O sonho de reverter a laqueadura e recuperar a fertilidade esbarra em alguns obstáculos. O sucesso da operação depende do grau de lesão nas tubas uterinas e, também, da precisão da cirurgia. A conjunção destes fatores é o que determina a realização bem-sucedida de planos maternais.
É o caso de duas pacientes que ficaram com uma das tubas menor do que o tamanho original devido ao corte realizado na laqueadura. Mas o inconveniente, para a sorte delas, foi muito bem contornado. O médico desprezou a tuba ‘pequena’ e tratou de religar apenas a outra ᖠou seja, a que poderia levar o óvulo até o útero.
A estratégia foi explicada pelo médico ginecologista Sérgio Ribeiro: ‘‘Como o óvulo é proveniente ora do ovário direito, ora do esquerdo, a paciente pode engravidar quando ovular no mesmo lado da tuba corrigida’’.
‘‘Mesmo em situações mais delicadas, pode-se dar um jeito’’, garante Agnaldo Pereira Cedenho, urologista da Universidade Federal de São Paulo. ‘‘Às vezes, a tuba adere em outra estrutura, como o intestino, abdome, mas é possível desgrudá-la com o bisturi, religá-la e restituir a sua função’’.
Agora, nos casos em que as duas tubas estão muito comprometidas, não há praticamente o que fazer. Quando elas medem menos de cinco centímetros, a religação é possível, mas este esforço é inútil porque elas não serão capazes de desempenhar sua função. Isso ocorre porque as tubas promovem o encontro do óvulo com o espermatozóide graças a uma estrutura interna chamada microcílios – uma espécie de tapete que transporta o óvulo, garantindo a fecundação. Quanto menor o tamanho das tubas, menor será a movimentação desse tapete, impossibilitando o encontro.
Uma tuba de pouca extensão também não consegue ou tem grande dificuldade de alcançar o óvulo, pegá-lo e levá-lo ao seu interior. Tudo porque, em suas extremidades, há um conjunto de feixes – chamado findria – que é responsável pela tarefa. Resultado: quanto mais curta for a tuba, maior será a dificuldade da findria alcançar o óvulo.
Além das tubas, outro fator de sucesso ou não da reversão é o grau de fertilidade da mulher antes da laqueadura. A partir dos 35 anos e, principalmente, após os 40, ocorre uma redução gradativa da taxa de fertilidade. Daí em diante, a mulher só terá boas chances de engravidar se, ao nascer, tiver sido contemplada pela natureza com uma respeitável reserva ovariana. Quem entra na adolescência com 400 mil óvulos, por exemplo, provavelmente ainda terá muitos ainda para ‘queimar’ aos 40 anos.
Sérgio Ribeiro lembra que o tempo de esterilização também pode reduzir as chances de uma ex-laqueada ter filhos. ‘‘Às vezes, ela é vítima de uma fibrose ao redor dos cotos da tuba, que se intensifica com o tempo e pode obrigar o médico a retirar um bom trecho dela, dificultando, assim, a sua função’’, afirma ele. Cedenho discorda: ‘‘O tempo de laqueadura não interfere em nada’’. E prossegue: ‘‘Apenas um processo operatório ruim pode provocar uma infecção que, por sua vez, desaparece com a cicatrização’’. (Eloisa Devese/Agência Estado)

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