o cabelo branco dos ossos. É um absurdo, mas acontece com frequência.
Entre os fatores de risco, o genético responde por 70%, os outros 30% se diluem entre hipoestrogenismo (queda do hormônio), envelhecimento, raça, composição óssea e hábitos comportamentais. As mulheres brancas e orientais têm mais prediposição à doença, enquanto que as negras não correm riscos de sofrer de osteoporose porque têm uma estrutura óssea mais resistente. As mulheres obesas também apresentam menos riscos porque quanto maior é o peso da pessoa, mais resistentes serão os ossos, esclarece o médico.
Corticóides O ginecologista Salim Wehba diz que de acordo com Organização Mundial da Saúde, a mulher se estressa, bebe e fuma mais que os homens. Além disso, ela consome mais medicamentos que os homem como, por exemplo, corticóides e ácido retinóico, que mesmo usado externamente contribui para a osteopenia (perda óssea), aponta. Ele ressalta que como a doença não tem cura, o ideal é prevenir a osteopenia para que ela não chegue ao um grau exagerado, caracterizando-se como osteoporose. O grande problema desta doença é que ela é silenciosa e indolor até acontecer a primeira fratura. É a partir de então que começa o calvário da paciente, frisa.
O especialista observa que nunca é tarde para a mulher mudar seus hábitos e começar a se prevenir. Uma mulher de 80 anos que ganha 10% de massa óssea, reduz em 50% a possibilidade de fraturas, informa Salim Wehba. Para isso, é preciso abandonar o fumo e o consumo de bebidas alcoólicas, diminuir o consumo de café, fazer caminhadas três vezes por semana de, no mínimo, 40 minutos e adotar uma dieta rica em cálcio. O ideal é beber três copos de leite desnatado por dia, podendo substituir por iogurte ou fatias de queijo, recomenda.
A melhor forma de diagnosticar a doença é através de um bom exame físico. O médico precisa conversar com a paciente, conhecer a história clínica familiar e avaliar os hábitos comportamentais. Além disso, o médico conta com a ajuda da densitometria óssea que vai mostrar o índice de osteopenia, esclarece Salim Wehba.
* O jornalista Celso Mattos viajou a São Paulo a convite do laboratório Merck Sharp & Dohme.


