Já faz bastante tempo que os jogos de computador, e também aqueles jogados em rede, se tornaram mania mundial com opções para todos os gostos. Jogos como Counter Strike, Half Life, War Kraft, Parasite Evil e The Sims são alguns exemplos de sucesso nas telinhas. A mais recente febre se chama Second Life (segunda vida em português) e faz no computador exatamente o que o nome diz: permite ao usuário criar uma segunda vida e vivê-la da maneira que bem entender.
As regras do jogo são simples: cada participante cria o seu personagem, chamado de avatar (encarnação, em hindu), e passa a viver dentro da tela uma rotina parecida ou completamente diferente da real, dependendo do desejo do jogador. Os personagens geralmente são altos, magros, jovens e bonitos, mas é possível encontrar pessoas com formas de tubarão ou urso. Os espaços do jogo são divididos em ilhas. Cada país tem sua ilha e existem lugares próprios para os avatares iniciantes aprenderem a falar, andar e melhorar sua aparência.
O Second Life (SL para os íntimos) mistura jogo (embora não haja objetivo de ganho algum) e site de relacionamento (a comunicação se dá por mensagens escritas e pode ser feita em grupos) em um mundo virtual, em três dimensões, onde é possível se fazer de tudo, como namorar, casar, fazer sexo, ter filhos, comprar casas e carros maravilhosos e até usar drogas.
Moeda própria- Até aí nada demais, não fosse o fato de que para se viver a vida virtual é necessário muitas vezes desembolsar dinheiro real. ''Dá para participar sem gastar nada porque algumas coisas são de graça. Mas para ter roupas mais bacanas, penteados, casa, carro, tem de pagar'', explica a estudante de relações-públicas da UEL Fabiana Regina Simões, 19 anos, que participou da equipe que fez um trabalho sobre o SL.
A boa notícia é que a vida no SL tem baixo custo. A moeda virtual é o linden e cada dólar americano pode comprar cerca de 270 lindens. A cobrança é feita via cartão de crédito pela empresa controladora do jogo, a Linden Lab, criada pelo americano Philip Rosedale, em 2003. Além de vender os lindens, a empresa também comercializa terrenos virtuais e cobra taxas sobre operações de câmbio e mensalidades dos usuários que queiram ter alguns privilégios.
Também existe a possibilidade de ganhar dinheiro trabalhando no jogo, mas o tempo lá é exatamente igual ao real, e trabalhar requer que o usuário tenha várias horas do dia livres. ''Descobri uma ilha que pagava para quem ficasse dançando dentro de uma festa. O problema é que tinha que dançar por vários minutos para ganhar dez lindens, que não é muita coisa'', conta o estudante Carlos Affonso, 21 anos, que participou do trabalho.
Para se ter uma idéia, a papelada de um casamento custa 30 lindens e um terreno sai por cerca de 500. ''Atualmente, a Linden Lab movimenta US$ 10 milhões por mês no Second Life'', afirma Lucas Crivelari Fortes, 19 anos, também da equipe da UEL. Mas não só a Linden Lab está ganhando dinheiro com a vida de mentirinha. Empresas e pessoas físicas têm se interessado pela economia virtual. ''Acredito que uma pessoa pode vir a ganhar muito dinheiro com transações comerciais no SL'', garante.
Milionária- Lucas lembra que um bom exemplo de sucesso no SL é a chinesa radicada na Alemanha Ailin Graef, que já faturou 1 milhão de dólares de verdade, construindo e vendendo casas virtuais. ''As pessoas querem ter uma casa legal mas não sabem como construir. Ela começou fazendo construções em casa e agora já tem um escritório com programadores trabalhando para ela'', afirma.
No Brasil, que já ocupa a 4 posição no ranking mundial do jogo, a conversão de lindens para dólares por meio do cartão de crédito nacional ainda não é possível. Mas as transações financeiras no SL podem ser feitas usando o sistema de depósito em conta-corrente ou boleto bancário.
Para as empresas, o SL funciona como uma boa vitrine para novos produtos e serviços. ''Hoje, existem cerca de 7 milhões de pessoas no Second Life, sendo que 200 mil são brasileiros. Empresas como IBM, Volkswagen, General Motors, TAM, Adidas e Reuters têm espaços no jogo. A visibilidade é muito grande se comparada ao custo'', diz o professor de informática da Unopar Alexandre Rômolo Moreira Feitosa, que trabalha com pesquisa de jogos em computador.
Vício- ''Fiquei sabendo que o jornal O Estado de São Paulo estava buscando um jornalista para trabalhar dentro do SL. A agência Reuters já divulga diariamente notícias sobre o jogo e a Sundown estava oferecendo um test drive de uma nova moto. É uma maneira de se fazer uma pesquisa de opinião com o público, além de propaganda'', completa o estudante Carlos Affonso.
Mas tanta oferta de compra e de negócios baratos pode apresentar um risco para os jogadores. Carlos afirma que procura se controlar nas horas que passa em frente ao computador. ''Tenho medo de ficar viciado. O jogo é muito colorido, interativo. Isso atrai as pessoas. Principalmente para trabalho e contatos profissionais, acho o SL muito interessante. Mas é preciso ter dinheiro para o jogo ficar mais interessante. Aí o hobby pode se tornar um problema'', diz.
''Acho o jogo viciante porque as coisas são muito baratas e dá para fazer de tudo lá dentro. No começo, fiquei bastante empolgada, mas como meu computador não é dos melhores, acabei cansando de jogar'', conta a estudante Fabiana Simões. ''Como o Second Life é um jogo em três dimensões, a pessoa precisa de uma placa de vídeo muito boa e um computador com memória potente e internet de banda larga. Isso tudo é caro, cerca de R$ 3 mil em máquinas'', garante o programador Conrado Grossi.
É, parece que o dinheiro de verdade ainda é fundamental para ter sucesso e popularidade, mesmo que o jogo seja apenas virtual.

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