Deu cur­to-cir­cui­to no re­ló­gio bio­ló­gi­co das bra­si­lei­ras. O tal ins­tin­to ma­ter­no, que cos­tu­ma­va api­tar com a pro­xi­mi­da­de dos 35 ­anos, vem per­den­do a ho­ra. Se­gun­do da­dos do Ins­ti­tu­to Bra­si­lei­ro de Geo­gra­fia e Es­ta­tís­ti­ca (IB­GE), o nú­me­ro de mu­lhe­res que en­gra­vi­da­ram pe­la pri­mei­ra vez ­após os 40 cres­ceu 27% em dez ­anos.
  Co­mo con­se­quên­cia a de­man­da por tra­ta­men­tos de fer­ti­li­za­ção ar­ti­fi­cial do­brou na Amé­ri­ca La­ti­na. Em 1992, a re­de la­ti­no-ame­ri­ca­na de re­pro­du­ção as­sis­ti­da re­gis­tra­va 10 mil aten­di­men­tos. Ho­je, são 22 mil. Afi­nal, quan­to ­mais ve­lha é a mãe, ­mais aju­da ela ne­ces­si­ta pa­ra con­se­guir en­gra­vi­dar. ‘‘Até os 35, a mu­lher tem en­tre 18% e 25% de chan­ces ao mês de en­gra­vi­dar na­tu­ral­men­te. ­Após 40, o ín­di­ce cai pe­la ­metade’’, diz o mé­di­co Dir­ceu Men­des Pe­rei­ra, es­pe­cia­lis­ta em me­di­ci­na re­pro­du­ti­va.
  Em 1995, He­le­na Be­vi­lac­qua de­ci­diu de­sa­fiar os pra­zos im­pos­tos pe­la na­tu­re­za pa­ra dar um fi­lho ao se­gun­do ma­ri­do. Aos 48 ­anos, pro­cu­rou a aju­da do mé­di­co e en­gra­vi­dou de Ma­ria­na, ago­ra com 14 ­anos. ‘‘Pa­rei de tra­ba­lhar pa­ra ter o be­bê. ­Após 22 ­anos de car­rei­ra, ti­nha se­gu­ran­ça pa­ra fa­zer is­so.’’
  No ra­mo de re­pro­du­ção hu­ma­na há ­mais de 30 ­anos, Dir­ceu Pe­rei­ra diz que op­ções co­mo a de He­le­na de­no­tam mu­dan­ças no com­por­ta­men­to fe­mi­ni­no. ‘‘A mu­lher ­quer in­ves­tir na car­rei­ra, ter uma boa si­tua­ção fi­nan­cei­ra. O pro­je­to ca­sa­men­to e fi­lhos fi­cou pa­ra se­gun­do ­plano’’, ava­lia.
  Se­gun­do ele, en­tre 40% e 50% das pa­cien­tes têm ­mais de 37 ­anos e com pas­sar do tem­po, os ris­cos de doen­ça au­men­tam mui­to pa­ra o be­bê.
  En­quan­to al­gu­mas mu­lhe­res ­adiam a de­ci­são de vi­rar ­mães o quan­to a bio­lo­gia per­mi­tir, ou­tras es­tão con­ven­ci­das de que rea­li­za­ção pes­soal não de­pen­de de fi­lhos. ‘‘Cer­ca de 20% dos ca­sais que aten­do não que­rem ­filhos’’, ga­ran­te o mé­di­co Lau­de­li­no de Oli­vei­ra Ra­mos, pro­fes­sor as­so­cia­do de Gi­ne­co­lo­gia da Fa­cul­da­de de Me­di­ci­na da Uni­ver­si­da­de de São Pau­lo (USP). ‘‘An­ti­ga­men­te, che­ga­va a fa­zer o sex­to par­to da clien­te. Ho­je, se fa­ço o ter­cei­ro, di­go que foi aca­so.’’
  O nas­ci­men­to de ­Eric, ho­je com ­três ­anos, con­tra­ria as es­ta­tís­ti­cas. A mãe de­le, Már­cia Oku­mu­ra Jyo, en­gra­vi­dou na­tu­ral­men­te aos 42 ­anos. ‘‘Na mi­nha ida­de, já não es­ta­va nos pla­nos, mas o ­Eric me trou­xe luz e von­ta­de de vi­ver ­intensamente’’, der­re­te-se.

Con­fli­to de ge­ra­ções
  Ven­ci­do o obs­tá­cu­lo da ida­de avan­ça­da, a ma­mãe ma­du­ra tem ain­da de li­dar com um ine­vi­tá­vel con­fli­to de ge­ra­ções, co­mo acon­te­ce com He­le­na Be­vi­lac­qua, de 59 ­anos. Tra­di­cio­nal, ela edu­ca Ma­ria­na à mo­da an­ti­ga. ‘‘Nun­ca lar­go Ma­ria­na so­zi­nha em shop­pings ou fes­tas. Ela tem ho­rá­rio pa­ra tu­do e não fi­ca no com­pu­ta­dor até tar­de. ­Mães jo­vens são li­be­rais de­mais. É por is­so que as crian­ças de ho­je não res­pei­tam li­mi­tes.’’

Se­gu­ran­ça cus­ta ca­ro
  Tes­tes ca­pa­zes de de­tec­tar em­briões de­fi­cien­tes es­tão dis­po­ní­veis pa­ra a mu­lher que op­ta pe­la fer­ti­li­za­ção in vi­tro. Tra­ta-se do diag­nós­ti­co ge­né­ti­co pré-im­plan­ta­cio­nal, rea­li­za­do a par­tir do ter­cei­ro dia de vi­da do em­brião. ‘‘No Bra­sil, ava­lia­mos ­seis cro­mos­so­mos, mas na Eu­ro­pa exis­tem tes­tes pa­ra ­nove’’, diz o es­pe­cia­lis­ta Dir­ceu Men­des Pe­rei­ra. He­mo­fi­lia e sín­dro­me de ­Down es­tão en­tre as mo­lés­tias diag­nos­ti­cá­veis, mas é pre­ci­so ter di­nhei­ro: o tes­te po­de cus­tar até R$ 12 mil.


Avalie a situação antes de desafiar a natureza
Riscos - Não é lenda: o risco de doenças genéticas para o bebê aumenta, sim, quando a mulher engravida tardiamente. Aos 30 anos, a chance de gerar uma criança com síndrome de Down é de um bebê para cada 950. Com 40 anos, a relação é de um para 106 crianças, chegando a um para 14 aos 48 anos. Para a mãe, é maior a incidência de diabete e hipertensão. Os riscos de aborto dobram.
  A capacidade reprodutiva da mulher diminui com o passar do tempo, mas também está sujeita a fatores externos. Agrotóxicos, poluição e estresse ajudam a deteriorar as células reprodutivas.

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