''Que seu alimento seja seu remédio; que seu remédio seja seu alimento.'' (Hipócrates).
Uma alimentação natural, saudável e rica em nutrientes parece cada mais distante da população moderna. Não só a que vive nos grandes centros, alvo fácil dos fast foods, mas também a dos sítios e fazendas, que aos poucos vai perdendo as tradições culinárias. Recuperar algumas dessas receitas e ensinar outras altamente nutritivas foi o objetivo do curso ministrado pela assistente social da Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) de Curitiba, Maria Regina dos Santos, no último dia 3, no Centro Educacional Rural Unopar, em Tamarana (60 quilômetros ao sul de Londrina).
O objetivo do curso é a diversificação alimentar, o enriquecimento daquilo que comemos no dia-a-dia concentrando minerais e vitaminas para chegarmos a uma dieta mais equilibrada. Tudo isso sem mudar o sabor ou o tipo de preparação. Impossível? Maria Regina, que administra cursos de culinária na Emater há 20 anos, garante que não. Para as cerca de 25 mães de alunos que participaram do curso ela ensinou, principalmente, que tudo é uma questão de criatividade.
Na cozinha do Centro Educacional, localizado na Fazenda Experimental da Universidade Norte do Paraná (Unopar), foram preparadas delícias como sagu de beterraba, farelo de arroz torrado (ingrediente de várias receitas, por ser rico em ferro, vitamina B1 e niacina), torta de talos e folhas, gelatina de batata-doce, arroz com casca de abóbora, maionese de fubá e farofa com casca de banana, entre outras. O cardápio foi definido na hora, a partir dos ingredientes trazidos pelas mães. ''Quisemos mostrar que tudo pode ser aproveitado.''
As mães, ainda surpresas com o resultado de algumas combinações, garantiram que suas famílias irão comer melhor daqui para frente. ''Eu jogava muita coisa fora, como os talos das verduras. Acho que agora vai dar até para fazer mais economia com os alimentos'', afirmou a dona-de-casa Célia Granado Amorim, garantindo que gostou de tudo o que foi preparado, mas principalmente da torta de folhas e talos. ''Não imaginava que isso tudo fosse possível. É vivendo e aprendendo...''
A mesma empolgação era demonstrada por Doroty Aparecida da Costa Rezende: ''Foram usados ingredientes que a gente não imaginava, como as folhas de batata-doce, abóbora e mandioca.'' Mãe de cinco filhos e com uma horta no fundo do quintal, ela também afirmou que, com as informações que recebeu, a família terá mais opções de alimentação.
Além de ensinar alternativas de como comer melhor, os cursos ministrados pela assistente social da Emater funcionam como uma espécie de terapia de grupo. Com formação em socioterapia, Maria Regina explica que nos últimos 10 anos tem percebido que as mulheres se soltam no ambiente culinário, ''principalmente quando trabalham com as mãos, nas massas''. Segundo ela, o exercício estimula as participantes a se desarmarem, exteriorizando muitos de seus problemas. ''Não chego ao ponto de trabalhar questões psicológicas, mas aproveito para trabalhar alguma coisa de relacionamento. Na cozinha a gente tem uma interação maravilhosa'', garante Maria Regina.
É também no agradável ambiente culinário que essas mulheres melhoram sua auto-estima, na medida em que aprendem a importância de preparar bem e com sentimento o alimento da família. ''Já trabalhei até com adolescentes, dando orientação sexual enquanto fazíamos receitas de biscoitos'', conta a assistente social, reafirmando que no caso do curso ministrado em Tamarana, a idéia foi melhorar o nível de alimentação da comunidade. ''Muitos aqui plantam, colhem e comercializam legumes e verduras mas não comem.''
A falta de conhecimento de como aproveitar melhor o potencial dos alimentos é um problema que contrasta com a fome no Brasil. Calcula-se que 20% dos grãos e 30% das hortaliças produzidos no Brasil são desperdiçados. Entre os fatores que contribuem para isso estão as formas de preparo. O livreto denominado ''Importância de Cascas, Talos e Folhas na Alimentação'', distribuído pela Emater, lembra que ''a falta de hábito em utilizar de forma integral os alimentos é motivo de desperdício. Também causa perdas o desconhecimento sobre o valor nutritivo e seu melhor aproveitamento''.n

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