Comida na mesa, roupa lavada e uma boa economia no fim do mês explicam porque alguns jovens, já bem encaminhados na profissão, nem pensam em sair da casa dos pais
O momento de sair da casa dos pais é um ritual de passagem: marca a despedida da adolescência – ainda que tardia – e a entrada na vida adulta, cheia de responsabilidades, mas repleta de liberdade. E o que mais um jovem pode querer senão ser livre para chegar em casa na hora que quiser, não precisar dar satisfações à ninguém e ser dono do próprio nariz? Muitos deles – típicos representantes do que os sociólogos batizaram de ‘‘geração canguru’’ – não hesitariam em responder: conforto.
Comida na mesa, roupa lavada e uma boa economia no fim do mês, além da deliciosa paparicação dos pais, explicam porque jovens já na faixa dos 30 anos, formados e bem encaminhados na profissão, nem pensam em se livrar das garras da família e ter o próprio canto. Ainda que tenham condições financeiras para bancar a independência. É o caso da dentista Thaís Filomena de Oliveira Rosa, 35 anos. ‘‘Acho que me sentiria muito só se morasse sozinha’’, diz ela, que só passou pela experiência de morar longe dos pais na adolescência.
Com 17 anos, Thaís deixou Apucarana e veio para Londrina estudar. Morou em um pensionato e depois dividiu um apartamento com amigas. Foram mais de três anos experimentando o gostinho da liberdade que, pelo jeito, não era lá tão doce para fazê-la desistir da companhia familiar. Tanto que quando os pais se mudaram para a cidade, ela comemorou. ‘‘Achei bom porque tinha carro na mão e comida na mesa’’, justifica.
Se na época a experiência não a empolgou, hoje a possibilidade de trocar de casa é remota. ‘‘Para sair dessa vida boa, tem que compensar muito. Até agora, não compensou’’. Segundo ela, a idade contribui nessa decisão. ‘‘Com o passar do tempo, a gente vai ficando mais exigente e passa a medir os prós e contras’’, diz, observando que nessa fase as coisas costumam se inverter. ‘‘Os pais é que começam a cobrar que a gente saia nos fins de semana’’.
Do alto de seus 35 anos, Thaís já não precisa mais dar satisfações sobre todos os seus passos, apesar de sempre fazer questão de ligar avisando sobre horários. Mas a vida sob o mesmo teto que os pais tem os seus regulamentos. ‘‘Não acho legal levar namorado para dormir dentro de casa. Seria uma falta de respeito com eles’’. A arquiteta Lílian Antônio Simões, 32 anos, compartilha da mesma opinião e nunca discutiria sobre isso com seus pais. ‘‘Tenho princípios parecidos’’, diz ela, que pretende sair de casa só depois de casada. ‘‘Não tenho vontade de morar sozinha e nem com amigas’’.
Nem sempre foi assim. ‘‘Já quis sair de casa na época do vestibular, mas meu pai não deixou. Depois que me formei, acabaram surgindo propostas de trabalho por aqui, aí fui ficando’’, conta. A oportunidade apareceu novamente há três anos. ‘‘Passei por uma fase ruim profissionalmente. Mandei meu currículo para outras cidades, mas as propostas não eram interessantes no aspecto financeiro’’, lembra.
Hoje, Lílian tem clientes fiéis e uma carreira mais estável, mas ainda assim não arriscaria investir no próprio canto. ‘‘Não teria o conforto que tenho com o que eu ganho em nenhum outro lugar’’, diz, enumerando as vantagens de viver na casa dos pais: ‘‘Tenho espaço, um apartamento supergostoso, almoço pronto no horário e consigo investir meu dinheiro em outras coisas, como viajar’’, observa. Se vivesse sozinha, ela teria que abrir mão das aulas de língua estrangeira e da academia de ginástica. E de todas as ‘‘mordomias’’ com as quais está acostumada. ‘‘Coloco a roupa suja no cesto e pego limpa em cima da minha cama’’.
O engenheiro Hilton Genari da Silva, 33 anos, também acredita que não teria tanto conforto se tivesse sua própria casa. Descendente de italianos e trabalhando na empresa da família, com quem mantêm uma relação muito forte, ele diz que nunca se preocupou em sair de casa. ‘‘Acho que a principal independência que temos que ter é a financeira’’, ressalta. Regras familiares, portanto, não o incomodam. Muito pelo contrário. ‘‘Gosto de dar satisfação da minha vida. Isso é recíproco. Também me preocupo com meus pais’’, argumenta Hilton, que está namorando mas garante que o casamento ainda demora a sair.

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