A crença popular diz que onde há amor, há ciúme, mas, o sentimento, tão comum, se não for bem dosado, pode acabar com um relacionamento amoroso. O músico e compositor Caetano Veloso reconhece, em um trecho da sua música ‘‘O ciúme’’, o poder de fogo do sentimento – ‘‘o ciúme lançou sua flecha preta e se viu ferido justo na garganta’’. O psiquiatra e psicanalista de Londrina, Marcelo José de Castro, acredita que este trecho da música mostra que não é só um lado do casal que pode sair ferido no caso de ciúmes. ‘‘Sofre quem sente e quem é objeto de ciúmes’’, diz.
Segundo o psiquiatra, o ciúme é uma vivência universal, algo que todos nós conhecemos. ‘‘Não existe uma relação afetiva imune ao ciúme, ele existe conscientemente ou não’’, diz. Para Castro uma das melhores formas de se entender o sentimento, e ainda extremamente atual, vem de um texto de Freud, publicado em 1922, que divide o ciúme em três situações – normal, projetado e delirante. ‘‘Temos que entender, no entanto, que a psicanálise não se propõe a categorizar ou a rotular as pessoas, como se existisse uma fórmula ou equação’’.
Para Freud, o ciúme normal é composto de dois aspectos, a dor ou o luto pela perda, ou possível perda do objeto amado, e a ferida narcísica causada pelo pensamento ‘‘o que o outro tem que eu não tenho?’’. Um exemplo típico é o de um casal de namorados em que um dos dois está dando a maior pelota para outro. ‘‘Neste caso, é normal que a situação desperte ciúmes e que a pessoa sofra por sentir que pode perder o objeto amado’’, explica Castro.
O outro tipo de ciúme, projetado, vem da infidelidade ou da possibilidade disso acontecer. ‘‘Na verdade, eu tenho medo de que a minha namorada possa fazer comigo o que eu sinto que posso fazer com ela, ou que já estou fazendo’’, explica. Castro cita como exemplo, o caso da mulher que, no supermercado, na rua ou no trabalho, foi abordada e se sentiu atraída por outro homem. ‘‘Ela pode nem se dar conta do sentimento de atração, mas quando o marido chega um dia atrasado em casa, ela já briga com ele, cobrando o atraso, preocupada com quem e onde ele estava. Ela não se dá conta de que essa raiva é porque se sentiu tentada a trair e o outro poderia fazer o mesmo’’, diz.
Marcelo Castro explica que a monogamia é uma criação recente na história da civilização, e que a fidelidade exige esforço para ambos no par amoroso. ‘‘Não estou aprovando ou reprovando a fidelidade ou a infidelidade, a monogamia ou a poligamia, mas acredito que quando a pessoa percebe que ela faz um grande esforço e até renúncias para ser fiel, o relacionamento fica menos complicado’’.
Quando o ciúme chega ao delirante, já pode ser considerado uma patologia mental que requer tratamento médico. ‘‘Esse tipo dispensa qualquer evidência de realidade, ele não se baseia em dados ou fatos concretos, apenas na certeza interior de que a outra pessoa está traindo. Neste estágio, os relacionamentos podem terminar até em tragédia’’, explica.
Para um relacionamento saudável, o psicanalista recomenda que não se coloque expectativas no outro, que são, na verdade, coisas mal resolvidas em nós mesmos. Castro faz, inclusive, um alerta aos adolescentes: ‘‘Tenho conhecido a situações de namorados que vivem relações tão possessivas, que não permitem que o outro tenha qualquer interesse que não ele. A liberdade de cada um vai sendo cada vez mais tolhida e as brigas ficando cada vez mais constantes, por motivos ridículos’’.

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