Festa na roça
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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Uma vez por semana crianças de várias idades saem da sala de aula e vão até a horta da escola onde estudam. Lá eles colocam em prática tudo que aprenderam na teoria sobre como plantar e cuidar de legumes e verduras. São os pequenos, ajudados pela professora, que abrem os buracos, colocam as sementes, regam, retiram insetos danosos para a plantação e, no final de tudo, colhem o seu trabalho.
Mas esses não são alunos de alguma escola rural distante da realidade da cidade. Essa prática acontece na escola Mundo Encantado, bem perto da região central de Londrina. Em uma área bastante urbana, cercada de muros e do asfalto, as crianças têm a possibilidade de manter contato com a terra e aprender a tirar dela alface, rúcula, cenoura e rabanete.
''Eu e minha mãe, que me ajuda a cuidar da escola, sempre tivemos um contato grande com plantação e concordamos que é algo importante para a infância. As crianças gostam de brincar na terra e de ver as plantas crescendo. Sempre fizemos alguma coisa relacionada a isso e há um ano decidimos reservar um espaço na escola para uma horta de verdade'', conta a diretora da escola Patrícia Silva Moraes.
Segundo a diretora, até as crianças do maternal, com idade a partir de um ano e meio, têm um espaço na horta escolar e cuidam de suas plantinhas. ''As turmas vão em horários diferentes para a horta e cada classe tem seu canteiro. O trabalho de cada grupo varia de acordo com a capacidade de cada idade. Os menores fazem somente coisas mais simples, mas ainda assim eles gostam e nós achamos importante'', afirma.
O contato com a natureza e com a terra, para ela, é um dos grandes ganhos para os alunos. ''A maioria deles mora em apartamento e não tem ninguém que more na área rural e que eles possam visitar. Muitos alunos nunca mexeram em terra, nunca plantaram nada. Para eles, é uma experiência muito boa. As crianças se divertem e aprendem ao mesmo tempo'', diz.
Dentre os aprendizados mais importantes não está o lidar com a terra e com as sementes, mas sim o cuidado com a natureza e a importância de uma alimentação composta por legumes e verduras. ''O problema de muitas crianças é que elas se recusam até a experimentar certas comidas. Quando elas plantam, cuidam e colhem aparece a curiosidade de saber o gosto daquilo. Mesmo que elas não comam, pelo menos terão experimentado'', avalia Patrícia.
Toda a produção da horta é dividida entre os alunos, que levam para casa o resultado da plantação. ''Os pais adoram isso. Temos um aluno que o pai é dono de restaurante e que a cebolinha usada no seu negócio vem quase toda da horta da escola. Mesmo quando as crianças não gostam de determinada espécie, eles querem levar porque os pais gostam'', afirma.
A pedagoga Alexsandra Fantin Gonçalves de Lima, 32 anos, já percebeu na mesa as mudanças da filha Ana Gabriela, 7 anos. ''Esse trabalho é ótimo pelo contato com a terra em primeiro lugar. E além disso tem a questão da alimentação. A Ana come até rúcula e rabanete. Acredito que o fato de ela ter plantado ajudou na aceitação da comida'', comenta.
''Eu moro em casa mas não tem espaço com terra no meu quintal. Quando soube das aulas na horta achei super interessante. Esse trabalho também ensina a ter responsabilidade com as coisas. As crianças aprendem que precisa de muito trabalho e cuidado para a planta ficar boa para comer'', completa a professora Cláudia Pinheiro, 36 anos, mãe de Amanda, 6 anos, aluna do Mundo Encantado.
De acordo com a diretora da escola, o momento de colher as verduras e legumes é o mais aguardado pelas crianças, que ficam impacientes com a demora. ''Procuramos sempre escolher espécies que brotem mais rápido, para que os alunos não desanimem. O rabanete e a cenoura são os que mais fazem sucesso, porque ficam escondidos dentro da terra e as crianças adoram arrancá-los'', diz Patrícia.
Como a horta funciona de uma forma bastante caseira, ela garante que não é necessário o uso de agrotóxicos ou adubos químicos. ''Fazemos tudo de forma bem simples. Antes de fazer a horta com os alunos, nós preparamos a terra com adubos orgânicos. Temos um livro para ajudar os professores a plantar e nunca tivemos grandes problemas. Apenas uma vez que uma plantação de salsinha estragou toda, mas depois descobrimos o motivo e explicamos para as crianças'', lembra a diretora.
E o encantamento dos pequenos é tanto que ela garante que houve uma grande decepção de todos com a plantação malsucedida. ''A horta cria nas crianças uma consciência de preservar a natureza. Elas ficam curiosas com outras plantas que não conhecem, ®MDBO¯®MDNM¯querem saber o que é e não saem arrancando e pisando em cima como a maioria das crianças faz'', diz.
Isso porque nas aulas teóricas os alunos aprendem como é trabalhoso para uma planta nascer e crescer forte e saudável. ''Antes de vir para a horta, eles aprendem um monte de coisa na teoria. Claro que isso varia de acordo com a idade de cada turma, mas eles sabem que precisa abrir um buraco na terra, colocar a semente, regar com frequência e esperar um tempo. Eles também aprendem o valor nutritivo de cada planta'', afirma.
Se os pais se importam com a sujeira que os filhos chegam em casa em dia de aula na horta? ''Eles nunca reclamaram porque a sujeira não é tanta. Acho que vale a pena'', garante a diretora. ''A sujeira até que existe, mas o prazer de eles estarem brincando com a terra é muito maior'', explica Cláudia.


