Fora dos padrões
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quinta-feira, 06 de maio de 2004
Rosângela Vale<br>Reportagem Local 
Cadeira de balanço, agulhas de tricô, cabelos brancos, voz trêmula... Apesar da emancipação feminina, que deu uma vida mais ativa às mulheres, e da evolução da medicina estética, que subverteu os conceitos de envelhecimento, a tradicional figura da avó ainda está muito presente no imaginário coletivo. Talvez por isso seja difícil conter o espanto ao ouvir histórias como a de Mildred Santos Galvão Bueno, 75 anos, quatro netos e uma bisneta Victoria, 8 anos, com quem tem uma relação, no mínimo, anticonvencional.
Adepta da máxima ''uma arte assessorada é melhor do que uma arte sozinha'', Mildred nem pensou duas vezes ao ouvir a confissão de uma estrepulia praticada às escondidas. Resolveu participar da brincadeira: foi parar, junto com Victoria, em cima do telhado da garagem. A ''farra'' garantiu a foto que ilustra esta matéria. ''Procurei ser sempre da idade da criança que está comigo'', justifica.
Com os três primeiros netos a filosofia foi a mesma. ''Na minha casa, no Rio de Janeiro, tinha um quarto só para brincar com eles. Pintávamos toda a parede, eles a parte de baixo, e eu a parte de cima'', lembra. A história se repetiu com a bisneta. ''Pintamos um quadro juntas. Eu fiz o céu e ela fez o resto''. Além das aulas de artes plásticas na mesma turma, Mildred e Victoria compartilham outras atividades: fazem exercícios no mesmo horário e na mesma academia e estudam piano. ''Voltei às aulas para incentivá-la. Ela se empolgou e está muito bem'', alegra-se.
Formada em mitologia e atualmente cursando teologia, Mildred tem uma maneira diferente de encarar a educação. ''A minha teoria é a seguinte: se você dá abertura, é amiga, deixa que a criança chegue até você, as coisas ficam fáceis. Já tive a idade dela, posso entendê-la. Ela nunca vai me compreender, não tem a minha vivência'', argumenta, comemorando a vitalidade para participar da vida de Victoria, e não ser apenas uma ''bisavó de visita'', como ela define a maioria das companheiras de função. ''Curtir a minha bisneta como eu curto me dá uma felicidade muito grande''.
Avó balzaquiana A pequena Gabriela, hoje com pouco menos de um mês de vida, vai entender rapidinho o significado dessa palavrinha mágica vitalidade. Quando tiver cinco anos, e entrar naquela fase do ''ninguém me segura'', a sua avó ainda não terá completado 40 anos. Se para os mais antigos isso está longe de ser propriamente um recorde, para os padrões atuais não deixa de causar uma certa perplexidade. Afinal de contas, muitas balzaquianas ainda nem experimentaram a maternidade enquanto a professora Carla Fernanda Paiva Cordeiro, 33 anos, fez a sua estréia como avó.
''No começo, fiquei assustada, tensa. Pensei: nossa, de novo a mesma história?'' Grávida aos 16 anos, Carla ficou casada por 10 anos e está separada há sete. Além de Karina, 17 anos (mãe de Gabriela), teve mais um filho, Gustavo, 12 anos. Os quatro moram juntos e, por enquanto, devem permanecer assim. ''Meu casamento não deu certo porque a gente não tinha a maturidade para saber o que queria. A Karina não casou mas continua com o namorado'', relata.
Seguindo o exemplo da mãe, que não parou de estudar fez faculdade e duas especializações Karina vai prestar vestibular no final do ano e se dividir entre as funções de mãe e estudante. ''A gente tem que abrir mão de muita coisa para cuidar dos filhos'', reconhece a avó prematura, hoje mais tranquila. A Karina é mais madura do que eu era na época'', analisa.
Apesar de dividir o mesmo teto com a filha e a neta e garantir o sustento da casa Carla está consciente de seu papel nessa história. ''Vou ser avó mesmo. Nesses dias em que ela está debilitada, dei uma assistência maior, tirei licença da escola. Mas quando voltar ao trabalho, vou ficar corujando só de longe'', garante a avó, que namora e está cursando a terceira pós-graduação.
Carla não esconde que, ao ouvir a notícia inesperada, sentiu-se perdendo o chão novamente. ''Com os filhos pequenos, foi difícil coordenar casa e escola, precisei muito da ajuda dos meus pais e dos ex-sogros. Agora que eles estão grandes, pensei: posso viver mais para mim, viajar, aproveitar a vida''. Ela achou que tivesse perdido essa chance quando soube da gravidez de Karina. ''Mas depois percebi que não era eu quem estava grávida''.
O lado bom de ser avó, então, começou a ficar evidente. ''Estou curtindo muito a Gabi com a vantagem de não ter ficado gorda, não ter amamentado e não ter tanto compromisso'', enumera. A idéia de ser chamada de vovó não era muito agradável antes de pôr os olhos na neta. ''Pensava em ensiná-la a me chamar de Cacá ou de titia, mas agora não tem jeito, falo toda a hora: vem com a vovozinha...'' q


