Eles são absolutamente importantes para a saúde reprodutiva do homem, mas ainda são lembrados somente quando começam as dificuldades para ter filhos ou outros problemas. Enquanto as mulheres dão bastante atenção a sua saúde reprodutiva, os homens ainda parecem não ter os cuidados devidos com seus testículos, órgãos em que são produzidos os espermatozóides.
''O testículo é um órgão relegado. O paciente só procura o médico quando já está com a doença avançada. Ele já chega sem espermatozóides. O homem ainda acha que é o todo-poderoso'', diz o urologista Jorge Hallak, médico-assistente da Divisão de Clínica Urológica do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Na opinião de Hallak, o entendimento errôneo de que a infertilidade é problema da mulher deixou o homem desatento. Os problemas para ter filhos atingem até 20% dos casais. Nos Estados Unidos, quase 5 milhões de casais têm dificuldades para conseguir a gravidez. Não há dados de comparação no Brasil. A responsabilidade pela infertilidade é dividida igualmente: em 50% dos casos, tem relação com fatores masculinos e, em 50%, com fatores femininos.
Drible As técnicas de reprodução assistida avançam a cada dia, ''driblando'' os problemas de quem não consegue ter filhos, mas um simples exame dos testículos nos primeiros anos da infância pode evitar as dificuldades e os altos custos desses tratamentos no futuro.
De acordo com o chefe do setor de Reprodução Humana da Unifesp Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Agnaldo Pereira Cedenho, o ideal é que os meninos sejam avaliados nos primeiros anos da infância pelo pediatra. Caso exista algum problema, os pais devem levar a criança a um urologista. Na entrada da puberdade, aos 12 ou 13 anos de idade, todos os meninos devem fazer uma avaliação nesse especialista. A consulta deve ser repetida aos 16 anos e depois pelo menos de dois em dois anos.
As principais doenças que afetam os testículos também podem ser detectadas precocemente por meio de uma auto-avaliação. Além do próprio homem, namoradas, mulheres e companheiras podem também fazer a avaliação.
Os pais e mães também podem realizar o exame nos filhos ainda nos primeiros anos da infância. A observação e apalpação dos testículos pode revelar problemas como a falta de um dos órgãos, que pode ser causada pela criptorquia (testículos que nascem fora do lugar), a diminuição de volume, que pode indicar atrofia causada por trauma ou doenças como a caxumba, infecções, que causam dor, e caroços, que podem ser indicadores de câncer.
Câncer A maior parte das doenças pode ser tratada por cirurgia. O câncer de testículo é o de maior incidência entre homens de 15 a 40 anos e afeta 0,005% da população, segundo estudos feitos fora do país. Em homens com problemas para ter filhos, a incidência aumenta 100 vezes, alcançando 0,5%.
Os tratamentos contra o câncer, como quimioterapia, podem acabar com a produção de espermatozóides. Assim, é recomendável que o homem que ainda tem capacidade reprodutiva congele sêmen para poder tentar ter filhos.
Nos casos de criptorquia, o homem tem dificuldades para produzir espermatozóides porque o testículo, que deveria ficar ''arejado'' na bolsa escrotal, sofre com a temperatura mais alta de outras partes do corpo.
A varicocele (varizes no escroto, bolsa que ''segura'' os testículos), causa principal de infertilidade masculina, também traz aumento de temperatura, prejudicando o trabalho dos órgãos.
Já a hidrocele (acúmulo de água no escroto) traz risco de torções que podem danificar a irrigação sanguínea dos testículos e comprometê-los para sempre.
As infecções, frequentemente associadas ao sexo anal sem camisinha, podem lesar os túbulos seminíferos dos testículos, que produzem espermatozóides. Outras 30 síndromes têm ação sobre os testículos, daí a necessidade da consulta médica.
Para Hallak, antes de o homem buscar as caras técnicas de reprodução assistida, deve verificar se sua infertilidade não é causada por uma doença simples que pode ser tratada com cirurgia ou remédios. ''As técnicas de reprodução assistida são a última opção.''
Incidência alta O centro de Reprodução Assistida da Unifesp está acompanhando 300 adolescentes na capital paulista há dois anos e já detectou um fato preocupante: uma incidência muito alta, de 27%, de casos de varicocele (varizes no escroto), enquanto na população masculina em geral a incidência hoje é de no máximo 20%. De acordo com o chefe do centro, Aguinaldo Pereira Cedenho, todos os adolescentes nem desconfiavam que tinham o problema, a mais comum causa de infertilidade no homem. A intenção dos pesquisadores é acompanhar os meninos por pelo menos cinco anos. A doença raramente traz dores, daí a necessidade de auto-exames e consultas médicas desde a adolescência.
A doença abala o mecanismo termo-regulador dos testículos. O pico de seu aparecimento ocorre entre os 14 e 15 anos de idade. Na varicocele, a partir da puberdade, o fluxo de sangue venoso dos testículos para a veia renal fica prejudicado por causa do aumento da massa muscular no abdome. Há refluxo de sangue venoso, formação de varizes e aumento da temperatura dos testículos, prejudicando os órgãos.

mockup