Galera ligada
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quinta-feira, 15 de abril de 1999
Rosângela Vale 
Adolescente adora telefone. Nada mais natural, portanto, que o celular tenha virado objeto de desejo entre a garotada. Acrescente-se a isso pais preocupados com a segurança dos filhos e mães ansiosas para saber o paradeiro do seu rebento a altas horas da noite. Tudo conspira para que o aparelhinho se torne, assim como o jeans e o tênis, item indispensável no repertório juvenil.
Sair de casa sem celular é como sair sem brinco, compara Mariana Simões, 16 anos, que antes de ganhar o seu, no Natal do ano passado, vivia usando o do pai. Desligá-lo, só mesmo quando está no colégio. Nem mesmo no cinema admite se privar dos chamados dos amigos ou do namorado. Fico preocupada se alguém quer falar comigo, justifica. Para ela, o fator segurança é o que torna o celular artigo de primeira necessidade. Qualquer problema que aconteça dá para pedir ajuda, ressalta.
Mas, às vezes, poder acompanhar os passos dos filhos à distância é uma desvantagem para o bolso dos pais. Tem meses que eu extrapolo e eles reclamam, conta Mariana, que gasta, em média, R$ 70,00 por mês com o telefone. O entusiasmo inicial com o aparelho é um dos principais responsáveis pelas baixas na conta corrente da família. No primeiro mês, gastei quase R$ 100,00, conta Pedro Henrique Viggiani, 17 anos, que conseguiu reduzir as despesas com o celular pela metade após dois anos de uso. Hoje, não ligo muito; o pessoal é que liga pra mim. Alguns amigos nem tem o número do telefone da minha casa, só o do meu celular, diz ele.
César AugustoPedro Henrique e Diego: contas menoresSegundo Pedro, permitir que a pessoa seja facilmente encontrada é o maior benefício do celular. Com a tecnologia digital, que trouxe o identificador de chamadas, o principal inconveniente dessa situação ficou resolvido, pois é possível atender seletivamente as ligações. E quando a questão é não ser encontrado, um simples apertar de botão tira o sujeito do mapa. Depois, é só dar a desculpa de que acabou a bateria. Mas, se são meus pais, eu sempre atendo, garante Pedro. Outra justificativa é o barulho do ambiente. Digo que não ouvi tocar, diz Johann Diego Lima dos Santos, 16 anos, que já considera o celular um vício. Ele me acompanha em todos os lugares; com ele, não dependo de ninguém, argumenta.
Apesar desse apego, Diego não gosta de exibir o celular como símbolo de status. Procuro ser bem discreto, afirma ele, que já chegou a gastar R$ 400,00 em um só mês. Foi durante uma viagem, justifica. Sob as ameaças maternas de ficar sem o aparelho, reduziu a conta mensal para R$ 100,00. Uma de suas providências foi cortar as longas conversas com os amigos. Não usava mais o telefone de casa. Era mais fácil usar o celular porque ele tinha todos os números na memória, lembra.
Diego garante que ficar sem o celular, hoje, não influenciaria sua vida. Mas, no que depender da sua mãe, ele nem precisa pensar no caso. Para mim, o celular já está na relação dos itens essenciais, constata Daniela Campos de Lima Santos, que apelidou o aparelho de Chama Mãe e considera o consumo do filho dentro do normal, uma vez que suas preocupações ficaram reduzidas.
Hoje em dia, os adolescentes têm muitas atividades, e eu acabo me perdendo nos horários. E tem também aquela história de ficar atendendo o telefone em casa o dia inteiro. De onze vezes que tocava, 10 eram para o Diego. Resolvi isso com o celular. Agora, atendo e digo para ligarem no celular dele. Nem me dou o trabalho de procurá-lo pela casa, relata ela, que pensa seriamente em presentear o filho de 13 anos com o aparelho. Afinal, as vantagens serão recíprocas.


