A Sociedade Brasileira de Pediatria avaliou, numa recente pesquisa realizada em escolas de São Paulo, Brasília, Recife e Porto Alegre, que cerca de 24% das nossas crianças estão obesas (ou seja, muito acima do peso considerado saudável). Pais sem orientação e crianças sem limites são responsáveis por esse alto índice. As questões abordadas no III Congresso Mundial de Nutrição em Pediatria, realizado mês passado em São Paulo, vão além das proteínas, vitaminas e da atividade física. Novos estudos apresentaram a lisina, um aminoácido, como complemento para o crescimento saudável. Mas é importante saber que ser um adulto saudável depende, e muito, da sua alimentação quando criança.
Durante o congresso, Leslie Beck, nutricionista canadense, lembrou que o estômago das crianças é pequeno e requer alimentos de qualidade. ‘‘A alimentação é importante para compor a massa muscular e óssea. Os ossos continuam ganhando densidade até 25 anos’’. As deficiências da má alimentação refletem diretamente no desenvolvimento físico e mental. ‘‘Criança que come mal, vai mal na escola também.’’ Uma dieta equilibrada para crianças não significa apenas evitar a obesidade, mas diminuir também o risco de doenças cardiovasculares no futuro.
A nutricionista canadense faz parte do Adelaide Health Centre, centro de pesquisa em alimentação, e apresenta programas na TV sobre dieta e nutrição em seu país. Leslie é defensora do uso da lisina, um aminoácido que aparece em estudos recentes e que ajuda o organismo a absorver melhor o cálcio e outros nutrientes importantes. Geralmente, os minerais em quantidade insatisfatória na alimentação infantil são cálcio, ferro e zinco. ‘‘A dieta deficiente em lisina é responsável por um crescimento lento. Esse aminoácido ajuda o intestino a absorver melhor o cálcio’’, afirma.
Crescimento infantil Os minerais são os principais nutrientes para o crescimento infantil. O zinco auxilia no desenvolvimento e crescimento rápido. O cálcio, mineral em maior quantidade no corpo, é o responsável pelo desenvolvimento ósseo, dos dentes, e conduz impulsos elétricos em algumas regiões do coração. Em muitas crianças, a deficiência do cálcio pode não ter consequências tão cedo, mas aumenta o risco de fraturas a longo prazo.
A Boehringer lançou no Brasil a Kiddi, primeira linha de suplementos polivitamínicos para crianças. A ingestão desses nutrientes, como a lisina que não é produzida pelo corpo, sugere um bom funcionamento também do sistema nervoso central. No Brasil, os estudos são recentes e especialistas pedem cuidado na opção do uso doméstico, sem receita médica. Ainda em julho, a Sociedade de Pediatria do Estado de São Paulo reforçou em assembléia que ‘‘não existe indicação formal para o uso em crianças normais. Exceto na primeira infância e em regiões onde o sol é escasso, os nutricionistas indicam o uso da vitamina D’’, avisa Ary Lopes Cardoso, presidente da Sociedade de Pediatria e Nutrição de São Paulo.
Suplementos nutricionais Para as crianças que realmente precisam, Ary Cardoso, que também é chefe de Nutrição da Unidade da Criança do Hospital das Clínicas (SP), receita suplementos nutricionais. ‘‘Desde que não desequilibre a alimentação e por período temporário’’. O hábito de consumir suplementos pode levar a criança ou adolescente a utilizar esses ‘‘reforços’’, às vezes, desnecessariamente. ‘‘O organismo fica sobrecarregado. O rim trabalha demais porque precisa filtrar esses nutrientes’’. A longo prazo se tem um adulto com insuficiência renal.
Em 1998, um estudo realizado no Canadá com 168 crianças entre 2 e 5 anos, verificou que a maioria se alimenta inadequadamente. Cerca de 40% dos meninos e meninas com 2 anos não comem vegetais e frutas suficientes. Aos cinco anos, o índice sobe para 50%. Entre todas as idades, apenas 20% tomam o café da manhã com a quantidade de cereais recomendada. A ingestão deficiente de alimentos atinge 42% no geral, com prejuízos confirmados no boletim escolar.
Hábitos incorretos ‘‘As crianças se acostumam desde cedo com a importância da alimentação, se ouvem com frequência os conselhos dos pais’’, explica Leslie. No entanto, a nutricionista afirma que falar de alimentação infantil tem melhores resultados quando os adultos entendem a questão. Cerca de 39% das mães canadenses afirmam que a alimentação dos seus filhos é saudável somente quando elas estão por perto. ‘‘Pais que compram e guardam besteiras dentro de casa não estão ajudando em nada na saúde dos próprios filhos.’’
