Atualmente existem cerca de 8 milhões de diabéticos no Brasil. A má notícia é que a incidência da doença vem aumentando entre as crianças, uma realidade que deve ser encarada com serenidade e muita preparação por parte dos pais. Informação e conscientização sobre a postura diante da nova vida são as armas mais efetivas para conviver com o problema. Se não tratado e controlado, o diabetes acarreta, com o decorrer do tempo, lesões graves e potencialmente fatais. A boa notícia é que todas essas complicações crônicas podem ser evitadas e o paciente pode ter uma vida perfeitamente normal.
De acordo com a médica endocrinologista Rosângela Maria Freire Kobayashi, o diabetes é uma alteração no metabolismo do açúcar devido à uma insuficiência do pâncreas na produção do hormônio insulina, podendo ser total, originando o diabetes tipo um, ou parcial, que diz respeito ao diabetes tipo dois. A razão do aparecimento da doença é diferente nos dois casos. O diabetes tipo dois (ou não insulino dependente), tem maior incidência após os 40 anos e está relacionado à hereditariedade e à obesidade. Já o do tipo um (ou insulino dependente), ocorre devido à auto-imunidade, ou seja, os anticorpos do próprio organismo destróem as células que produzem insulina, atingindo geralmente pessoas abaixo dos 30 anos. Rosângela observa que o estresse pode ser um fator desencadeante da doença, mas não a causa.
Apesar de as crianças serem frequemente mais atingidas pelo diabetes do tipo um, a endocrinologista informa que se tem registrado um aumento significativo da diabetes tipo dois na infância, fator diretamente relacionado à obesidade. Um reflexo do sedentarismo da vida moderna, em que as brincadeiras de rua foram substituídas pelo computador. Fica aqui um alerta aos pais, que devem ser os principais responsáveis pelo controle da alimentação dos filhos e pelo incentivo às atividades físicas.
Os principais sintomas do diabetes são sede excessiva, micções frequentes, enurese noturna (xixi na cama), boca seca, emagrecimento repentino, dores nas pernas e apatia. ‘‘Se não for feito o diagnóstico, o quadro pode evoluir para desidratação, taquipnéia (aumento da frequência respiratória), hálito cetônico (cheiro de maçã passada, uma característica de descompensação grave da doença) e até mesmo o coma’’, adverte a médica, relatando que geralmente a notícia é um choque para os pais, principalmente porque a criança terá que usar insulina para o resto da vida (no caso da diabetes tipo um) e fazer um controle rigoroso da dieta, privando-se de doces e de outros alimentos. ‘‘Mas existem muitos produtos dietéticos no mercado. É muito mais fácil ser diabético hoje do que há 15 anos’’, compara.
Em função de todas as mudanças necessárias na rotina doméstica, é essencial que, antes de iniciar o tratamento, a família passe por um processo de educação em diabetes para entender as condições que provocam elevação ou queda brusca da glicemia, as orientações dietéticas sobre o que e quanto comer, os perfis da ação terapêutica dos vários tipos de insulina e, sobretudo, para aprender a aceitar a doença. Segundo a endocrinolotista, o controle do diabetes ficou relativamente mais simples depois do aparecimento dos miniaparelhos portáteis automatizados, que permitem fazer a monitorização glicêmica doméstica. ‘‘É o único caminho para evitar as complicações, fazendo com que os níveis glicêmicos se mantenham perto da normalidade’’, diz Rosângela.
Para garantir esse controle, a monitorização deve ser feita de três a quatro vezes por dia. Os aparelhos mais modernos fazem a leitura em 20 segundos – basta uma gotinha de sangue colocada em uma fita reagente. O custo, entretanto, ainda é alto. Apesar de limitados, os testes de urina são uma alternativa mais econômica. Também são feitos com fita reagente e a leitura se dá por variação de cores. Injetada no tecido subcutâneo do braço, abdome, coxas e nádegas, a insulina pode ser aplicada de duas formas: através de injeção ou de canetas com uma pequena agulha na ponta. Coloridas e semelhantes às canetas que as crianças adoram colecionar, podem ajudar a minimizar a resistência ao tratamento.
Os pais devem estar sempre atentos, pois os diabéticos estão sujeitos também a complicações agudas como a hipoglicemia, baixa acentuada dos níveis de glicose no sangue, que acontece quando a quantidade de insulina se torna excessiva para os padrões de dieta e atividade física do paciente. ‘‘Como os sintomas são mais visíveis – tremor, sudorese, dor de cabeça, fome e em crianças menores, até convulsões – a hipoglicemia costuma afligir mais a família que a hiperglicemia’’, diz ela, frisando que se esta última não for controlada traz seríssimas consequências no futuro, como perda de visão, problemas neurológicos, além da insuficiência renal crônica.
‘‘O tratamento visa diminuir as complicações agudas, evitando internações frequentes e, sobretudo, as complicações crônicas’’, explica Rosângela. Segundo ela, atualmente estão em estudos formas de melhorar a qualidade de vida dos diabéticos, como a insulina inalada, que evitaria as picadas de agulha. A cura ainda não é vislumbrada, mas pesquisas apontam para o transplante de ilhotas pancreáticas (células que produzem insulina). O desafio é conseguir uma droga imunosupressora com menos efeitos colaterais. Atualmente, esse tipo de transplante é realizado somente quando há também a necessidade de transplante de rim. •

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