A divulgação dos resultados da maior pesquisa clínica já realizada para avaliar os efeitos, a longo prazo, da suplementação hormonal em mulheres na fase da menopausa caiu como uma bomba sobre a comunidade médica. Os resultados não são exatamente uma novidade, nem envolvem todas as combinações e dosagens geralmente usadas em tratamentos com hormônios, mas aumentam muito as dúvidas relativas ao poder preventivo do tratamento, especialmente no que diz respeito aos eventos cardiovasculares enfarto e derrames, por exemplo. Também não colocam um ponto final na polêmica que cerca o assunto. Ao contrário. Os pesquisadores e especialistas consultados são unânimes em recomendar às mulheres que estejam sendo submetidas à reposição, que procurem seus médicos e reavaliem a decisão. E para as que ainda não começaram, que discutam e se informem com clareza sobre os riscos a que estarão expostas.
A cautela diante dos resultados é determinada por uma série de variáveis, que vão desde o tipo de hormônio usado, a forma e o tempo de uso até a existência de outras pesquisas com resultados semelhantes, e que não tiveram tanta repercussão. O que aumenta a importância e a credibilidade deste estudo é a origem dos recursos usados e o número de pacientes envolvidos, o maior até aqui. ''O uso de reposição hormonal para prevenir câncer de mama e eventos cardiovasculares surgiu da observação e não de estudos clínicos de longo prazo tão amplos como este. Além disso, essa pesquisa estava sendo financiada com recursos públicos'', diz Clineu de Mello Almada Filho, professor de geriatria da Universidade Federal de São Paulo. Para ele, esse estudo vai provocar grandes mudanças na forma de abordagem dos problemas gerados pela menopausa. ''Eles reforçam a necessidade de uma avaliação individual e certamente vão inibir o uso de hormônios'', diz.
A pesquisa envolveu 16 mil mulheres, 41 centros médicos e foi patrocinada pelo Instituto Nacional de Saúde, portanto, por dinheiro público e não da indústria farmacêutica. Metade das pacientes foram tratadas com hormônios conjugados nas doses convencionais, e a outra metade recebeu placebo substância inócua , num sistema conhecido como duplo-cego, ou seja, nem as pacientes nem os médicos sabiam quem recebia o hormônio e quem tomava apenas o placebo. Este controle foi feito por uma terceira pessoa, para evitar a interferência de avaliações subjetivas nos resultados finais.
O projeto inicial previa o acompanhamento destas mulheres até 2005, mas foi paralisado e teve seus resultados divulgados agora em função da importância dos achados, que são conclusivos segundo a coordenação do projeto. A reposição de hormônio conjugado estrogênio e progesterona não reduz o risco de osteoporose e câncer de cólon, mas aumenta em 41% o risco de derrame cerebral, em 29% o de ataque cardíaco e em 26% o de câncer de mama. n


Riscos são maiores que a eficiência

Os médicos alertam que essas porcentagens referem-se ao risco esperado, e não ao número total de pacientes envolvidos. ''No caso do câncer de mama, os resultados começaram a aparecer com mais de cinco anos e o aumento do risco encontrado foi até menor do que o registrado em outros trabalhos'', diz Edmund Baracat, presidente da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia e professor titular de ginecologia da Faculdade Paulista de Medicina.
Ceci Mendes Carvalho Lopes, médica e pesquisadora do Setor de Ginecologia Endócrina e Climatério do Hospital das Clínicas, da USP, ressalta, no entanto, que não há sentido em fazer reposição hormonal por períodos curtos, quando o objetivo é prevenir doenças. ''Em termos de estatísticas este aumento de 26% nos índices de risco esperado não é considerado grande. Só que estamos falando de vidas humanas e, neste caso, ninguém quer aumentar nenhum tipo de risco''.
Quanto à proteção cardiovascular, Ceci cita outro estudo, feito nos mesmo moldes, porém com mulheres portadoras de doenças cardiovasculares. ''Os resultados também indicaram que essa proteção não era tão interessante'', diz. Para ela, a prevenção com suplementação hormonal vai depender de uma avaliação individual de cada paciente, no que a maioria de seus colegas concorda. ''É preciso fazer um balanço entre o risco que cada paciente corre com ou sem a reposição. Não dá para generalizar'', diz Sami Liberman, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.
Não generalizar significa também considerar as outras combinações e dosagens usadas. O estudo foi feito com o uso de hormônios conjugados, ou seja, estrógenos e progesterona, e em doses consideradas elevadas hoje. ''Estas dosagens foram muito usadas há algum tempo, mas hoje há experiências com dosagens mais baixas, que podem não apresentar os mesmos efeitos'', explica Almada Filho. (L.P.)


Fitoterápicos

Os estudos com os fito-hormônios começaram a ser pesquisados há dez anos e hoje são uma opção mais frequente na Europa, segundo Ceci Lopes. ''Há indícios claros dos benefícios vindos da soja. Mulheres orientais, que têm uma dieta rica em soja, estão menos sujeitas a desenvolverem problemas de saúde no climatério e na menopausa. E não é uma questão genética, já que as orientais que absorveram os costumes de alimentação do ocidente passaram a apresentar a mesma prevalência que as ocidentais'', conta.
A pesquisadora acrescenta que não é só a soja que produz essas substâncias. ''Aqui na USP estudamos outras duas plantas, a americana Cimicifuga racemosa, conhecida como Actéia em Portugal e sem nome popular no Brasil, e o trevo vermelho, uma planta Australiana indicada para problemas da menopausa desde a década de 40. Há outras centenas de plantas que também podem ser usadas'', diz. A planta americana não existe no Brasil e os fito-hormônios extraídos dela são muito utilizados na Alemanha e na França.
Segundo uma avaliação preliminar dos estudos que ainda estão em andamento na USP, parece ter ação semelhante à do hormônio natural, embora menos intensa. As pesquisas com o trevo vermelho australiano estão apenas começando na USP. Além da USP, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) também estuda os fito-hormônios. ''Até agora, comprovamos a eficiência do fitoestrogênio de soja principalmente no alívio dos sintomas vasomotores (ondas de calor).
Os problemas com a utilização destes medicamentos, no entanto, são os mesmos que cercam os hormônios, sejam eles sintéticos ou de origem animal. ''A pesquisa científica ainda não comprovou, de forma segura, os efeitos a longo prazo dos hormônios convencionais. E as que investigam os fito-hormônios têm pouco tempo. Estão numa fase parecida a que estavam os hormônios há dez anos atrás'', diz Almada Filho. (L.P.)

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