Filhos apaixonados, pais preocupados Ciúme é normal
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quinta-feira, 25 de setembro de 2003
Daniela Tófoli<br> Agência Estado 
Primeiro foi o Kriko, que não deixava o telefone livre por um minuto. Agora é o Badu, um sujeito enfeitado com piercings cheio de segundas intenções. Já que não pode impedir suas filhas de namorar, o comerciante João Júlio Peixoto de Almeida, de 48 anos, pai de Mariana, 16, e de Flávia, 14, se dá ao direito de pelo menos colocar apelidos nos candidatos a futuros genros. E de contar até dez ao ver uma cena mais quente. Tiro um barato dos namorados, mas é só de brincadeira porque até agora eles se mostraram bons garotos, conta.
Saber que a filha ou o filho começaram o primeiro namoro é um momento difícil para o pai. Uma mistura de ciúme e preocupação com a descoberta de que aquela garotinha está mesmo virando uma mulher, mexe com qualquer homem e, muitas vezes, eles não sabem como agir. Acho até que recebi a notícia do primeiro namoro da Mariana numa boa. Controlei meu ciúme, mas é claro que fiquei mexido, conta. É a sua filha que está namorando e a gente nem sempre sabe direito como agir.
Uma das dúvidas que perseguem o comerciante diz respeito a deixar as filhas viajarem sozinhas com os namorados. Elas ainda são muito novas, mas acho que vou acabar deixando. João Júlio tenta encontrar um meio-termo. Não quero que tenham medo de mim. Quero que cumpram o que combinamos e que aproveitem a juventude com responsabilidade.
Mariana, que começou namorando o Kriko e hoje está com o Badu, acha que o pai está indo bem. Não posso ficar sozinha com ele no quarto, mas podemos sair de carro. Para mim está ótimo. Ele não é nem liberal demais nem conservador.
Beijo na boca O grande choque de João Júlio, conta a filha, foi quando ele a viu beijando o primeiro namorado. Eu ia viajar e todos foram se despedir. Meu pai estava longe, mas mesmo assim viu o beijo. Com Mariana, ele não falou nada. Mas quando voltei, minha mãe contou que ele ficou dias enciumado. Acho normal, sou a mais velha e é a primeira vez que ele está vivendo isso. Flávia, a caçula, ainda não namora. Espero que seja igual com a minha irmã, diz.
O pai de Rafaela Pereira, de 15 anos, Francelino, de 58, também tenta se acostumar com a idéia de que a filha cresceu. Há dois anos, ela venceu o Super Model Brazil e passou a ser modelo da Ford Models.
Saiu da pequena Triunfo, perto de Porto Alegre, e veio morar em São Paulo. Em janeiro, apareceu com outra novidade: estava namorando pela primeira vez. A sorte é que meu namorado é de Triunfo e as famílias já se conheciam, conta Rafaela. A modelo diz que o pai é conservador. Meu namorado não pode vir a São Paulo. Mas entendo porque sou a pequena dele. Se fosse menino, seria tudo diferente.
Machismo A história realmente fica mais fácil para o pai quando quem começa a namorar é o filho. Ainda vivemos em uma sociedade muito machista e o pai comemora quando o filho começa a namorar porque é sinal de virilidade, explica o psicoterapeuta e professor da PUC Ari Rehfeld. Quando é a menina, ele fica preocupado e com ciúme.
Sossegado. Essa é a definição de Adriano e Priscila para o pai, Elizeu Lopes Ferreira, de 44 anos, quando o assunto é namoro. Considerado liberal pelos filhos, o diretor comercial não foge do assunto quando o tema é namoro ou sexo. Há dois anos, quando tinha 13 anos, Adriano teve a primeira namorada. Meu pai nem soube dessa, foi bem rápido. Mas quando tive a segunda, contei, lembra. Ele falou: Meu filho está virando homem e ficou tranqüilo.
Adriano só levou a quarta namorada para conhecer a família. Minha mãe é que morre de ciúme, mas com o meu pai não tem problema. Posso namorar em casa e perguntar sobre qualquer coisa. Acho que ele é liberal. Tem pai de amigo meu que é super linha dura e proíbe tudo.
Mas com a irmã, Priscila, de 12 anos, Adriano acredita que as coisas não serão tão fáceis. Acho que ele ficará com ciúmes e dificultará um pouco. Além de ser menina, ela é a caçula.
Priscila nunca teve namorado e tem a mesma desconfiança do irmão. Como ele vai ficar com medo que eu quebre a cara, sei que vai me dar um monte de conselhos, diz. E também acho que terá bastante ciúme. Pai sempre pensa que as meninas são mais ingênuas que os meninos, não sei por quê. n


