Milton DóriaPara Regina Menezes, a descoberta da pintura foi uma redescoberta de si mesmaLiberar a criatividade é algo como se despir sem receios e aproveitar as ondas do mar, e a sensação de liberdade que proporciona a brisa da praia, o sol e a areia. O processo nem sempre é fácil, principalmente nesses tempos de angústia, de desemprego, de amarras criadas pelo próprio sistema em que se vive.
Para a jornalista Regina Menezes, 39 anos, liberar o seu potencial criativo foi um verdadeiro parto, um mergulho no seu inconsciente e na sua maneira de ver o mundo, de olhar as coisas e analisá-las. Foi preciso desmontar-se e remontar-se para encontrar o elo que a ligava a si própria e ao fluxo da vida.
Ela conta que nasceu sentindo cheiro de gesso e tinta, devido ao trabalho do pai, pintor e escultor. No entanto, ela sempre rejeitou a idéia de seguir os passos do pai. ‘‘Eu não queria ter uma profissão tão sofrida como eu achava que era a do meu pai’’, lembra. Optou pelo jornalismo impresso e seguiu fazendo rádio e televisão. Porém, algo sempre a inquietava.
Regina conta que sofria pelo fato de já adulta ainda carregar tantas questões primárias. ‘‘Buscava o tempo todo, me sentia angustiada. E apesar do meu alto astral, sentia falta de ar diante dos meus questionamentos. Me sentia presa, bloqueada. Resolvi fazer análise e todos os caminhos da análise me levavam à pintura’’.
Foi através da análise que Regina descobriu que olhava o mundo de uma forma visual: muita cor e um senso estético apurado. ‘‘Mesmo nas situações mais duras que tinha chance de presenciar enquanto jornalista, eu via cor’’. Quando resolveu assumir os desenhos e as pinturas que fazia inconscientemente e escondia numa mala num canto da casa, ela percebeu que tudo fluia facilmente. Porém, até sua primeira exposição individual ainda brigava muito consigo mesma. No entanto, o mundo que trazia dentro de si não se esgotava. Pensou até em largar o jornalismo, ficou parada durante um ano, mas voltou a sentir falta de ar. Só pintar não bastava.
Hoje ela assume esses dois lados e até tem uma explicação para eles: ‘‘Acho que coleciono há tempos esse interesse com o olhar. No jornalismo, insisti com reportagens sobre o comportamento humano. A dinâmica do processo humano me levou num crescendo à exaustão da fala e do texto escrito. A pintura foi se tornando necessidade de expressão, algo próximo da definição de Sergio Fingermann, de que ‘a pintura é um ato de convicção‘. É uma espécie de testemunho dos sentimentos que a gente gostaria de colocar no mundo. É a presença daquilo que a palavra não descreve’’.
Diante desse encontro que realizou dentro de si, Regina se diz mais livre, mais completa e bem mais feliz. Sua busca continua, não para, mas ela encontrou mecanismos para deixar o fluxo de sua própria pulsação de vida seguir adiante: dando vazão ao seu impulso criativo. ‘‘Sempre digo que minha fome de viver é muito grande. Todo dia tenho que mostrar para mim o que sou, o que posso e seguir em frente buscando sempre. Quando você tem muita fome, todas essas questões são importantes. Torna-se fundamental correr atrás dos sonhos. Por isso, com essas descobertas, eu pude mexer com meus medos, minha auto-estima, ir descobrindo o que sou e crescer’’, diz.

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