Ficção embala sonhos de amor à primeira vista
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quinta-feira, 10 de junho de 2010
Agência Estado 
Um bom noveleiro sabe que começo de novela combina com início de romance. Afinal, um autor tem apenas seis meses para apresentar o casal, separá-lo sucessivas vezes e mandá-los para o altar, de preferência nos minutos finais do último capítulo da trama. Até quem não vive com o dedo grudado no controle remoto já topou com alguma história de amor à primeira vista: elas pipocam pelas telas do cinema e até pelos noticiários de jornal. Sim, tem muito famoso a jurar por aí que paixão à primeira vista existe mesmo. É o caso de Katie Holmes, que não se cansa de contar detalhes sobre o seu conto de fadas com Tom Cruise. Após dois meses de namoro, o astro a pediu em casamento. Quando vi Tom pela primeira vez e ele tocou em minha mão, me apaixonei, diz Katie, que se casou com ator em 2006, tem uma filha com ele, e aparentemente formam uma família feliz.
Já nos primeiros capítulos de Passione, Diana, personagem de Carolina Dieckmann, namorava Rodrigo Lombardi (Mauro), mas assim que conhece seu grande amigo, quase irmão, Marcello Antony (Gerson), sente uma atração fulminante por ele, fica noiva e deverá subir ao altar amanhã (caberá ao autor do roteiro mantê-los juntos ou não).
A psiquiatra Carmita Abdo, autora do livro Descobrimento Sexual do Brasil, explica a reincidência do amor à primeira vista na ficção. Todo mundo quer viver um grande amor, e a TV traz à tona esse sonho que existe dentro de cada um de nós. Não dá outra, as pessoas se identificam, querem ser aquela heroína, querem encontrar aquela pessoa tão perfeita no cotidiano delas também, diz a especialista.
Na tela, geralmente, os personagens são bonitos. Porém, Carmita garante que beleza não é o principal atrativo que leva uma pessoa a interessar-se de imediato por outra. Fiz uma pesquisa sobre isso para escrever o livro e constatei que a beleza aparece em terceiro lugar entre os atributos que homens e mulheres definem como importantes fatores de atratividade. Em primeiro vem a atração física, seguida por afinidade intelectual.
Para a especialista, amor à primeira vista é um fenômeno mais frequente entre pessoas realistas - bem ao contrário do que sugere o sentimentalismo melado dos folhetins. Minha definição de amor é a seguinte: quando a pessoa consegue ver o outro sem idealismos, com todos os seus defeitos, e, mesmo assim mantém seu interesse, é porque se trata de um sentimento realmente sólido.
Porém, na opinião da psiquiatra, existe também o outro lado desse sentimento intempestivo, que pode não durar muito tempo. Alguns estudiosos falam em nove semanas e meia, outros em um ano, alguns em três anos... O tempo é variável, depende da capacidade de entrega de cada um, da frequência dos encontros ... Mas, no fundo, todo mundo quer que seja rápido e intenso, como na novela.
Carmita argumenta que o mito do amor à primeira vista não é, de todo, folclórico. Um sentimento como esse pode surgir em um primeiro encontro, sim. O mais comum, porém, é que tudo comece com uma paixão, aquele sentimento em que a pessoa é incapaz de distinguir as imperfeições do par. Com o tempo, essa paixão vai se transformando em um sentimento mais estável, analisa.
Na Inglaterra, a visão cética dos especialistas perante os amores instantâneos ajuda a reforçar a fama de reservado do povo britânico. Ao estudarem a vida amorosa de 147 casais, estudiosos da Universidade de Bath concluíram que o amor verdadeiro se manifesta apenas após doze meses de relacionamento. Tal premissa mostrou-se verdadeira para 61% das duplas investigadas.
Amor é conceito multifacetado, mas foi estudado na pesquisa como um conjunto de sentimentos de intimidade, paixão e entrega que se tem pelo companheiro. Até agora o amor não havia sido estudado dessa maneira, declara o médico Jeff Gavin, responsável pela pesquisa. Certamente, ainda não traduziram para o inglês os versos de Chico César: Quando lhe achei, me perdi/Quando vi você, me apaixonei.


