Trabalhar ou ficar em casa e cuidar dos filhos? Poucas mulheres têm hoje a possibilidade de optar por uma coisa ou outra. As condições da vida moderna e a realização profissional tornaram o trabalho fora do lar algo necessário para a grande maioria das mulheres. E as exigências do mercado são tantas que é comum encontrarmos aquelas que optaram por não ter filhos ou tê-los apenas quando a carreira fica estável.
A gerente de faturamento de uma multinacional, Célia Maria de Carvalho Quadros, 50 anos, é uma das tantas mães que tiveram o primeiro, e único, filho depois dos 30 por causa das preocupações com a carreira. ''Sempre trabalhei fora e, quando eu era jovem, meus pais se separaram e a responsabilidade de cuidar da casa ficou comigo, que sou a mais velha. Eu era obcecada por trabalho e acabei deixando minha vida pessoal de lado por isso'', conta.
Nessa época, os sobrinhos supriam o amor de mãe. O filho, Jorge Geraldo, 17 anos, nasceu quando Célia fez 33 anos, e por acidente. ''Estava namorando um colega de trabalho, hoje meu marido, e minha médica me disse que eu não teria filhos. Um tempo depois eu engravidei e nós resolvemos nos casar. Mas eu já tinha um apartamento meu e minha carreira já estava estabilizada'', lembra.
Opção Segundo a psicóloga Fátima Conte, histórias assim são cada vez mais comuns e devem ser encaradas como algo normal e saudável, e não como uma atitude egoísta. ''A mulher está optando por se organizar como pessoa e profissionalmente para depois ter filhos, e isso é bom. É melhor ter um filho mais tarde do que tê-lo em uma época conturbada, em que, como mãe, não teria tempo suficiente para dar atenção à criança'', explica. A idéia de que trabalhar fora pode prejudicar os filhos já ficou no passado, de acordo com Fátima. ''Hoje sabemos que o status da mãe é saudável para a criança e serve como um exemplo de trabalho e dedicação. Deixar os filhos sob a guarda de empregados e familiares, também não deve ser visto como um problema porque outras pessoas sempre participaram da educação das crianças'', afirma.
O importante para os filhos é que a mãe esteja presente e atenta ao seu desenvolvimento. E Fátima garante que para isso não é necessário que a mulher fique em casa o dia inteiro e abra mão do trabalho. ''Estar com a criança umas quatro horas por dia é suficiente. Isso pode ser feito no café da manhã, no horário do almoço e à noite. Os finais de semana e as férias também são épocas de desfrutar a companhia dos filhos'', lembra. Mas as horas em que estão juntos devem significar alguma coisa e ter companheirismo. ''Não basta só ficar assistindo à TV e nem se falar. A mãe deve estar atenta às necessidades do filho e se preocupar com sua rotina e atividades. Existem mães que não trabalham e são menos presentes que mães que ficam o dia todo fora'', alerta.
Culpa Dividir as responsabilidades com o marido também deve ser algo comum, que pode ajudar na diminuição da dupla jornada que muitas mulheres carregam. ''Como a responsabilidade de prover o sustento da casa é do homem e da mulher, o cuidado com os filhos também deve ser dos dois'', ensina. A gerente Célia, que viaja constantemente a trabalho e chega em casa sempre tarde, reconhece que era ausente quando o filho era menor. ''Sempre tive cargos de chefia e isso atrapalha bastante por causa da responsabilidade. Se pudesse teria mudado minha vida quando ele era pequeno, para ficar mais tempo em casa'', afirma.
Esse sentimento de culpa é normal entre mulheres que trabalham, garante a psicóloga. E isso pode criar mães que permitem tudo, na tentativa de compensar a falta de contato com as crianças. ''Isso é um erro. A mãe que trabalha deve ter o compromisso de ensinar, supervisionar e participar, como qualquer outra. Muitas vezes as mães trazem os filhos ao consultório para saber se a criança está bem, em um claro sentimento de culpa pela distância, mas não é a quantidade de tempo juntos que conta e, sim, a qualidade da relação'', argumenta. Fazer surpresas são boas maneiras de compensar a falta de tempo. ''Pedir licença do trabalho um dia para fazer um passeio e levar o filho ao escritório são atividades que podem ser feitas e terão um significado grande. Conversar com a criança e saber o que ela quer também é fundamental'', diz. Hoje, Célia está mais tranquila e menos culpada por trabalhar e deixar o filho sob os cuidados da avó. ''Antes, eu sofria mais quando tinha que viajar, por exemplo. Mas meu trabalho permite que eu saia quando é necessário e hoje não tenho mais esses problemas'', afirma. Talvez a segurança tenha vindo da atitude tranquila do filho. ''Minha mãe é um exemplo de dedicação para mim e não me incomodo com o fato de ela trabalhar porque é uma coisa normal. É claro que eu ia gostar se ela ficasse mais tempo em casa, mas o tempo que passamos juntos é suficiente'', afirma. n

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