Henna que não é henna
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Enfeitar o corpo é um hábito comum ao homem desde os primórdios da humanidade. Maquiagens e adereços como brincos, colares e roupas foram usados pelas pessoas em todas as sociedades para se destacar e enfeitar. No Egito antigo, os faraós usavam perucas coloridas e maquiavam os olhos para se diferenciar das pessoas comuns.
A mais nova mania entre a população ocidental, principalmente em crianças e adolescentes, é a tatuagem de henna. Mas o uso dessa técnica de maquiagem vem de muito tempo atrás. Historiadores acreditam que pessoas de regiões onde hoje estão países como Marrocos, Turquia, Índia, Nepal e Tibete usavam a henna para colorir o corpo há cinco mil anos. Muito mais do que a questão estética, eles acreditavam que a pintura afastava os maus espíritos e trazia paz. Apesar de ser uma técnica de pintura tão antiga, as tatuagens feitas hoje com henna vêm trazendo muita dor de cabeça para algumas pessoas.
Mistura perigosa De acordo com o dermatologista Airton dos Santos Gon, durante a época de férias de verão é comum aparecerem pessoas nos consultórios com irritações na pele provocadas pelos desenhos feitos com henna. ''O número não é muito grande. Atendemos uma média de três ou quatro pessoas por temporada. Mas como muitas fazem essas tatuagens na praia, talvez os problemas devam ser resolvidos com médicos do litoral mesmo'', afirma. O especialista diz que o problema está no material usado nos desenhos. ''A henna verdadeira não causa irritação. Mas estudos feitos com amostras de produtos usados pelos tatuadores mostraram uma mistura da substância parafenilenodiamina (PPD), que pode provocar reações adversas em algumas pessoas'', garante.
O uso do PPD acontece para que a cor da henna seja modificada. O tatuador Cicciolina, que trabalhou durante anos com henna e hoje abandonou a técnica por causa das reclamações dos clientes, diz que as pessoas não gostam da cor natural da henna. ''A henna deixa a pele com um tom marrom avermelhado, e o pessoal quer que a tatuagem fique preta. Para chegar nessa cor, só com mistura'', afirma. Ele garante que, além do PPD, é possível encontrar misturas ainda mais perigosas. ''Tem gente que mistura chumbo na henna para que fique preta. Hoje no Brasil é impossível encontrar henna pura para comprar'', comenta.
Mas nem só de henna, pura ou misturada, são feitas as marcas temporárias. O tatuador Jorginho afirma que muitos profissionais utilizam outros produtos para fazer os desenhos na pele. Um dos mais comuns é a mistura de Bigem e Tablete Santo Antônio, produtos utilizados para tingir cabelos. ''A vantagem é que são produtos baratos. Principalmente na praia, onde o negócio é fazer dinheiro rápido, são muito usados'', observa. Ele diz que utiliza esses produtos e a henna há seis anos e nunca teve nenhuma reclamação. ''É importante que a pele esteja bem limpa antes de aplicar o produto e que a pessoa não se exponha ao sol duas horas depois de fazer o desenho. Fazer um teste de contato antes também evita problemas. É só pingar um pouco do produto atrás da orelha e esperar cerca de meia hora para ver se não há reação'', ensina.
Teste inseguro O dermatologista Airton Gon alerta que os testes não garantem segurança. Isso porque a pele não reage alergicamente ao primeiro contato com certas substâncias. ''Na primeira vez que se entra em contato com uma substância, o organismo não possui anticorpos contra ela ainda, por isso nem sempre aparece alguma reação. Só em um segundo contato é que o corpo tem como se defender e a alergia vai aparecer. Os testes servem mais para, em caso de alergia, confirmar a substância causadora'', explica.
Esse é o maior problema de se fazer esse tipo de desenho em crianças, garante Gon. Estudos mostram que a concentração de substâncias tóxicas na henna é bastante alta para o peso dos pequenos. O especialista afirma que um contato precoce com taxas altas de PPD ou outro material que possa provocar alergia causa reações mais sérias em crianças. ''Alguns testes mostraram uma quantia de até 15% de PPD na henna usada para desenhar sobre a pele. É um índice muito alto para alguém que pesa 30 quilos, por exemplo'', comenta. Os resultados podem ser vermelhidão da pele, coceiras e até surgimento de bolhas e cicatrizes.
Foi o que aconteceu com a pequena Júlia Pretto, 6 anos. Durante as férias de verão passadas na praia com a família, a menina convenceu a mãe, Cláudia, a deixá-la fazer um desenho no braço com henna. ''Ela sempre quis fazer e eu nunca deixava, dessa vez resolvi aceitar e até fiz uma também'', conta a mãe. Os problemas surgiram cerca de uma semana depois. Júlia começou a reclamar de coceira e a mãe percebeu que um quelóide havia se formado no lugar do desenho. Depois de procurar o dermatologista Airton Gon, Júlia foi diagnosticada como portadora de uma reação alérgica ao produto usado na tatuagem e teve usar durante um mês uma pomada para reverter o processo. Nunca mais poderá entrar em contato com a substância usada pelo tatuador. Mais de um mês depois, o braço da menina continua com a marca do desenho, que o médico acredita que irá sumir com o tempo. ''Mas ela ainda reclama de coceira no braço e se arrependeu de ter feito a tatuagem'', diz a mãe.n


