Gravidez tardia é cada vez mais comum
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quinta-feira, 21 de maio de 2009
Giuliana Reginatto<br> Agência Estado 
Deu curto-circuito no relógio biológico das brasileiras. O tal instinto materno, que costumava apitar com a proximidade dos 35 anos, vem perdendo a hora. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de mulheres que engravidaram pela primeira vez após os 40 cresceu 27% em dez anos.
Como consequência a demanda por tratamentos de fertilização artificial dobrou na América Latina. Em 1992, a rede latino-americana de reprodução assistida registrava 10 mil atendimentos. Hoje, são 22 mil. Afinal, quanto mais velha é a mãe, mais ajuda ela necessita para conseguir engravidar. Até os 35, a mulher tem entre 18% e 25% de chances ao mês de engravidar naturalmente. Após 40, o índice cai pela metade, diz o médico Dirceu Mendes Pereira, especialista em medicina reprodutiva.
Em 1995, Helena Bevilacqua decidiu desafiar os prazos impostos pela natureza para dar um filho ao segundo marido. Aos 48 anos, procurou a ajuda do médico e engravidou de Mariana, agora com 14 anos. Parei de trabalhar para ter o bebê. Após 22 anos de carreira, tinha segurança para fazer isso.
No ramo de reprodução humana há mais de 30 anos, Dirceu Pereira diz que opções como a de Helena denotam mudanças no comportamento feminino. A mulher quer investir na carreira, ter uma boa situação financeira. O projeto casamento e filhos ficou para segundo plano, avalia.
Segundo ele, entre 40% e 50% das pacientes têm mais de 37 anos e com passar do tempo, os riscos de doença aumentam muito para o bebê.
Enquanto algumas mulheres adiam a decisão de virar mães o quanto a biologia permitir, outras estão convencidas de que realização pessoal não depende de filhos. Cerca de 20% dos casais que atendo não querem filhos, garante o médico Laudelino de Oliveira Ramos, professor associado de Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Antigamente, chegava a fazer o sexto parto da cliente. Hoje, se faço o terceiro, digo que foi acaso.
O nascimento de Eric, hoje com três anos, contraria as estatísticas. A mãe dele, Márcia Okumura Jyo, engravidou naturalmente aos 42 anos. Na minha idade, já não estava nos planos, mas o Eric me trouxe luz e vontade de viver intensamente, derrete-se.
Conflito de gerações
Vencido o obstáculo da idade avançada, a mamãe madura tem ainda de lidar com um inevitável conflito de gerações, como acontece com Helena Bevilacqua, de 59 anos. Tradicional, ela educa Mariana à moda antiga. Nunca largo Mariana sozinha em shoppings ou festas. Ela tem horário para tudo e não fica no computador até tarde. Mães jovens são liberais demais. É por isso que as crianças de hoje não respeitam limites.
Segurança custa caro
Testes capazes de detectar embriões deficientes estão disponíveis para a mulher que opta pela fertilização in vitro. Trata-se do diagnóstico genético pré-implantacional, realizado a partir do terceiro dia de vida do embrião. No Brasil, avaliamos seis cromossomos, mas na Europa existem testes para nove, diz o especialista Dirceu Mendes Pereira. Hemofilia e síndrome de Down estão entre as moléstias diagnosticáveis, mas é preciso ter dinheiro: o teste pode custar até R$ 12 mil.
Avalie a situação antes de desafiar a natureza
Riscos - Não é lenda: o risco de doenças genéticas para o bebê aumenta, sim, quando a mulher engravida tardiamente. Aos 30 anos, a chance de gerar uma criança com síndrome de Down é de um bebê para cada 950. Com 40 anos, a relação é de um para 106 crianças, chegando a um para 14 aos 48 anos. Para a mãe, é maior a incidência de diabete e hipertensão. Os riscos de aborto dobram.
A capacidade reprodutiva da mulher diminui com o passar do tempo, mas também está sujeita a fatores externos. Agrotóxicos, poluição e estresse ajudam a deteriorar as células reprodutivas.


