O jornalista Lauro Machado Coelho já estava saindo de casa, em Belo Horizonte, rumo à Aliança Francesa, onde dava aulas, quando sua mãe lhe pediu para colocar o lixo na rua. Distraidamente, Lauro saiu com o lixo na mão, pegou um táxi e só na hora de entrar na sala de aula lembrou de se livrar da incômoda mercadoria. ‘‘No meu caso, parece que a distração é congênita’’, admite o jornalista, que hoje trabalha em São Paulo. ‘‘Pior foi quando peguei carona com uma amiga. Na hora de descer do carro, tirei a carteira do bolso e perguntei quanto era a corrida...’’
Ele também se viu numa situação constrangedora quando foi assistir a um concerto no Anhembi com sua amiga, Míriam Marques, bióloga da USP. ‘‘Fomos no carro da Míriam’’, conta Lauro. ‘‘Quando o concerto terminou, ela não se lembrava do lugar onde havia deixado o carro, e eu muito menos. Tivemos de esperar durante um bom tempo, até que o estacionamento esvaziasse completamente’’. Por conta de suas famosas distrações, Lauro também tingiu de azul-piscina boa parte de uma camisa branca, ao colocar uma caneta-tinteiro destampada no bolso.
Com um currículo tão respeitável, Lauro Coelho tem tudo para entrar no clube das pessoas que, segundo os especialistas, reúnem os sintomas da síndrome do Distúrbio de Déficit de Atenção (DDA). Com uma vantagem em relação às outras profissões: os jornalistas são tidos como campeões de distração, e os fatos comprovam isso.
Outro jornalista, Marcelo Barros, da Agência Estado, assistia ao filme ‘‘Ases Indomáveis’’, em seu apartamento, meses antes da adoção do Plano Real, quando os reajustes de combustíveis pegavam os brasileiros de surpresa. De repente, o filme foi interrompido pelo ‘‘Plantão da Globo’’, que anunciou os novos preços da gasolina e do álcool. Marcelo saltou da poltrona e foi encher o tanque do seu Gol cinza no posto mais próximo. Já passava das 23h30. Ele estranhou a falta das costumeiras filas e da confusão que fatalmente acontecia nesses dias.
Quando falou do reajuste, o frentista ficou surpreso e chamou o gerente. Marcelo confirmou que acabara de ouvir a notícia na tevê. O gerente ligou para o sindicato, que por sua vez acionou suas fontes. Nada. Mas tinha dado na Globo, isto Marcelo garante que ouviu. Satisfeito por ter sido um dos primeiros a saber do reajuste, voltou para casa com o tanque cheio e só então lembrou que estava assistindo a um filme gravado meses atrás no videocassete.
O jornalista Sérgio Rondino, hoje na Rede Bandeirantes, já foi trabalhar em dia de folga, nos seus tempos de Jornal da Tarde - e folgou em dia de trabalho. O diretor de Redação do JT, Fernando Lima Mitre, já mandou buscar em sua casa o carro que ele mesmo havia conduzido até o estacionamento do jornal. Ainda no Jornal da Tarde, outro editor, Woyle Guimarães, esbravejou com um repórter que escrevera que um certo jogador tinha deixado o campo com ‘‘ameaça de fratura’’. O certo era suspeita de fratura, ensinou Woyle, e corrigiu o texto. No dia seguinte, o jornal saiu com a informação de que o jogador saíra do campo com ‘‘suspeita de ameaça’’.
O mesmo editor preparava-se para dar título a uma reportagem sobre um jogo em que o goleiro Valdir Peres salvou o São Paulo da derrota, quando passou por ele o colega Valdir Sanches. Depois do rápido cumprimento, Woyle completou a matéria com o título: ‘‘O São Paulo deve este empate a Valdir Sanches’’. Depois disso, Woyle passou a ser o profissional mais atento do planeta.
E o repórter Plínio Vicente, de ‘‘O Estado’’, divertiu-se muito com as insistentes chamadas dirigidas a um certo ‘‘sr. Silva’’, no aeroporto de Lisboa. Na quarta ou quinta vez, o serviço de som do aeroporto anunciou que o ‘‘sr. Silva’’ corria o risco de perder o vôo se não comparecesse ao balcão de uma companhia aérea. ‘‘O senhor Silva vai dançar’’, comentou Plínio com um amigo, às gargalhadas, até sentir um frio na espinha. Adivinhem quem quase perdeu o vôo: o sr. Plínio Vicente da Silva...
Os artistas também têm histórias curiosas. O músico Gutemberg Guarabyra, por exemplo, saiu de casa no dia em que havia se mudado para o Rio e, na hora de voltar, não lembrava qual era o endereço. Passou mais de quatro horas perambulando, até conseguir se guiar por alguns prédios familiares. Rindo muito, Guarabyra lembra o caso do cineasta Antônio Carlos Fontoura, que estava num carro dirigido por Chico Buarque de Hollanda - este acompanhado de Marieta Severo. Fontoura aproveitou a parada num sinal de trânsito para descer e, com a afobação, tascou um beijo no Chico e deu um tapão nas costas da Marieta.
E que dizer do ‘‘mutante’’ Arnaldo, que em inúmeros shows acompanhou Rita Lee cantando ‘‘Ando Meio Desligado’’? Pois ele se desligou tanto, em Paris, que acabou esquecendo três mil dólares no hotel onde se hospedou. Mas, se algum dia você também passar por situações desse tipo, não se apavore. Melhor mesmo é seguir o conselho da doutora Rita: ‘‘Andar desligado é bom/é como andar sem lenço e sem documento...’’

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