Gastronomia - Terapia gastronômica
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quinta-feira, 10 de abril de 1997
Celina Alonso Az De Maringá 
Fotos: Edson GuittiOs membros do Maringá Cookery Clube desenvolvem seus dotes culinários longe das mulheresCriado há quatro anos, o Maringá Cookery Clube é um grupo ao qual muitos homens deveriam aderir para se prevenir contra o stress. É uma terapia garantida. Seus 16 sócios se reúnem mensalmente para cozinhar e conversar amenidades. Nas reuniões, eles trocam receitas, criam pratos exóticos e se divertem muito. Mas, visto sob a ótica feminina pode parecer um ato de rebeldia masculina. Queremos ter liberdade de expressão e desenvolver nossos dotes culinários, conta o empresário Shiniti Ueta, que no clube é o especialista em peixes grelhados. Ele confessa que no Cookery fica longe da mira e das interferências da esposa que ele considera excelente cozinheira. Hoje ela até sai da cozinha quando eu entro, como deferência, diz Ueta.
Para Reginaldo Ferreira, dono de uma emissora de rádio, o clube foi uma escola. Quando entrei aqui, nem sabia fazer um arroz. Agora discutimos técnicas de cortar milimetricamente cebolas e tomates, brinca Ferreira.
O livreiro Massao Tsukada demonstrou categoria descascando alho e cebola, prova de fogo para os iniciantes
O presidente da Liga Desportiva de Maringá, Luiz Nishimori, que é também empresário do setor de produtos agropecuários, antes da fundação do clube achava o ato de cozinhar um sufoco. Não entendia nada e até para fritar um ovo queimava o dedo e ficava bravo, revela o atual expert em lulas e frango à moda chinesa.
Só em quatro ocasiões é permitida a entrada de mulheres no clube: no Dia das Mães; no Natal, no Dia dos Namorados e no Dia das Crianças (a presença da equipe da Folha da Sexta foi numa reunião extraordinária, só para a realização da matéria). Outra ocasião em que não-associados participam dos requintados banquetes é uma vez ao ano durante um jantar pró-asilo Wajun-Kai, que nunca recebe menos de 200 pessoas. Não queremos abrir muito porque ter mais sócios significa ter muitas opiniões divergentes, e isso poderia dividir o grupo, tão coeso, conta o presidente do Cookery, Futoshi Matsuda.
O industrial Yoshiyuki Onogi é um mestre do corte e da decoração exótica dos pratos
Marmita para a esposaO início da reunião parece uma discreta conspiração. Os sócios - todos homens, como manda o estatuto do clube - vão chegando com seus impecáveis aventais debaixo do braço e se cumprimentando em voz baixa. Como a confraria é formada por importantes empresários maringaenses, gente muito ocupada, é natural que alguns cheguem até meio tensos. Mas, depois de uma rápida sessão descasca-alho e corta-cebola, tarefa que geralmente é designada aos iniciantes, pode-se ouvir risos e piadinhas como acontece num encontro de jovens estudantes. Minha esposa festejou minha entrada no Cookery, conta o livreiro Massao Tsukada, que já arrasa na preparação de costeletas de porco. Antes, eu era um relapso na cozinha e agora ela agradece quando me ofereço para assumir a produção em algumas ocasiões especiais, conta Tsukada.
Só que muitas mulheres dos sócios não devem esperar do marido-cozinheiro um exemplo de economia. Somos artistas, nossos pratos são experiências artesanais adaptadas à realidade, por isso somos um pouco esbanjadores, confessa Tsukada, há seis meses no grupo.
O único que já sabia cozinhar antes da criação do clube é Osmar Dellatorre, sócio-fundador e proprietário de um bufê, que admite: Meus colegas são exímios profissionais.
O empresário Carlos Ajita, ao lado de sua paella, diz que cozinhar para alguém é uma nobre demonstração de amizade
Como vez ou outra um sócio leva um convidado de honra, os cozinheiros sempre fazem um pouco a mais e, é claro, garantem a marmita para a esposa. A marmita é a senha para entrar em casa, dizem, brincando.
Minha mulher nunca me deu a chance de pilotar a cozinha. Aqui, eu despertei para a coisa, confessa o empresário Valdecir de Britto, do setor de veículos. Hoje ele é especialista em bacalhau à portuguesa, receita que herdou da mãe e que agora deu uma incrementada.
Nossos encontros gastronômicos são uma terapia, diz Carlos Ajita, empresário do setor de calçados, orador da turma. Para entrar no Cookery é preciso amar a cozinha. No clube, recuperamos a energia gasta com o excesso de trabalho, conta Ajita, revigorado depois de tourear uma paella durante quatro horas de fogo. Aqui só tem uma coisa proibida: fazer críticas no mesmo dia. Se alguém errou no sal ou no tempo de fogo só vai ouvir dos colegas na outra reunião, para não acontecer um anticlímax, revela o mestre da paella. Aqui fazemos nossos pratos com amor. Cozinhar para um amigo é a maior expressão de amizade, declara Ajita, que segundo os colegas é o melhor na banana flambada.
A paella do Cookery Clube foi preparada com frutos do mar pescados na véspera
Menu de perfeccionistasNo Maringá Cookery Clube, tudo o que requer decisão é votado. Desde a escolha do prato principal até a marca do shoyu (molho de soja) que, se não for encontrado, pode até haver modificação no cardápio. Para sushi, o shoyu tem de ser o tipo doce, senão estraga, conta Shiniti Ueta, um dos mais bem-informados sobre ingredientes. Os temperos, quase todos importados, são escolhidos a dedo. Comer peixe cru só com os pauzinhos para que o metal do garfo não oxide o alimento e comprometa o gosto.
Na última reunião, o cardápio teve salada de endívias com aspargos frescos, tomates silvestres, kanikami e cogumelos; sashimi de robalo e de atum; salmão marinado e paella à valenciana. O presidente do Cookery, Futoshi Matsuda, diretor de uma transportadora, disse que nunca havia cozinhado em casa. Agora, ele entrou para o time dos perfeccionistas gastronômicos. Como os sócios também adoram pescaria, peixes e frutos do mar quase sempre estão no cardápio. O peixe, eu trouxe de Itajaí (SC), na véspera do jantar. Sushi e sashimi precisam de peixe muito fresquinho senão não fica tão bom, explica Matsuda.
Na hora da produção, apenas cinco sócios escolhidos num rodízio preparam o jantar. Parecem formiguinhas correndo de um lado para o outro, cortando, picando, lavando, escolhendo. Um dos artistas do clube é o industrial Yoshiyuki Onogi, um verdadeiro mestre do corte. Não é por acaso que tem num baú dezenas de facas importadas, desde as imensas até as faquinhas afiadésimas, coadjuvantes dos seus momentos de criação. Ele nunca repete um arranjo de mesa. Os ingredientes são cortados como num passe de mágica, e enquanto cria, Onogi parece não perceber o mundo a sua volta. Só depois de tudo pronto é que ele respira fundo e dá um sorriso: Em casa não cozinho. Só como, diz Onogi com um sorriso maroto.
O paladar refinado dos sócios do Cookery já é conhecido na cidade. Quando chegamos juntos para comer num restaurante, o pessoal já nos olha de lado porque sabem que nosso nível de exigência é alto, conta Shiniti Ueta. Ele ensina que a boa culinária se baseia em três pontos: A qualidade dos ingredientes, o ponto do fogo e do sal.


