Guia para não amarelar
ReproduçãoO tímido patológico vive morrendo de vergonha do mundo, encontrando mil desculpas para não enfrentar seus fantasmasGuia para
não amarelar
Francelino França
Os tímidos conseguem mais de mil justificativas para se isolar do restante das pessoas. O mundo ideal para eles é um local onde se sintam seguros, onde possam se camuflar, sem correr o risco de ser desaprovados. Pequenos hábitos como não comer diante de outras pessoas ou não usar banheiros públicos podem se transformar em verdadeiras fobias sociais. Alguns medos estão relacionados simplesmente a uma inabilidade específica, como não saber como começar uma conversa ou como convidar alguém para sair.
Os especialistas no assunto consideram que o medo de falar em público é dez vezes mais comum do que os outros tipos de fobias. Esse fenômeno da vida moderna se origina no medo da desaprovação. Um conjunto de causas é responsável por gerar essa insegurança, que congela o indivíduo e o impede de ter uma vida socialmente saudável. Os psicólogos Barbara Markway, Cheryl Carmin, Alec Pollard e Teresa Flynn, que atuam nos Estados Unidos, lançaram no Brasil o livro Morrendo de Vergonha - Um guia para tímidos e ansiosos. Resumidamente, o livro é um programa para enfrentar as fobias sociais dentro do conceito da reprogramação neurolinguística.
Os autores enumeram fatores biológicos e ambientais como as principais causas que levam à fobia social. Eles afirmam que muitas pessoas são mais sensíveis do que outras em relação à desaprovação, outras sofrem de irregularidades bioquímicas e muitas possuem predisposição genética. Os autores exemplificam que num estudo publicado em 1979, o médico Svenn Torgerson descobriu maior incidência de medos sociais entre gêmeos idênticos do que entre os fraternos. Os idênticos possuem os mesmos genes.
É possível que alguns aspectos da fobia social possam ser herdados, afirmam os autores. O sistema de alarme biológico dos seres humanos possui uma sintonia fina para responder ameaças, incluindo a ameaça de desaprovação. A bioquímica, os genes e a sensibilidade inatas podem se combinar para aumentar as chances de que uma fobia social se desenvolva. Isso não significa que seja um resultado predeterminado.
Distorções Outro aspecto ressaltado pelos psicólogos é que uma única experiência social negativa pode armar a bomba da ansiedade social futura. As fobias também podem ser aprendidas, acreditam os autores, pelo menos em parte, ao se observar e imitar o comportamento dos outros.
Em Morrendo de Vergonha, dois tipos de distorções que levam à timidez extremada são citados. A distorção de probabilidade, quando o tímido prevê exageradamente que algo ruim pode acontecer. Já a distorção de severidade acontece quando se exagera a gravidade das consequências, caso algo ruim realmente aconteça.
A timidez aguda faz com que a vítima procure evitar situações sociais que levem à fobia. Não ter uma vida social, em função do medo de sair com alguém do sexo oposto, é um típico caso de medo de desaprovação. Evitar essas situações sociais pode deixar a pessoa supostamente protegida, mas também menos confiante e mais ansiosa. Sem condições de enfrentar o mundo, ela se preocupa exageradamente, se remoendo a respeito de um perigo que pode não acontecer.
Para superar a fobia social, os autores recomendam, primeiramente, estabelecer uma meta. O que quero realizar?, deve-se perguntar o tímido para fugir da roubada. Se ele pretende tomar coragem para frequentar festas e reuniões sociais, deve estabelecer como meta ser mais expansivo. Uma dica: é prejudicial esperar um padrão de desempenho muito elevado. Se o medo de se relacionar com outras pessoas é muito intenso, o gelo é quebrado aos poucos. O objetivo, no caso, é saber quando a meta foi realizada.
Outro questionamento importante para superar esse problema, sugerido no livro, é por que eu deveria mudar as minhas reações à desaprovação?. Algumas pessoas cristalizam determinadas crenças, que dificilmente conseguem se dar conta que as carregam e, portanto, desconhecem que podem se livrar delas. Se os outros me desaprovarem, não serei capaz de suportar, eis uma das crenças não-realistas reinantes no inconsciente dos tímidos.
Metas inatingíveis No livro Morrendo de Vergonha, os autores apontam que o perfeccionismo é um problema comum nas pessoas com fobia social. O perfeccionista procura definir metas inatingíveis. Outro fator que leva ao medo da desaprovação, é a incapacidade de lidar com a rejeição. A pessoa acredita que precisa ser amada e aprovada por todos. Se você julgar a si mesmo pelo que as outras pessoas pensam, sempre perderá, alertam os autores.
Outra dica para amenizar a situação dos tímidos recorre à reprogramação neurolinguística. São afirmações de convivência do tipo a maioria das pessoas aceitará que eu gagueje em algumas palavras, quando estiver dando uma palestra. Posso conviver com a desaprovação. Não é tão ruim assim.
Os psicólogos consideram que cultivar algumas poucas amizades íntimas é o que torna a vida gratificante, e não a adulação das massas. Até mesmo as pessoas mais populares, brilhantes e efusivas, às vezes são rejeitadas. Os problemas surgem quando as pessoas dão importância excessiva às rejeições inevitáveis.
Para que ocorram mudanças substanciais, é preciso se pôr à prova com a técnica denominada de exposição, simplesmente um processo para encarar os medos. A primeira sugestão pode ser a de uma exposição imaginária, uma premiere do que pode acontecer ao vivo.
Uma pessoa interessada em cumprir as metas propostas pelos psicólogos americanos, e que queira realmente enfrentar uma exposição desafiadora, pode ser acometida por pensamentos distorcidos. Eis alguns exemplos desses pensamentos: Por que fui correr um risco desses? E se as mulheres não me acharem atraente? Eu serei sempre um solitário. Uma resposta saudável a esse devaneio desencorajador, segundo o livro, seria: Nunca vou superar os meus medos se eu não correr riscos. Fugir disto fez com que eu me tornasse solitário.
Serviço:
Morrendo de Vergonha - Um guia para tímidos e ansiosos, de Barbara Markway, Cheryl Carmin, Alec Pollard e Teresa Flynn; Summus Editorial, R$ 26,00.