O alimento industrializado e hábitos alimentares incorretos são os dois erros mais comuns no cotidiano da criança. Somando isso ao sedentarismo, tem início uma contagem regressiva para um candidato adulto com problemas de saúde. ‘‘Problemas cardíacos, obesidade, hipertensão e colesterol alto são algumas das doenças crônicas que têm origem na infância’’, relaciona Leslie.
Se seu filho não aceita brócolis na primeira vez que você oferece, Leslie aconselha oferecer a segunda, terceira, quarta e, talvez, na milésima vez ele pode se render. ‘‘Sim, dez mil vezes e de formas diferentes, mas a mãe deve insistir sempre’’. Trocar os horários das refeições ou os alimentos que fazem parte de cada cardápio não é recomendável, mas a austeridade pode ter efeito inverso. Se a criança é obrigada a comer em casa somente aquelas ‘‘coisas indesejáveis’’, com certeza ela se excederá fora do lar. ‘‘Ela deve aprender a comer, e gostar, de tudo com moderação. Isolar a criança do mundo não resolve’’, diz Cardoso.
Estudo O Instituto do Coração de São Paulo (Incor) e o ambulatório do Hospital das Clínicas (HC) realizaram um estudo neste ano com descendentes de cardíacos. O resultado apontou que 15% correm risco maior de apresentar alta do (mau) colesterol e outras complicações.
Outro problema que aumenta entre crianças e adolescentes é a anorexia. ‘‘Eu nunca tinha visto um anoréxico antes, a partir de 97 apareceram cerca de quatro casos de internação por ano’’, conta Cardoso, alertando que internação é o último recurso no tratamento. Os anoréxicos podem até morrer porque o organismo passa a não aceitar mais o alimento. O especialista cita um caso recente de uma adolescente de 17 anos, pesando 37 Kg, internada no HC na segunda quinzena de julho.
Para piorar tudo, as crianças passam muito tempo conectadas à Internet ou entretidas com videogames, entre quatro paredes. A falta de atividade física compromete o desenvolvimento. ‘‘Existe um quadro de extremos. Ou a criança não é estimulada para atividade física ou é incitada a tornar-se uma atleta’’, avisa Turibio Leite Barros, coordenador do Centro de Medicina e Atividade Física e Esportiva da Escola Paulista de Medicina. ‘‘Outro mito comum é acreditar que algum esporte faz crescer. Nenhuma criança cresce porque joga basquete. Se ela não tem propensão genética, não adianta’’.
Esportes O papel dos pais para que o filho faça alguma atividade física é tão importante quanto o da alimentação. Um dos problemas mais comuns, segundo Turibio, é a escolha, pelo pai, do esporte que o filho vai praticar. ‘‘O filho faz aquilo que o pai sempre sonhou. O resultado não poderia ser outro, a desistência’’. O organismo infantil é pouco resistente às atividades de longa duração e que exigem força física além de sua capacidade natural. Ela se adapta rápido, mas desiste com a mesma facilidade porque sua fisiologia não está preparada. ‘‘Se um garoto não consegue segurar uma raquete, o pai não deve querer que ele se torne o próximo Guga. O benefício aparece somente se for saudável’’.
Estimular é a única forma de tirar o filho do sedentarismo. O convite para passear (caminhar) ou jogar bola ajuda no metabolismo, melhora a coordenação motora e desenvolve o sistema biomecânico (articulações e músculos). Uma série de circunstâncias devem ser levadas em consideração quando a criança se nega, terminantemente, a aceitar alimentação saudável e praticar atividade física. ‘‘Sim, pode ser que ela queira chamar a atenção’’, avisa Leslie, que garante que o melhor é não ceder. ‘‘Se os pais cedem, eles não terão limites.’’




Onde encontrar os nutrientes
• Os laticínios fornecem ao organismo vitaminas, proteínas, minerais (cálcio principalmente) e carboidratos.
• Carne é uma fonte rica em proteína, mas também oferece ferro, vitamina B e zinco. Tem alto teor de gordura, portanto evite fritar.
• Os vegetais são muito importantes, pois fornecem variedade de vitaminas, minerais e fibras. Não têm gordura se consumidos crus e cozidos.
• As frutas são ricas em carboidratos, vitaminas, minerais e fibras. Laranja, uva, framboesa e morango contêm vitamina C.
• Pães, cereais, arroz e massas são fontes de alto teor de carboidratos e devem ser consumidos em quantidade maior que o resto, pois é a famosa fonte de energia para o organismo. (L.R.)

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