Fora dos padrões? Você não está sozinha...
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de novembro de 2005
Lola Félix<br> Agência Estado 
Alguns meses atrás, a arquiteta Bruna Harden, de 26 anos, não podia viver sem uma escova, um secador de cabelos e uma chapinha raramente assumia seus cachinhos naturais. A história começou a mudar quando Bruna entrou numa comunidade do Orkut (www.orkut.com) para mulheres de cabelos cacheados e seus admiradores. Hoje, eu adoro meus cabelos, não mudo por nada, orgulha-se.
Para Bruna, assumir os cachos não é uma questão puramente estética. Ela acha que mulheres que assumem uma característica que vai de encontro aos padrões estabelecidos se destacam pela personalidade. O melhor é que eu atraio o tipo de homem que mais me interessa: os descolados.
A estudante Tayana Nascimento, de 16 anos, é outra freqüentadora dos grupos de orgulho do Orkut. Ela, que é alta, magra e tem cabelos lisos, levou um tempo para se contentar com seus seios tamanho P. Há alguns meses, Tayana participa de um dos maiores grupos do Orkut para meninas com seios pequenos, o 100 Peito. A comunidade, com cerca de 3,5 mil participantes, convida as meninas a queimar os sutiãs com enchimento.
Entrei nessa comunidade para conhecer meninas com a mesma característica e, principalmente, para pegar dicas, diz Tayana. Quando ela fala sobre dicas, não está se referindo a cirurgias de aumento do seios. A idéia do grupo é fazer com que as meninas e mulheres se sintam à vontade com seus atributos naturais. Tayana concorda. Não gosto nem de ver comentários sobre silicone.
Mas pensar assim é um avanço. Propagandas, filmes e programas de televisão já decidiram: bonita é a moça com menos de 30 anos, cabelos lisos escorridos, peitões e, no máximo, 55 quilos. Mas o que uma mulher com cabelos cacheados, seios pequenos ou quilos a mais deve fazer se não consegue mudar uma dessas características, seja por falta de dinheiro, vontade ou simplesmente porque a genética não permite?
Os mais malvados poderiam sugerir... o suicídio. Mas se depender dos grupos de militância e orgulho que surgem na internet, a aceitação será o caminho. Um exemplo é o Magnus Corpus do latim corpo grande , fundado há seis anos pela dona de casa Denise Neumann, de 39 anos. Representante no Brasil do Internacional Size Acceptance Association (Isaa) grupo americano de militância por respeito aos gordos , o Magnus mantém um site na internet (www.magnuscorpus.org) e, segundo Denise, seu objetivo é mudar a visão de que gordo só é gordo porque come demais, é preguiçoso e não tem força de vontade.
Auto-estima versus saúde Trabalhamos com pessoas gordas por questões genéticas e achamos que elas podem viver felizes e ter os mesmos direitos dos magros, explica Denise, de 1,61 metro e 128 quilos. Queremos que os gordos não se vejam como pessoas gordas, mas simplesmente como pessoas.
Muitos profissionais da área de saúde, no entanto, ficam com um pé atrás com grupos como o Isaa e o Magnus Corpus. Para eles, tais associações podem criar a ilusão de que é possível ser saudável com um índice de massa corporal (IMC) acima do recomendado.
Mesmo que um obeso esteja com as taxas normais, tem mais chances de sofrer de doenças cardíacas, hipertensão e diabetes, explica o endocrinologista Filippo Pedrinola. Obesidade é uma doença e essa história do obeso saudável é mito, avisa.
Tanto Denise quanto o diretor e fundador da Isaa, Allen Steadham, rejeitam a apologia à obesidade. As duas associações incentivam a reeducação alimentar e a prática de atividades físicas. Para eles, os grupos são importantes para elevar a auto-estima dos gordos.
Algumas pessoas se sentem vítimas e pensam que os outros deveriam ter pena delas. Isso sim não é saudável. Sempre existirá uma maneira de discriminar as pessoas, seja pelo peso, pela raça ou pela idade. O que importa, então, é a maneira como lidamos com a discriminação, explica Steadham.
Denise afirma que se sente irritada quando dizem que sua obesidade é a causa de todos os seus problemas de saúde. Eu peguei um resfriado e o médico, em vez de me receitar um medicamento, sugeriu que eu operasse o estômago, indigna-se. O pior é que essa banalização da gastroplastia gera mais problemas ainda. Tem muita gente engordando só para poder operar pelo convênio médico.
Aqui no Brasil, por enquanto, pelo menos quando o assunto é saber lidar com o problema da discriminação, o Magnus Corpus ainda tem muito pela frente. O caminho talvez seja seguir o exemplo do Issa.
Além de uma estrutura muito bem organizada (com advogado e tesoureiro, por exemplo), a entidade internacional promove regularmente ações, palestras e campanhas. E tem mais de 2 mil associados só nos EUA.


