Filhos plugados, mães antenadas
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quinta-feira, 06 de maio de 2010
Erica Shimamura<br> Reportagem Local 
Poucos caracteres trocados por mensagens de celular bastam para tranquilizar as mães e aliviar os filhos, que preferem avisar onde e como estão de uma forma discreta e efetiva. Na rotina de Ivânia Maria Rodrigues Gaspar Hypolito, de 52 anos, mãe da adolescente Keiti Gaspar Hypolito, de 16 anos, os torpedos enviados diariamente garantem que elas se comuniquem bem, sem aparentar que a mãe esteja acompanhando cada passo da filha fora de casa. ''Usamos muito as mensagens de celular no dia a dia. Quando a Keiti sai, ela envia um 'já cheguei', ou 'pode vir me buscar' por mensagem de texto. Assim, não temos a necessidade de falar pelo celular a todo momento'', revela Ivânia. E arremata: ''Além do que, é desagradável para a filha ter a mãe o tempo todo pegando no pé, ligando no celular'', brinca.
Além dos torpedos, Ivânia, que trabalhou como secretária-executiva em São Paulo, possui um perfil no Orkut e uma conta de e-mail. A entrada na rede social também serve para incrementar a comunicação com a filha nos períodos em que a garota viaja para outras cidades, ou mesmo para outro país. ''Em 2008, fui conhecer a Disney e fiquei 22 dias por lá. No dia em que cheguei, fui logo procurar um computador para deixar uma mensagem no Orkut, avisando que estava tudo bem'', relembra Keiti.
Na casa dos Hypolito, mãe e filha possuem a senha uma da outra para entrar na internet. Para elas, a falta de privacidade parece não incomodar. ''A decisão foi tomada em conjunto, não sentimos necessidade de manter a senha em sigilo'', conta Ivânia. ''Acho fundamental conhecer essas ferramentas para acompanhar o modo como os adolescentes preferem se comunicar. Além de simples e prático, sai mais barato também'', acrescenta.
Na vida da adolescente Blankha Falkenbach Miranda, de 14 anos, o MSN possui um significado maior do que se atualizar sobre as novidades da escola com as amigas ou parentes. Todos os dias, a garota permanece por cerca de uma hora com o programa de mensagens instantâneas aberto para conversar com sua mãe, que mora há cerca de seis anos em Balneário Camboriú, no litoral de Santa Catarina. ''Não dá para matar as saudades, mas ajuda'', conta a garota, que estuda em Londrina.
O Orkut também é muito utilizado por mãe e filha. Blankha conta que sua mãe, que tem 29 anos, mudou de cidade para frequentar o curso de Design de Moda. A garota mora com a avó materna e acha que seria bem mais difícil falar diariamente com a mãe se não existissem os programas de mensagens e as redes sociais. ''Com o tempo, fui ensinando minha mãe a usar o MSN e o Orkut. Twitter ela não tem, mas não precisa, né?'', comenta.
Navegar é preciso
Se há alguns anos os pais tentavam controlar o que seus filhos viam em revistas e programas de televisão, com o mundo de possibilidades que a internet oferece, a tarefa de tentar fazer o monitoramento na rede parece até um compromisso ingrato.
De acordo com a psicóloga e psicopedagoga Adriana Cristina Lot Dias, é ainda pequena a quantidade de pais que se preocupam com o que suas crianças ou adolescentes fazem na internet. A avaliação é feita com base no que a especialista observa em sua rotina de consultório.
Na opinião de Adriana, o uso das novas tecnologias dentro de casa precisa ser um assunto tratado com seriedade, sem ser encarado como um inimigo. A recomendação é não proibir, mas também não liberar totalmente, impondo limites ao acesso de uma forma organizada. ''Navegar na internet, por exemplo, é algo que precisa estar atrelado a outros compromissos diários da criança ou adolescente, como as tarefas da escola. Eles precisam entender que antes de ficar em frente ao computador, é preciso cumprir com suas obrigações''.
Para essa questão, a especialista orienta fazer um acordo com os filhos. ''Monitorar é a palavra-chave. O que os pais puderem fazer para supervisionar o uso será válido, deixando sempre bem claro o porquê da preocupação''. Expor muitas fotos em redes sociais, comentar em que escola estuda ou adicionar pessoas desconhecidas ou aquelas que entram em conversas de viés muito particular são situações passíveis de risco.
Mas, como é possível conseguir um acordo com os filhos sobre o uso da internet e do celular se os próprios pais não entendem e não vivem esse universo? A orientação de Adriana aos pais é que tentem aprender como usar as ferramentas, para que possam ter condições de orientar os filhos sobre a melhor maneira de se expor na internet ou através do celular.
''Crianças e adolescentes aprendem rápido, e podem ensinar os adultos a utilizar a internet. Os pais, por sua vez, poderão ajudá-los a filtrar o que é válido ou não na rede'', explica Adriana. A tecnologia, para a psicopedagoga, pode se tornar uma aliada na relação entre pais e filhos se bem utilizada. ''Participar da vida dos filhos e conhecer o universo em que eles já estão inseridos abre portas para a comunicação''.


