Primeiro foi o Kriko, que não deixava o telefone livre por um minuto. Agora é o Badu, um sujeito enfeitado com piercings cheio de segundas intenções. Já que não pode impedir suas filhas de namorar, o comerciante João Júlio Peixoto de Almeida, de 48 anos, pai de Mariana, 16, e de Flávia, 14, se dá ao direito de pelo menos colocar apelidos nos candidatos a futuros genros. E de contar até dez ao ver uma cena mais quente. ‘‘Tiro um barato dos namorados, mas é só de brincadeira porque até agora eles se mostraram bons garotos’’, conta.
  Saber que a filha ou o filho começaram o primeiro namoro é um momento difícil para o pai. Uma mistura de ciúme e preocupação com a descoberta de que aquela garotinha está mesmo virando uma mulher, mexe com qualquer homem e, muitas vezes, eles não sabem como agir. ‘‘Acho até que recebi a notícia do primeiro namoro da Mariana numa boa. Controlei meu ciúme, mas é claro que fiquei mexido’’, conta. ‘‘É a sua filha que está namorando e a gente nem sempre sabe direito como agir.’’
  Uma das dúvidas que perseguem o comerciante diz respeito a deixar as filhas viajarem sozinhas com os namorados. ‘‘Elas ainda são muito novas, mas acho que vou acabar deixando.’’ João Júlio tenta encontrar um meio-termo. ‘‘Não quero que tenham medo de mim. Quero que cumpram o que combinamos e que aproveitem a juventude com responsabilidade.’’
  Mariana, que começou namorando o Kriko e hoje está com o Badu, acha que o pai está indo bem. ‘‘Não posso ficar sozinha com ele no quarto, mas podemos sair de carro. Para mim está ótimo. Ele não é nem liberal demais nem conservador.’’
Beijo na boca O grande choque de João Júlio, conta a filha, foi quando ele a viu beijando o primeiro namorado. ‘‘Eu ia viajar e todos foram se despedir. Meu pai estava longe, mas mesmo assim viu o beijo.’’ Com Mariana, ele não falou nada. ‘‘Mas quando voltei, minha mãe contou que ele ficou dias enciumado. Acho normal, sou a mais velha e é a primeira vez que ele está vivendo isso.’’ Flávia, a caçula, ainda não namora. ‘‘Espero que seja igual com a minha irm㒒, diz.
  O pai de Rafaela Pereira, de 15 anos, Francelino, de 58, também tenta se acostumar com a idéia de que a filha cresceu. Há dois anos, ela venceu o Super Model Brazil e passou a ser modelo da Ford Models.
  Saiu da pequena Triunfo, perto de Porto Alegre, e veio morar em São Paulo. Em janeiro, apareceu com outra novidade: estava namorando pela primeira vez. ‘‘A sorte é que meu namorado é de Triunfo e as famílias já se conheciam’’, conta Rafaela. ‘‘A modelo diz que o pai é conservador. ‘‘Meu namorado não pode vir a São Paulo. Mas entendo porque sou a pequena dele. Se fosse menino, seria tudo diferente.’’
Machismo A história realmente fica mais fácil para o pai quando quem começa a namorar é o filho. ‘‘Ainda vivemos em uma sociedade muito machista e o pai comemora quando o filho começa a namorar porque é sinal de virilidade’’, explica o psicoterapeuta e professor da PUC Ari Rehfeld. ‘‘Quando é a menina, ele fica preocupado e com ciúme.’’
  Sossegado. Essa é a definição de Adriano e Priscila para o pai, Elizeu Lopes Ferreira, de 44 anos, quando o assunto é namoro. Considerado liberal pelos filhos, o diretor comercial não foge do assunto quando o tema é namoro ou sexo. Há dois anos, quando tinha 13 anos, Adriano teve a primeira namorada. ‘‘Meu pai nem soube dessa, foi bem rápido. Mas quando tive a segunda, contei’’, lembra. ‘‘Ele falou: ‘Meu filho está virando homem’ e ficou tranqüilo.’’
  Adriano só levou a quarta namorada para conhecer a família. ‘‘Minha mãe é que morre de ciúme, mas com o meu pai não tem problema. Posso namorar em casa e perguntar sobre qualquer coisa. Acho que ele é liberal. Tem pai de amigo meu que é super linha dura e proíbe tudo.’’
  Mas com a irmã, Priscila, de 12 anos, Adriano acredita que as coisas não serão tão fáceis. ‘‘Acho que ele ficará com ciúmes e dificultará um pouco. Além de ser menina, ela é a caçula.’’
  Priscila nunca teve namorado e tem a mesma desconfiança do irmão. ‘‘Como ele vai ficar com medo que eu quebre a cara, sei que vai me dar um monte de conselhos’’, diz. ‘‘E também acho que terá bastante ciúme. Pai sempre pensa que as meninas são mais ingênuas que os meninos, não sei por quê.’’ n

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