Cena 1: duas crianças brincam de luta. De repente, uma delas se empolga e acaba batendo mais forte na outra, que sai chorando e, com raiva, quebra um brinquedo da primeira, que também chora. Cena 2: uma criança assiste à televisão, outra chega e insiste em mudar de canal. As duas brigam pelo controle remoto, que acaba caindo no chão e quebrando. Começa então a discussão para apontar o culpado. Quem tem dois ou mais filhos passa por situações parecidas com essas quase que diariamente. Mas as brigas entre irmãos não são, na maioria das vezes, motivo para os pais se preocuparem.
Segundo o psicanalista clínico Aílton Bastos, as brigas são atividades necessárias ao desenvolvimento das crianças e não demonstram problemas de caráter ou falta de sentimentos. ''Elas agem dessa maneira basicamente para disputar espaço e por ciúmes, principalmente dos pais. Tanto que quando os adultos não estão por perto os filhos se unem'', garante. O que muitas vezes os pais desconhecem é como evitar que irmãos se tornem verdadeiros inimigos. ''As crianças, geralmente as mais novas, acreditam que tudo deve ser em função delas. Os pais não sabem preparar os filhos mais velhos para a chegada dos mais novos, para a atividade de dividir atenção e objetos'', explica.
Perdendo o reinado O primeiro erro acontece logo que a gravidez é descoberta, com comentários do tipo 'agora, com outro neném, você vai acabar perdendo o trono da casa' ou 'você vai ter que dar seu quarto para seu irmãozinho, que é menor e tem preferência'. Para o especialista, é difícil para uma criança não se sentir ameaçada com tantas mudanças. ''Mesmo para os adultos a chegada de outra pessoa é uma situação desconfortante. Imagine se um marido chegasse em casa e dissesse para a esposa que vai trazer outra mulher para morar com a família, sua mãe ou irmã, e que ela terá que dividir suas coisas e tarefas. Mesmo que ele afirme que continua amando-a, como os pais fazem com os filhos, a aceitação não é fácil. A gente se sente preterido'', comenta.
Outra atitude que atrapalha a chegada do novo membro da família é a idéia de que é melhor que o filho mais velho fique fora de casa depois da chegada do bebê. ''Muitos pais resolvem colocar a criança mais velha na escola para ter tempo de cuidar do mais novo. Ou mandá-la para a casa dos avós nos primeiros dias depois que o caçula chega. Isso dá a sensação de que o mais velho está atrapalhando, que não é mais querido em casa'', afirma. O correto, ensina Bastos, é fazer as mudanças necessárias antes de o irmão nascer. ''E ressaltar sempre o lado positivo das atividades novas. Se colocar o filho na escola, por exemplo, diga que ele já é grande e esperto o suficiente para aprender coisas novas e fazer amigos. Não relacione a mudança ao irmão'', aconselha.
Proteção perigosa Mas nem só os filhos maiores sentem ciúmes dos pequenos. O contrário também acontece depois de um certo tempo. Bastos explica que os mais novos se sentem inferiorizados pelos privilégios e capacidades destinados apenas aos irmãos mais velhos. ''Ir a lugares sozinho, fazer cursos e outras atividades típicas de algumas faixas etárias podem criar uma competitividade entre irmãos. Os pais precisam esclarecer que o menor também poderá fazê-las quando chegar a hora certa e não permitir que os mais velhos usem suas vantagens sobre os pequenos para humilhá-los'', diz.
Para evitar esses problemas, é fundamental tentar criar os filhos da mesma forma. O psicanalista afirma que muitos pais confundem as idades e não usam os mesmos parâmetros para todos os filhos. ''Se na família tem um filho de 12 e outro de 9 anos, por exemplo, eles vão sempre dizer para o mais velho que ele já é grande com essa idade. O tempo passa e aí é a vez do menor chegar aos 12, enquanto o mais velho está com 15, e o discurso continua o mesmo: ele deve dar preferência para o irmão mais velho. Mas, como isso é possível se ele já era grande quando tinha 12 anos? Os pais fazem isso porque tentam proteger o menor, o que é perigoso. Provavelmente a criança vai se sentir injustiçada'', observa.
Determinando regras Outra boa dica para não se perder em meio a gritos e choros é estabelecer regras antes que os problemas surjam. Se as crianças forem avisadas que, se houver alguma discussão ou briga física, todos serão punidos com um castigo qualquer, a punição não será injusta para ninguém. ''Os filhos precisam das brigas para aprender a se defender. Nessa hora, os pais devem ensinar que eles não precisam bater para isso, que dá para conversar. As brigas físicas devem sempre ser reprimidas'', garante. Se prevenir nas situações tipicamente tensas também ajuda. ''Todo irmão briga para saber quem vai sentar no banco da frente do carro, por exemplo. Respeitando o que determina a lei, os pais podem estabelecer um rodízio entre os filhos'', aconselha.
E o mais importante, segundo o psicanalista: nunca comparar os irmãos. Ele diz que o ideal é que os pais procurem as qualidades de cada filho e estimulem o crescimento, respeitando o limite de cada idade. ''A criança deve ser comparada apenas com ela mesma se ela está ou fez algo melhor do que antes, e não melhor do que o colega ou o irmão, pois isso diminui a auto-estima e aumenta a competitividade'', afirma.
Bastos garante que as brigas acabam conforme os filhos vão crescendo e amadurecendo. ''É claro que existem irmãos que serão eternos rivais, talvez por alguma coisa do passado que não foi bem resolvida. O que deve preocupar é como as crianças resolvem as brigas, se estão sendo criadas grandes mágoas ou se um dos irmãos está sofrendo demais com elas. Nesses casos é bom procurar um profissional'', aconselha. n

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